Casa Pia. Freeport. Escutas em Belém – estes casos têm em comum o não estarem encerrados e envolverem os máximos dirigentes de Portugal, respectivamente o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro e o Presidente da República. Enquanto estes casos decorriam e decorrem, segundo os números apresentados por Medina Carreira e até agora não desmentidos, o nosso endividamento externo tem crescido ao ritmo de 34 milhões de euros por dia. E entre os 27 países da UE conseguimos o paradoxo de o PIB per capita nos atirar para o 19º lugar, enquanto na hora de pagarmos impostos já subirmos para o 14º e no momento de o Estado gastar chegarmos ao 7º.
Enquanto os escândalos correm e a prestação negativa do país se agudiza a classe política declarou-se empenhada em salvar os portugueses do aquecimento global, agora denominado mais abrangentemente por alterações climáticas. Da gripe das aves e da gripe A. Da escassez de petróleo. Dos frangos com nitrofuranos. Da escassez de alimentos. Quando a crise económica se tornou mundial e ganhou foros de catástrofe tornou-se finalmente enquadrável neste discurso do salvamento do povo português em relação a inimigos longínquos e sem rosto. Afinal os líderes estão muito mais à vontade para falar da salvação do mundo do que dos problemas concretos.
Vivemos o dia a dia na voragem trepidante do ‘escândalo médio seguido de ameaça de catástrofe natural a que logo sucede outro escândalo até aí de caracerísticas inimagináveis mas que logo dá lugar à ansiedade gerada por outra ameça ambiental que pode levar a espécie ao extermínio.’ E assim, entre escândalos que se arrastam e a prontidão de quem nos governa para nos salvar do apocalipse, temos empobrecido paulatinamente. Pela primeira vez em muitas décadas, as gerações que estão no poder vão legar aos filhos e aos netos um país mais pobre e mais fraco do que aquele que receberam. Se isto não é o falhanço da classe política o que será falhar?
A consequência mais visível deste esvaziamento do discurso político é o protagonismo dos jornalistas. Não é por acaso que os jornalistas se tornaram nos principais protagonistas desta campanha eleitoral. Foi das redacções e não das palavras dos seus opositores que vieram os dados que ao longo destes quatro anos mais incomodaram o primeiro-ministro. São jornalistas e não os líderes da oposição os visados na vaia de honra no último congresso do PS. São jornalistas aqueles que desde que esta campanha começou têm literalmente dado o corpo ao manifesto protagonizando os casos que podem fazer a diferença no dia 27 de Setembro. E isto acontece não apenas porque existem casos – e a comunicação social não faz mais do que o seu dever ao revelá-los. Isto acontece porque os casos, naturalmente relatados pelos jornalistas, se substituíram ao debate ideológico que deveria ser protagonizado pelos políticos.
Infelizmente enquanto que as espécies têm evoluído diferenciando-se umas das outras, o debate político em Portugal tem feito o caminho inverso: todos apostam em mostrar que não são assim tão diferentes. Existe um horror e temor profundo por parte dos líderes políticos em relação à diferenciação ideológica. Aliás o argumentário das campanhas é uma espécie de mundo às avessas: o PCP e o BE procuram mostrar que não são comunistas nem totalitários. Para o efeito Loução cita “Fátima Missionária” – imagine-se a risota se tivesse sido Ferreira Leite ou Paulo Portas a referir tal leitura! – e Jerónimo de Sousa mostra-se preocupado com os pequenos e médios empresários que nos restantes dias do ano trata como patrões, capitalistas e empresários beduínos.
Já o PS, o PSD e o PP parecem regressar ao tempo do Pacto MFA-Partidos em que o socialismo era um objectivo inquestionável, admitindo contudo estes partidos divergências com os comunistas e com os socialistas quanto ao processo e ao timing necessários para lá chegar. O medo da diferenciação ideológica a par da recusa em discutir a diferença entre o prometido e a realidade, tem feito emergir o estilo, a personalidade e cada vez mais os escândalos dos líderes como o factor que pode determinar a sorte e o azar dos partidos. À excepção das agências de marketing político ninguém ganha com isto.
*PÚBLICO