BLASFÉMIAS

31 de Janeiro de 1891

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Alguns dos revoltosos do 31 de Janeiro de 1891, no Vapor Moçambique, nas vésperas de seguirem para o degredo. Rostos esculpidos em firmeza, com uma expressão convicta que hoje já não se tem, de cerviz dura, gente do Porto que exibe um alento que nenhuma derrota alquebrará.

Como alguém já disse noutro propósito, “há derrotas que são vitórias”. E vice-versa. Apesar de ainda vencedor, o regime monárquico revelou-se exangue, arrastando-se de Governo em Governo sem soluções nem vontade de as encontrar, entorpecido pela corrupção, pelo nepotismo e a falta de gente que lhe valesse.

Sempre julguei que, caso os revoltosos do ’31’ tivessem vencido, a República não se teria enredado no ‘umbilicalismo’ lisboeta de que, afinal, nunca se libertou. Mas nunca o saberemos. As três Repúblicas que tivemos herdaram quase todos os defeitos da Monarquia (mormente a Corte onde se acotovelam os favoritos do Estado sempre à espera de benesses), imitaram-na nos seus piores momentos.

Mas mesmo na desilusão em que não posso deixar de estar, para um liberal ‘à antiga’, há distinções cujo peso é inexcedível: com todos os seus tiques monarquistas, na República, finou-se o direito natural de alguém assumir uma posição pública pelo simples e sempre duvidoso facto do nascimento, pela ideia repugnante, que intrinsecamente despreza o mérito, de que uma família ou um clã se acharem superiores aos indivíduos fora da sua linhagem por que se dizem filhos de alguém. E essa é, pelo menos (mas outras existem), uma razão que enobrece a República face a todas as Monarquias e que faz com que o sangue vertido pelos bravos do 31 de Janeiro não o tenha sido em vão.

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