Fernando Cabrita era um dos “técnicos” (leia-se “feiticeiros”) dessa espécie de actividade ainda um pouco mística-esotérica e muito básica que era o futebol português dos anos 1970 e 1980. Este possuía uma galeria de “feiticeiros” como, para além do referido autor daquela famosa frase, Juca (que pensava existir uma espécie de “inibição rácica” dos portugueses , impedindo-nos de ganhar jogos contra equipas nórdicas), Torres, Teixeiras (salvo erro, Júlio e António), Wilson (dos mais avançadas, para a época…), José Augusto (que tinha o excepcional dom de conseguir quase sempre descer de divisão, sem apelo, nem agravo, as equipas em que “pegava”…aqui incluindo-se, também, o Albacete de Espanha), Meirim, Manuel de Oliveira (talvez dos menos mauzinhos), entre outros. Muitos deles, inexplicavelmente, acabaram contratados pela Federação Portuguesa de Futebol.
A falta de capacidade e, sobretudo, a falta de competitividade e de contactos internacionais (bem assim como a já crónica impreparação dos jornalistas desportivos) faziam-nos, por vezes, pensar que tínhamos equipas fabulosas, com grandes “tecnicistas” (malabaristas da bola), mas que perante os “toscos” e desajeitados jogadores de futebol (e não da bola!) da segunda linha europeia, sucumbiam nos resultados…se bem que jogassem sempre muito melhor e ganhassem moralmente. Era, de facto, a época das vitórias morais!
Enfim, uma tristeza, uma época em que sucediam coisas extraordinárias, como, por exemplo, num célebre jogo com a Escócia (lá), a selecção portuguesa – que conseguiu um estóico empate a zero – ter ousado a original proeza táctica de apresentar uma equipa com (salvo erro) 8 (oito) defesas! Recordo-me de o Veloso (defesa do Benfica) ser um dos jogadores do meio-campo/ataque!
Enfim, esses tempos já lá vão, mas a lapidar frase (e pensamento) de Fernando Cabrita ficou-me na memória. E recordei-a hoje, novamente, ao assitir, na televisão, à segunda parte do Inglaterra 1, Portugal 0, em sub-21. De facto, daquilo que vi, há muitos outros rapazes (a começar pelos Ingleses) que poderão ensinar-nos qualquer coisinha, em matéria de futebol!
Os jogadores ingleses foram muito melhores fisicamente, muito melhores tacticamente e, sobretudo, muito mais futebolistas (quer dizer, muito melhores, também, tecnicamente) – e essa superioridade britânica era chocantemente visível, apesar de os comentadores de serviço (TVI) apenas acentuarem a diferença de tamanho e de porte atlético entre os britânicos e os portugueses.
Em dia de jogo decisivo para a selecção principal (contra a Bósnia), de facto, fiquei a pensar que com aquela décalage nos sub-21, o futuro não será lá muito risonho. Será mesmo preciso que alguém venha, novamente, ensinar os nossos rapazes a jogar à bola (rectius, futebol).