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São os défices e as dívidas, estúpidos!!! (III)

16 Agosto, 2011
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Julgo que com a honrosa excepção da vilipendiada Ângela Merkel, os políticos europeus denotam um confrangedor défice de clarividência que os impede de ver que “o mundo mudou”. Durante décadas, usaram e abusaram da despesa pública como estabilizador económico, “alavancada” por défices e por dívida que, a prazo, transformaram quase todos os países europeus em autênticos “infernos fiscais”. Julgavam ter descoberto a solução mágica, uma espécie de alquimia financeira que resolvia toda e qualquer crise atirando-lhe dinheiro, muito dinheiro, todo o que fosse necessário.

As recorrentes crises inflacionárias iam impondo alguma moderação na cadência das rotativas; mais recentemente, o acréscimo de concorrência decorrente da globalização constituiu novo e poderoso entrave à livre subida dos preços. Mas a globalização também se estendeu ao mercado do crédito, abrindo novas fontes de financiamento aos países “consumistas”, que foram “aperfeiçoando” o seu prezado “modelo social” com os excedentes que os produtores e exportadores iam libertando e aplicando. Não há porém modelo que subsista eternamente a gastar mais do que recebe e a acumular dívidas, posturas laxistas que corroem o mais robusto Triple A, como se viu recentemente com o downgrading americano e se verá em breve com o francês.

Os políticos europeus – e também americanos – não entendem ou não querem entender que andaram anos a gastar recursos e a comprar votos com despesas sociais não reprodutivas, actos de tal forma debilitadores das economias dos respectivos países, que já não conseguem sustentar o monstro em que se transformou o venerado modelo social. De ambos os lados do Atlântico, a resposta tem sido basicamente a mesma, a fuga em frente: mais dívida ou mais massa monetária, “empacotadas” como FEEF ou como Quantitative Easing. Existe ainda a variante das eurobonds por que muitos suspiram, enquadradas por um orçamento federal que, na prática, será uma forma de instituir mais impostos para os contribuintes europeus.

Mas estando já o problema diagnosticado como sendo uma crise das dívidas soberanas, é francamente asinino considerar como solução mais e maior endividamento. A solução estruturante passa por reduzir a despesa pública, algo que os políticos não sabem, mas sobretudo não querem fazer. Porque implica cortar em definitivo todo um conjunto de direitos ditos sociais e adquiridos, que constituem as principais ou únicas bandeiras eleitorais dos partidos do poder; porque a prazo, tornará os cidadãos menos dependentes do Estado, alterando-se a relação de poder a favor da sociedade civil.

É no fundo esta lógica de poder que é relevante no “mercado político” e que entrava por sistema as melhores soluções. O poder do Estado evolui na razão directa dos milhões do orçamento; estes, por sua vez, andam na razão inversa da liberdade dos cidadãos. Dos pagantes, claro.

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16 Comentários leave one →
  1. 16 Agosto, 2011 14:28

    O problema pouco tem a ver com as dívidas soberanas.
    Basta ver que o problema dos EUA não foi a sua dívida mas antes os republicanos não quererem que ela aumente!

  2. Arlindo da Costa permalink
    16 Agosto, 2011 14:33

    Não são os deficits nem são as dívidas.
    São a loucura, a desorganização e ineficácia do modelo europeu e da administração da sua moeda.
    E já não falo das protuberâncias burocráticas europeias.
    Se o actual problema europeu fosse gerido com as ferramentas que estão ao alcance do modelo federal americano e com os mecanismos da Reserva Federal, certamente que grande parte dos actuais problemas já teriam tido solução.
    Com o actual modelo, quem vai querer sair da zona euro ou mesmo ser expulsa desta é a Alemanha.
    A Merkel e a sua entourage já demonstraram que nem um municipio da Floresta Negra conseguem gerir.
    Não queria ver a Merkel a governar Portugal nem que ela se oferecesse…
    Mais dia menos dia os alemães vão cair nas ratoeiras que armaram por toda a Europa.
    Os alemães sem a Europa não vão longe ….Aliás, estão cercados por todos os lados!
    (Já sei que vão aparecer os habituais tiriricas a dizer a Alemanha «assim» e a Alemanha «assado».
    Pois bem, acreditem no Arlindo: a Alemanha vai baquear e vai passar um mau bocado.
    E quem é muito admirador da Alemanha, que vá para lá e desempare a loja aqui, pois quando a guerra começar eu não me importo de saber de quem está do lado de lá…)

