Todos os dias nos é dito que temos de ter mais Europa. Defende-se um governo europeu, uma diplomacia europeia, o aval europeu aos orçamentos nacionais. A Europa, que já foi sinónimo de riqueza e também de garantia de liberdade, começa a pesar-nos e sobretudo a impor-se-nos como uma construção burocrática. Afinal não basta ter bandeira para ter povo. Nem ter hino para ter História.
A Europa preencheu o imaginário que em vários países europeus fora anteriormente ocupado por aquilo que em Portugal e França se designava por Ultramar: um espaço construído, para o qual se procura uma História comum e que surge como um território de utopia, de projecção de futuro, enfim o espaço real e potencial que nos liberta da pequenez, quando não da asfixia das fronteiras a que acabámos confinados aqui neste continente europeu de limites difusos e não seguros. Em Portugal o discurso sobre a Europa substituiu, em poucos meses, o discurso sobre o Ultramar. A vantagem da Europa sobre o Ultramar era enorme: livrava-nos de guerras, garantia-nos fundos e preservava-nos de delírios ditatoriais. O sonho europeu foi para os países pobres como Portugal uma entrada num clube de gente alta, loura, de olhos azuis e civilizada.
Há muito tempo que os países existentes neste espaço a que hoje chamamos Europa perceberam que sós valem pouco. E alguns com fronteiras improváveis, como é o caso de Portugal, ainda o perceberam melhor. É precisamente essa percepção do excesso de passado, do considerável peso no presente e duma urgência em não perder importância no futuro que torna tão semelhantes as palavras dos eurocratas com as das gerações que viveram o sonho ultramarino. O entusiasmo, a capacidade, a vontade que colocam nessa ideia de que há um território novo que nas oportunidades que gera é muito superior à soma das fronteiras… tudo isso é perturbantemente igual nas palavras daqueles que hoje falam da Europa e daqueles que nos séculos XIX e XX falaram de África. No caso português, ao ouvirem-se os discursos dos entusiastas do sonho europeu é como se voltássemos aos textos inflamados sobre Angola de gente como Cunha Leal ou Norton de Matos. (É preciso que não se esqueça que o discurso do Ultramar foi até ao fim dos anos 50 do século XX português muito mais épico e sentido nas elites da oposição republicana do que propriamente nos partidários do regime.)
O sonho europeu é tão artificial quanto o foi o sonho ultramarino. O lema da pátria do Minho a Timor é tão artificial quanto o de uma união de Lisboa a Praga. Mas em política o natural não existe. Logo, o facto de um projecto ser artificial não lhe tira nem acrescenta mérito. Sendo que muitos europeus ou descendentes deles choraram quando deixaram África e não é certo que alguém verta lágrimas pela ideia da Europa. E esta indiferença pela Europa, esta distância sem ódio nem paixão não são uma boa notícia, porque sós não valemos quase nada num mundo global: se desfizermos o projecto europeu, não nos resta muito mais a não ser a irrelevância.
A História não se repete, mas as circunstâncias dos acertos e dos erros das decisões que tomámos essas mantêm-se: o sentimento de urgência com que os europeístas se empenham hoje naquilo a que se chama “construção da Europa” é intelectualmente tão arrogante e autista quanto foi no passado o discurso sobre o projecto ultramarino. Nada se pode discutir, porque é sempre preciso aprofundar mais e mais o projecto em que apostámos o nosso futuro, seja ele, como é agora, o europeu ou o ultramarino, como aconteceu no passado. Parece uma maldição geracional: como se os netos ofuscados pelo sonho europeu tivessem de repetir os erros dos avós ultramarinistas.
Mais uma vez cegos e presos na vertigem de um projecto que nos leve daqui para fora, faz-se uma fuga em frente sem perguntar ao povo qual a sua vontade. A Europa tem de se discutir, sob risco de não se construir. Símbolo deste paradoxal contraciclo europeu é a desagregação da Bélgica às mãos duns nacionalismos com laivos de apartheid. Por paradoxo e tragédia mais e mais Europa pode acabar em menos Europa ou mesmo em Europa nenhuma.
*PÚBLICO