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Fui ver o futuro e… não funciona

14 Abril, 2012
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Escrevi este texto para a edição de ontem do Público. As últimas notícias sobre a passagem da idade da reforma para os 67 anos vêm mesmo a propósito:

Lembram-se de Portugal e da Europa por volta do ano 2000? Não é muito difícil, foi apenas há 12 anos, mas parece que foi há uma eternidade.

Os tempos eram de euforia. O euro vinha a caminho, a Europa aceitava novos membros e a “Estratégia de Lisboa” prometia transformar o Velho Continente no lugar mais competitivo da economia mundial. Já Portugal vivera há pouco a Expo 98 e preparava o Euro 2004. Estalavam foguetes por todo o lado.

Hoje choram-se lágrimas amargas. A crise do euro está longe de ultrapassada. A Grécia caminha para umas eleições de que não se sabe se sairá qualquer solução de governabilidade. Em Madrid teme-se que a deterioração da situação obrigue a um pedido de ajuda, altura em verdadeiramente ninguém sabe o que sucederá ao euro. E Portugal vai conhecendo más notícias atrás de más notícias. As últimas foram as relativas ao regresso, “faseado”, dos subsídios de férias e de Natal apenas lá para 2015 e à suspensão das reformas antecipadas. É deprimente, mesmo sendo verdade que o melhor é conhecer depressa as más notícias, sobretudo melhor do que andar encadeado com mentiras piedosas, como sucedeu num passado recente.

O pior é que não sabemos se daqui por dez ou doze anos conseguimos regressar ao optimismo da viragem do milénio. Eu suspeito que não, até porque as dinâmicas de fundo jogam contra nós. E tudo o que inventámos, nomeadamente a tal “Estratégia de Lisboa”, não só não nos salvou do actual destino como, nalguns países mais imprevidentes, como Portugal, até ajudou a agravar os problemas ao ter contribuído para a gigantesca acumulação de dívida.

Tomemos, por exemplo, a ingrata medida da suspensão das reformas antecipadas. Não sei quanto dinheiro se poupou com ela, mas sei que é preciso começar a poupar dinheiro desde já. Basta olhar para alguns números. Em 2000, as receitas da Segurança Social correspondiam a 9,9% da riqueza nacional; em 2010 tinham saltado para 19,5%. Mesmo assim, essas receitas eram, e são, insuficientes para pagar reformas decentes a milhões de pensionistas. Porquê? Entre outros motivos porque em Portugal existem 3,4 milhões de pensionistas (incluindo os da função pública) e já só 4,74 milhões de trabalhadores empregados. Ou seja, quase três reformados para cada quatro trabalhadores. Mais: em 2001, a idade média da reforma era aos 64,1 anos; em 2011 foi aos 62,1 anos (e aos 59,9 na administração pública). Isto significa que, em 2001, quando alguém se reformava tinha ainda uma esperança de vida de um pouco mais de 18 anos; hoje essa esperança de vida, contada a partida da idade média da reforma, é de quase 21 anos.

Como, entretanto, a natalidade em Portugal caiu para mínimos históricos em 2011 e como, por cada cem portugueses com menos de 15 anos, já há 130 portugueses com mais de 65, as tendências da demografia não vão no sentido de aliviar as dores do sistema de Segurança Social, antes as agravarão. Como também tenderão a tornar ainda mais pesadas as despesas com o sistema de saúde. Por isso, se nada alterar as tendências de fundo da demografia nacional, então será o próprio Medina Carreira que passará a ser tomado por incorrigível optimista: é que ele, apesar de tudo, ainda dá cinco ou seis anos de vida ao nosso “Estado social”.

Mesmo assim há quem insista e ache que acrescentar uma adenda aos tratados europeus, que seria uma espécie de “estratégia de Lisboa constitucionalizada”, resolveria os nossos problemas. Pelo contrário: foram décadas de voluntarismo e de “políticas de crescimento” que nos trouxeram até ao actual buraco.

 P.S. – “Roubei” o título desta crónica a uma frase do jornalista norte-americano Lincoln Steffens, que, nos anos 1920, depois de ter ido à URSS, costumava dizer que fora ver o futuro e este funcionava. Como sabemos, esse futuro não funcionou.

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13 Comentários leave one →
  1. 14 Abril, 2012 18:28

    “Já Portugal vivera há pouco a Expo 98 e preparava o Euro 2004. Estalavam foguetes por todo o lado.”

    Discordo totalmente.
    Agora é que estamos a viver a Expo 98 e o Euro 2004…pagando-os. Estalam empresas por todo o lado.
    É como diria um nosso cam’rada, “ces’t lóre de paguer”.

  2. balde-de-cal permalink
    14 Abril, 2012 21:00

    a esperança de vida ou longevidade tornou-se um castigo
    morre-se só e por vezes de fome

  3. Joaquim Amado Lopes permalink
    14 Abril, 2012 23:41

    “é preciso começar a poupar dinheiro desde já”
    É preciso um mínimo de justiça desde já. As novas regras relativas a reformas, subsídios e subvenções, incluíndo naturalmente os valores, devem ser aplicadas a todas as situações e não apenas às novas. Não faz qualquer sentido que os que trabalham para pagar as reformas actuais já tenham como certo que quando se reformarem receberão muito menos do que aqueles que estão agora a sustentar.