  3. 16 Agosto, 2011 14:51

    “Se o actual problema europeu fosse gerido com as ferramentas que estão ao alcance do modelo federal americano e com os mecanismos da Reserva Federal,”

    O problema é outro, a Europa não é um país e não pode ter as ferramentas referidas pois isso implicaria grandes cedências de soberania que os povos europeus não suportariam.
    Alguém imagina que a Alemanha (ou a França) aceitassem uma Câmara Alta (como o Senado norte-americano) em que a Alemanha tivesse dois senadores, a França dois, a Grécia dois, Portugal dois, o Luxemburgo dois, etc.? Claro que não! Mas o Senado é imprescindível no modelo americano… e, nos EUA, o Wyoming com 530.000 habitantes tem dois senadores tal como a Califórnia com 37 milhões de habitantes.

  4. JCA permalink
    16 Agosto, 2011 14:52

    A HISTORIA DE QUANDO A POLÍTICA FOI CORRIDA DE GOVERNAR OS PAÍSES E COMO ACABARAM OS GOVERNOS:
    .
    -The Full S&P Statement on the Downgrade of U.S. Government Debt

    http://www.economicpolicyjournal.com/2011/08/full-s-statement-on-downgrade-of-us.html

    .
    -Drunken Ben Bernanke Tells Everyone At Neighborhood Bar How Screwed U.S. Economy Really Is

    http://www.theonion.com/articles/drunken-ben-bernanke-tells-everyone-at-neighborhoo,21059/?

    .
    São precisos politicos a governar se não governam nada ? Não mandam em NADA. Zero. Atiram-os para a ..r.. Depois dos yupiees, e tal e mais uns quantos, meus AMIGOS ESTAMOS NA FASE DOS POLITICOS PSICONAUTAS (busca, busca no Google e na Metahistória … busca…)
    .
    Portanto …. Pois …. É assim ou não é ? Simplesmente a fase dos ‘politicos’ psiconautas; seria ou será ?
    .

  5. Lima permalink
    16 Agosto, 2011 15:05

    “Alguém imagina que a Alemanha (ou a França) aceitassem uma Câmara Alta (como o Senado norte-americano) em que a Alemanha tivesse dois senadores, a França dois, a Grécia dois, Portugal dois, o Luxemburgo dois, etc.? Claro que não! Mas o Senado é imprescindível no modelo americano… e, nos EUA, o Wyoming com 530.000 habitantes tem dois senadores tal como a Califórnia com 37 milhões de habitantes.”

    Pois, só que os americanos já resolveram em definitivo essa questão, com a guerra da secessão, e um milhão de mortos. A Europa, com duas guerras no bucho, bem poderia ter usado o seu último armistício para implementar de vez uma solução similar, mas não, subsistiram os nacionalismos patetas e chegamos agora a este buraco, aparentemente sem solução pacífica.

  6. JCA permalink
    16 Agosto, 2011 15:18

    .
    Uma potencia com esta força militar, só ingénuos acreditam que será arruinada quer na sua moeda quer na liderança:
    .
    -Footage of Mass Troop Movements Across U.S. – Are They Getting Ready ?

    http://www.shtfplan.com/headline-news/footage-of-mass-troop-movements-across-u-s-are-they-getting-ready_08032011

    .
    apesar de bancos que são de estrangeiros:
    .
    -Bank of America Stock Is Up … But So Are Bets That It Will Fail

    http://georgewashington2.blogspot.com/2011/08/bank-of-americas-stock-skyrocketed.html

    .
    embora fora dos EUA a coisa esteja bem preta (não sou de intrigas mas o que dizem por aí é que faltam os voches que vão a seguir, nem os xinos lhes balerão)
    .
    -SocGen, Unicredit On “Brink Of Disaster”?

    http://www.zerohedge.com/news/socgen-unicredit-bring-disaster

    .
    -South Korea Joins Greece In Banning Short Selling

    http://www.zerohedge.com/news/south-korea-joins-greece-banning-short-selling

    .
    Nós por cá, andamos com uns gajos que ingenuamente ainda acreditam que embasbacam os ‘tugas’ quando se poem em bicos de pés para aparecerem com a cabecita esticada nas fotografias dos que dizem ‘grandes’. Psiconautices ‘xamanicas’ com as vozes entaremeladas …… ou só gritinhos excitados ….. Nada contra nem a favor. Mas lá que é giro e malta goza que nem ‘pretos’, isso é.
    .

