parabéns ao artur

Num jantar de campanha para as eleições brasileiras em que participei recentemente, a convite de um amigo, na região de São Paulo, travei conhecimento com um dos extraordinários aspectos da legislação eleitoral do país: a proibição de oferecer comida em campanha, sob pena de acusação judicial de compra de votos e consequente perda de direitos eleitorais dos candidatos envolvidos. Para o evitar, os políticos brasileiros recorrem a um expediente mais extraordinário ainda do que a lei que o originou: simulam que estes eventos não se tratam de reuniões políticas, mas de festejos de aniversário de alguém presente. Por pouco, ia-me cabendo a «distinção» a mim, que aleguei, em legítima defesa e último recurso, o facto de ser estrangeiro, logo, não ser um aniversariante fiável para uma festa com tanta gente. Consegui escapar. Avançou-se, então, para o Artur. O Artur, uma das cerca de 200 pessoas presentes no simpático evento por onde circularam pouco mais do que uns canapés e uns copos de vinho tinto, se não fazia anos, passou a fazê-los naquele dia. Assim, o jantar político foi convertido na festa do seu «aniversário». Um por um, deputados presentes, prefeitos actuais e antigos, dirigentes políticos sortidos e candidatos aos mais elevados cargos da nação, sucessivamente, à medida que discursavam num palanque improvisado, não se esqueciam de citar o Artur, de «parabenizar» o Artur, de o felicitar pelo brilhantismo da festa, de mandar abraços e cumprimentos à família, mulher e filhos do Artur. De permeio, anunciavam obras faraónicas e reformas extraordinárias, caso fossem eleitos, e faziam antever as sete pragas do Egipto, na hipótese de vitória adversária. Quando a coisa terminou, obviamente com o hino nacional e os parabéns cantados ao Artur, invadiu-me uma imensa nostalgia dos frigoríficos e dos frangos do Major Valentim Loureiro, homem que, entre as suas muitas qualidades e os poucos defeitos de que Deus o dotou, certamente não deixaria, em caso algum, o nosso Artur de mãos a abanar, como aconteceu. Fizesse ele anos ou não.

7 Comentários

  1. A. R
    Posted 9 Setembro, 2010 at 09:53 | Permalink

    A probabilidade de ninguém fazer anos nesse dia é de apenas 57% Portanto não é estranha que tenha calhado a alguém.

    Já o camarada da cirrose e do meenino do MEP pode fazer campanha e ser multado pois o povo é que lhe paga as multas (ele próprio o disse

  2. Posted 9 Setembro, 2010 at 10:40 | Permalink

    Um legislador rigoroso só admitiria eleitores que não fizessem anos nos períodos eleitorais.

  3. Licas
    Posted 9 Setembro, 2010 at 14:37 | Permalink

    A probabilidade de 2 pessoas fazerem anos no mesmo dia é 50% se escolhermos 23 delas ao acaso.
    Bem
    Uma sociedade em que fornecer uma refeição gratis é considerado suborno . . .
    Das 2 uma:
    ___Ou é mesmo taradinha do cabeça,
    ___Ou anda toda a gente com FOME.

  4. Posted 9 Setembro, 2010 at 19:19 | Permalink

    Falou dos frigoríficos do Valentim Loureiro.Também não gostei da atitude.Mas do que eu me recordo em muito maior escala de que a Helena não fala!Veja se adivinha?

  5. Posted 9 Setembro, 2010 at 19:23 | Permalink

    Ó d. Helena desculpe,afinal foi o rui que disse-

  6. Posted 10 Setembro, 2010 at 00:01 | Permalink

    Muito bom!!! O que já me ri!

  7. Nuno
    Posted 10 Setembro, 2010 at 03:13 | Permalink


    A legislação “não é assim tão rígida”. Os brasiletas têm imensa imaginação e, além de presentes de vária ordem, oferecem bebidas acompanhadas, com fartura, de bolinhos e outros “docinhos”.
    Ponto é que as campanhas para as eleições envergonham qualquer um.

    Nuno


Um Trackback

  1. Por you make me happy! « BLASFÉMIAS em 9 Setembro, 2010 às 22:58

    [...] by rui a. em 9 Setembro, 2010 Ao segundo post, entrada directa no blog oficial do governo. E, ainda por cima, carimbado de «fascista». É muita [...]

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