  4. JCA permalink
    15 Abril, 2012 04:48

    -
    -The President Of Iceland Tells Us How He Had The Balls
    .
    “This democracy was pivotal in the choice to let three giant banks fail during the financial crisis.
    .
    Other countries, of course, haven’t been so lucky. The crisis remains front page news in Greece, Italy, Portugal and Spain — countries that followed a very different response from Iceland’s.
    Ólafur – he worked as finance minister for several years before he became president of the country in 1996 – argues that his country’s strength came from recognizing the problem was not just an “economic and financial challenge”, but a “profound social, political, and even judicial” challenge.
    .
    A key example of this approach is Iceland’s refusal to pump money into failed banks. The decision was controversial at the time, but now looks increasingly wise. “I have never understood the argument — why a private bank or financial fund is somehow better for the well being and future of the economy than the industrial sector, the IT sector, the creative sector, or the manufacturing sector”
    .

    http://www.businessinsider.com/olafur-ragnar-grmsson-iceland-icesave-uk-banks-europe-2012-4#ixzz1s4FjPbx2

    .
    -Iceland forgives mortgage debt of its population
    .

    .

  5. JCA permalink
    15 Abril, 2012 04:49

    .
    Algumas surpresas:
    .
    Mapa interactivo da Zona Euro: Desemprego, Desemprego dos Jovens, PIB, Crescimento, Debito/PIB:
    .

    http://edition.cnn.com/SPECIALS/business/euro-crisis/index.html?iid=article_sidebar

    .

  6. JCA permalink
    15 Abril, 2012 04:54

    .
    Sal & Pimenta:
    .
    Karl Marx: “From each according to ability, to each according to need.” What does this mean?
    .
    -The tenets of socialism
    .
    “The government interference in people’s lives is unprecedented. Never before have Americans been told what they can and cannot eat. We’ve never been told how much water we can put in our toilet tanks. We’ve never been told that we have to purchase health insurance. Never before has the United States Congress turned a deaf ear to its constituents.

    .
    If someone wishes to smoke cigarettes, they should not be denied. If it damages their health, it’s on them, not the taxpayers. If people want to consume alcohol, it’s their right. If it damages their health, it’s on them. If Glenn Beck wants to eat jellybeans, let him. If it damages his health, it’s on him. If the American people were to exercise more personal responsibility, if they were required to pay the price, their lifestyle choices might be different.
    .
    But, this is the way communism and socialism work. Reforms and entitlement programs are steam rolled through at all costs against the will of the people. Subjugate them and economically enslave them. Control them with food. Then, they cannot revolt”
    .

    http://www.lsnewsgroup.com/2012/04/11/the-tenets-of-socialism/

    .

  7. JCA permalink
    15 Abril, 2012 05:06

    .
    Esta é mais profissional para os Senhores do Jornalismo e da Politica.
    .
    SEGREDO, LIBERDADE, CENSURA e MANIPULAÇÃO DA OPONIÃO PUBLICA:
    .
    -Was John F. Kennedy A Conspiracy Theorist ?
    .
    “The very word “secrecy” is repugnant in a free and open society; and we are as a people inherently and historically opposed to secret societies, to secret oaths and secret proceedings.
    .
    No President should fear public scrutinity of his program. For from that scrutiny comes understanding; and from that understanding comes support or opposition.
    .
    This Administration intends to be candid about its errors; for as a wise man once said: “An error does not become a mistake until you refuse to correct it.”
    .
    Without debate, without criticism, no Administration and no country can succeed– and no republic can survive. That is why the Athenian lawmaker Solon decreed it a crime for any citizen to shrink from controversy”
    .

    http://www.brasschecktv.com/videos/censorship/a-portion-of-kennedys-speech-before-theamerican-newspaper-publishers-association.html

    .

  8. piscoiso permalink
    15 Abril, 2012 12:45

    Pois eu acho que o futuro funciona sempre.
    Pode é não funcionar como desejaríamos.
    Quanto ao facto de “roubar” o título ao Steffens, não me surpreende.
    Estranho é apenas confessar esse.

  9. ANTONIO LUIS SAMEIRO permalink
    15 Abril, 2012 13:17

    no estado há muita gente que tem sobre o estado direitos de saque e não contribui com nada para o mesmo

  10. S Guimarães permalink
    15 Abril, 2012 16:28

    O JMF estranha que os portugueses gostem mais de palavreado lindo, e sonhos cor de rosa.
    Sempre assim foi, e parece que ainda não se habituaram a quem lhes mostre a realidade existente.
    O futuro apresenta-se negro mas, os que malbarataram os recursos que existiram, serão aqueles que para muitas cigarras serão os “salvadores” da Pátria amanhã.