  7. A. C. da Silveira permalink
    16 Agosto, 2011 18:56

    Há uma hora atrás, estive a ouvir a conferencia de imprensa da Mme Merkel, e de M. Sarkozy! Eles explicaram tudo e em palavras muito simples. Eles dizem que vão por as contas dos seus paises na ordem, reduzir os defices e as dividas. Quem não o fizer, escusa de pedir ajuda, porque não há nada para ninguem. Sarkozy disse mesmo que não seriam capazes de explicar às suas populações, ajudas a paises que se continuem a endividar e não reduzam os seus defices. E querem que todos os paises introduzam nas suas constituições a “regra de ouro”: os defices dos paises não podem ultrapassar o que está acordado.
    Se bem percebi, este acordo quer dizer o seguinte: o estado social como o conhecemos, vai ser muito dificil de manter, porque não é sustentavel com defices cronicos. No que nos diz respeito, acho muito bem que o governo ponha as trancas na porta, porque daqui prá frente vai ser a doer. E muito.

  8. lucklucky permalink
    16 Agosto, 2011 19:08

    “Basta ver que o problema dos EUA não foi a sua dívida mas antes os republicanos não quererem que ela aumente!”
    .
    Hahaha! É preciso ser burro. Mas burro daqueles que só os Jornais e as Universidades produzem.
    Ou seja para si se a Dívida dos EUA for maior, fica mais fácil pagar a Dívida. 2+2=6.
    .
    Já agora suponho que isto não seja notícia nos jornais tugas- não segue a narrativa-

    http://www.swedishwire.com/politics/10940-sweden-apologises-to-baltics-over-soviet-era

    .
    “Sweden apologises to Baltics over Soviet era

    Sweden owes its Baltic neighbours a “debt of honour” for turning a blind eye to post-war Soviet occupation, Swedish Prime Minister Fredrik Reinfeldt told his counterparts on Monday.

    During a ceremony in Stockholm attended by the prime ministers of Estonia, Lithuania and Latvia, Reinfeldt spoke of “a dark moment” in his country’s history.

    “Sweden was among the first countries to recognise the Soviet occupation of the Baltic countries” in 1944, he said at a celebration marking the 20th anniversary of the three countries’ independence.

    In 1945, Stockholm extradited to the Soviet Union around 170 soldiers from the Baltic countries who had fled the Red Army and found refuge in Sweden.

    “The extradition of the Balts is a dark moment in Swedish foreign policy,” Reinfeldt said.

    He said that Sweden had long ignored its Baltic neighbours and urged for post-independence relations to continue strengthening.

    “For decades, Sweden did not acknowledge Baltic suffering,” the conservative prime minister said.

    “I hold in my hand a Swedish school book used during the 1980s. It makes no mention at all of the destiny of Estonia, Latvia and Lithuania after the Second World War. Not one word,” Reinfeldt said.

    “In fact, it is hard to find any reference to the fact that there had ever been any Baltic countries. This was the reality when I went to school,” the 46-year-old leader said.

    “Sweden has a debt of honour to the people of Estonia, Latvia and Lithuania. We owe it to ourselves — and we owe it to the Baltic peoples — to remember the past, but also to build a common future,” he added.

    Latvia’s Valdis Dombrovskis, Lithuania’s Andrius Kubilius and Estonia’s Andrus Ansip thanked Sweden for the assistance it has given their states since independence.

    The ceremony was held at a Stockholm square where dozens of meetings known as the “Monday meetings” were held in 1990 and 1991 to support the Baltics’ efforts to regain independence.

    The three states organised a human chain in 1989 in which two million people joined hands, linking the Baltic capitals, against Soviet rule.

    The landmark protest started a sequence that eventually led to the three nations’ independence by 1991.

    Last Updated (Monday, 15 August 2011 17:53)”

  9. lucklucky permalink
    17 Agosto, 2011 00:51

    I wasn’t talking to you…

  10. Tiradentes permalink
    17 Agosto, 2011 11:58

    Quem quiser saber da “europa assim ou da europa assado” é só ler o arlindismo assima.

  11. Tiradentes permalink
    17 Agosto, 2011 11:59

    acima** e não assina apesar de ser “assinado” pelo Arlindo

  12. nuno granja permalink
    25 Maio, 2012 01:28

    BRILHANTE!

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