BLASFÉMIAS

Terá valido a pena?

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Terá valido a pena? Creio que sim.

No nosso contexto político actual (tão caricato, como tragico) e avaliando os resultados aparentemente alcançados, julgo que o PSD de Passos Coelho acabou por levar alguma da sua água ao moínho. Claro que chegou lá com o cântaro já partido…. e o moínho também já não dá garantias de poder ir funcionando (mesmo mal)! Mas, creio que Passos Coelho acabou por ter uma vitória. Vejamos:

Pessoalmente, sempre me inclinei para a solução”Não”. Sem delongas, nem atenuantes. Pelo menos, seria mais assertiva (aparentemente) do que outras soluções (tipo “Sim, sem termos nada a ver com isso”) para que o PSD se demarcasse, logo, imediata e claramente, do OE 2011.

O que é que o PSD conseguiu, com o arrastar das negociações, para chegar ao mesmo “Sim” abstido, só que, neste contexto, mais demorado?

Desde logo, a questão das deduções fiscais em sede de IRS: para quem se assume como social-democrata, as deduções fiscais têm um significado de fundo, ideológico: o reconhecimento de que o Estado não é, nem deverá ser, o único prestador de certos serviços que se poderão incluir no dito (e nunca definido com rigor operativo) “Estado Social”. A liberdade de escolha (é certo que mais simbólica do que real) também pode ser assegurada, tendencialmente e nessa lógica, através de um sistema adequado de benefícios e deduções. É uma bandeira de defesa da denominada “classe média”.

Além disso, o certo é que o travão conseguido na extinção das deduções (extinção pretendida pelo PS), sempre permitirá, em concreto, para muitas famílias, não serem tão fustigadas (sobretudo na educação e na saúde). Valeu a pena, portanto e sobretudo para quem vai poder gastar um pouquíssimo menos, ter negociado e ter deixado arrastar-se o processo! Não ter dado o “Sim”, em branco.

Por outro lado, o facto de se ter envolvido em negociações, abandonando-as e arrastando-as, reforça a mensagem de que, apesar de viabilizar um “muito mau OE”, não lhe podem ser imputadas grandes responsabilidades por ele. A lógica do discurso do PSD será mais ou menos esta: por ser muito mau (o OE proposto pelo PS), ainda lá fomos, afinal, tentar suster um pouco dos seus efeitos avassaladores e cumprindo a nossa obrigação! E, assim, Passos Coelho e o PSD, reforçam o seu papel e legitimidade de “Conselho Fiscal” do Governo, da execução orçamental que este vai fazer (ou não). No fundo, com naturalidade, Passos Coelho fica com as mãos livres e com propriedade para, a breve prazo, poder invocar o facto de ter um plano B e usá-lo!

Finalmente, sob o ponto de vista táctico, Passos Coelho também ganha internamente (no partido) : quer se queira, quer não, vai sempre poder dizer que o caminho seguido – ao invés do sugerido por outros, como, nomeadamente, Manuela Ferreira Leite – sempre permitiu alcançar alguma coisa, em benefício de muitas famílias. De igual modo, o associar-se Cavaco Silva ao processo – seja respondendo aos seus já famosíssimos “alertas”, seja deixando que o processo negocial fosse conduzido por Eduardo Catroga (amigo e “peça – chave” da confiança de Cavaco Silva) – permite a Passos Coelho vestir, internamente, a capa presidencial, não deixando, neste ponto, grande margem de crítica a Leitistas, Pacheco Pereirista, Cavaquistas e todos os demais que, no PSD, já ganharam o vício recente de fazerem guerrilha aos líderes….

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