  11. 16 Abril, 2012 08:49

    http://notaslivres.blogspot.pt/2012/04/teoria-da-conspiracao.html

    No que se refere ao emprego, tudo parece estar a ser feito ao contrário.
    Num ambiente económico em que o trabalho se deslocaliza continuamente para os países emergentes, reduzindo a sua disponibilidade, tudo apontaria para a flexibilização das regras que definem uma unidade de trabalho, com a finalidade de assegurar uma melhor distribuição desse bem, o mais relevante na nova economia.

    A verdade é que há cada vez menos trabalho e nada aponta para que a situação se inverta. Os nossos líderes vão manifestando estranheza em relação aos níveis do desemprego, mas a única estranheza possível é o fato deles estranharem o que era evidente e mais que previsível…

    Ao contrário do que seria de esperar – que as unidades de trabalho se reduzissem com o correspondente corte remuneratório – as políticas atuais (sob pressão dos Planos de Ajuste) atuam ao contrário: mais trabalho para alguns (os que conseguem manter o emprego, nas empresas sobreviventes) e muito mais desemprego. Mais horas de trabalho diário, menos feriados, menos dias de férias. Reforma mais tarde. Tudo (aparentemente) ao contrário…

    E é aqui que entra a “teoria da conspiração”.

    A redução do trabalho disponível, sendo irreversível, atinge cada país (do bloco) desenvolvido de formas e timings diferentes. A verdade é que os nossos “salvadores”, os países do centro e norte europeu ainda têm industria para mais alguns anos, a salvo dos países emergentes. E já entenderam o erro que estavam a seguir no que se refere à mão de obra de baixo custo que estavam a absorver. A sua imigração tinha origem em países cultural e principalmente religiosamente muito distintos dos seus. A França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Finlândia, Suécia, Noruega, etc começam a sentir, “na pele”, esse erro. Os desequilíbrios culturais e religiosos internos começam a assumir proporções imprevistas. E, rapidamente, iniciam o processo inverso: conter essa origem de imigração (repatriando, inclusive o máximo possível), abrindo de novo, uma nova porta de entrada, a novos imigrantes vindos de dentro da Europa… dos países do Sul.

    Para que esta nova política funcione, três coisas precisam – antes – de ficar garantidas:

    1)Que há muito desemprego nesses países.
    2)Que o trabalho que “fica” nesses países seja ainda menos bem pago do que actualmente (face ao que pagarão no centro e norte da Europa pelos empregos mais desprestigiados).
    3)Que os respetivos dirigentes sejam controláveis e que, por essa via, valorizem publicamente a emigração como alternativa à economia local, em depressão e ao estado de coisas (lamentáveis) que atingem esses países.

    Quanto ao resto, cada um que conclua…

    Trabalho qualificado?
    Esse, só mesmo nos países emergentes. Esse, os “desenvolvidos” guardam para os seus…

  12. silva permalink
    16 Abril, 2012 17:30

    História da corrupção em Portugal.
    Vejamos o procedimento de gente corrupta.
    Márocas, como administrador da empresa, ao fim de uns anos e sabendo, que o seu lugar está chegando ao fim, começa a pensar o que vai ser de mim, embora com uma reforma choruda, deixo toda uma atividade que me mantinha vivo.
    Bom antes que isso aconteça vai preparar, já o caminho, aos seus amigos e familiares, que trabalhando na sombra, asseguram outro rendimento, que o deixa orgulhoso dele mesmo.
    Sendo assim, combinado com os seus amigos e familiares, constroem empresas de outsourcing, para quando envolver a empresa num despedimento coletivo, alegando a quebra de lucros, os amigos e familiares estejam, preparados para substituir ilegalmente os trabalhadores despedidos.
    Ora quem vai desconfiar de mim, administrador da empresa com cartas dadas a todos os níveis, jogando toda a influência que tem, com os médias, empresários, governos e até gabinetes de advogados, além de todo o corpo gerente da empresa.
    Estando tudo isto organizado, com o estado a meu favor mais a justiça, e a empresa a criar já o ambiente de preparação faço o ultimato o DESPEDIMENTO COLETIVO. Desgraço a vida de muita gente, mas tem que ser, pois tenho que levar uma vida de rei, dando tudo aos amigos e familiares, que se lixem os que querem trabalhar sem a minha bênção.
    O administrador tem a capacidade de enganar de tal modo que alguns, apercebendo – se mais tarde deste golpe e que no fundo ainda lhes resta um pouco de solidariedade e decência, querem mostrar – se, mas já estão de tal maneira comprometidos com o corrupto, que só lamentam o despedimento coletivo.
    NÃO HÁ NINGUÉM EM PORTUGAL QUE NÃO CONHEÇA CASOS DESTES, DESDE GOVERNOS Á POPULAÇÃO EM GERAL, MAS O MAIS GRAVE É ADTIRMOS QUE SE CONTINUE COM ESTE FLAGÊLO NACIONAL QUE ESTÁ A LEVAR O PAÍS PARA A MISÉRIA TOTAL.
    Por: luta até á morte

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