Uma legião de socráticos, com destaque para membros do gabinete do próprio primeiro-ministro, têm vindo a exigir que todos os jornalistas que investigaram o caso Freeport se penalizem por o seu “deus” – desde a recente entrevista de Almeida Santos que o termo está consagrado – não ter sido acusado pelo Ministério Público. Como é habitual, misturam dois planos: o que é um comportamento onde não se detectou uma ilegalidade e o que é um comportamento correcto. A imprensa, quando escrutina actos públicos, não escrutina apenas o cumprimento de leis que os legisladores emaranharam num labirinto: escrutina também a lisura e a correcção dos comportamentos (foi o que fez, por exemplo, no caso da licenciatura pela Independente). E o que está no processo no Freeport continua a ter muito que se lhe diga.
Mas não só. Como este jornal noticiava ontem, os procuradores que dirigiram o processo no último ano e meio (é bom não esquecer que ele esteve “esquecido” e abandonado durante quatro anos) queriam ter feito 27 perguntas a José Sócrates cuja leitura, só por si, é esclarecedora das pesadas dúvidas que ficaram por esclarecer.
Por isso, ao contrário do que desejariam estes personagens, alguns deles bem sinistros e rancorosos, ninguém pedirá desculpas por ter feito o que era seu dever e muitos vão continuar a procurar respostas para aquelas e outras perguntas. Até porque não se esquecem que vivem num país onde a Justiça deu razão a Domingos Névoa.
*Público, 30 de Julho de 2010