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“A geração Deolinda, que se diz «à rasca»” *

13 Março, 2011
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Para além das evidentes diferenças tecnológicas, o que mais distingue o modo como a minha geração (e as anteriores) cresceu para a vida quando confrontada com a geração Deolinda (e as que se seguiram) foi uma ampla dose de alegre liberdade, feita de rua, de futeboladas em qualquer recanto apetecível, de brincadeiras apinhadas de aspectos desafiantes que cada um aprendia a evitar por sua própria conta e risco sem que ninguém quisesse saber das teorias esdrúxulas da educação politicamente correctas que, mais tarde, se tornariam insindicáveis – hoje a esmagadora maioria dessas deliciosas brincadeiras seriam qualificadas como perigos irremediáveis pelos pedagogos castrantes que entretanto ficaram em moda.

Muitos da minha geração ainda aprenderam, à custa de desenrascanço genuíno, o que se devia fazer e o que era melhor deixar quieto – através da experiência própria ou partilhada, fomos descobrindo o mundo e, sobretudo, a nós mesmos.

Curiosamente, apesar da dose maciça de liberdade de que desfrutávamos, éramos muito mais disciplinados do que aqueles que se nos seguiram. Tínhamos uma noção bastante nítida dos limites. Valorizávamos, ainda, o conceito de respeito. Percebemos, bem cedo, que as coisas boas da vida só se conseguem com esforço e com sacrifício – e que, em regra, poucas coisas que valem a pena são oferecidas de bandeja pela sociedade ou pelo Estado.

Pouco depois, tudo mudou. Os pais (não me excluo) tornaram-se super-protectores, transformando os seus rebentos em autómatos hiper-tutelados que estão de tudo desresponsabilizados à partida. O Estado imiscuiu-se em todos os interstícios da educação que as famílias deixaram disponíveis. Os infantes aprendem que tudo se consegue sem dificuldade, qualquer esboço de obstáculo é-lhes logo retirado do caminho (prevenindo os «traumas» que o insucesso traz), se não é a família a resguardá-los, então estará lá sempre a escola e o Estado a velar para que tudo aconteça sem sobressaltos.

A geração Deolinda, não por culpa própria, é filha do facilitismo no ensino e no resto da vida, do obsessivo aligeiramento de todos os inconvenientes previsíveis, das teses imbecis acerca dos traumas das crianças quando têm de vencer qualquer prenúncio de estorvo, do proteccionismo familiar elevado a dogma, em suma, de uma portentosa e reiterada mentira acerca da realidade das coisas transformada em paradigma educacional. Formatámos uma geração inteira para falhar em face de contrariedades.

Mentimos despudoradamente aos que agora têm vinte anos – garantimos-lhe, através da educação com que os deseducámos, que a vida é fácil e que os seus caminhos não têm empecilhos.

Quando saíram da redoma da escola e foram lançados às múltiplas feras que a vida contém, pura e simplesmente, essa geração não sabia o que fazer. A custo, foram percebendo o tremendo preço de todas as coisas – mas muitos não aleitaram dentro de si o espírito que permite os sacrifícios com que se vencem as provas e a si mesmos.

 

O protesto é deles e não de quem os fez protestar

 

Tivesse eu vinte e tal anos e circularia hoje à tarde em alguma das manifestações que se presumem inspiradas por uma musiquita com uma letra sofrível que o amargurado contexto em que subsistimos fez catapultar para uma relevância totalmente imprevista, sobretudo para quem a obrou, o grupo ‘Deolinda’. Mas, quarentão como sou, entendo essas e outras melodias com outros tons e não vou pôr lá os pés.

Mas os jovens portugueses têm especiais razões de queixa – por terem sido enganados e por serem os mais mal governados da Europa. Só espero que não aceitem serem novamente pastoreados pelos que forjaram tudo aquilo que hoje os fez vir para a rua.

 

* Ontem, revista Notícias Sábado

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11 comentários leave one →
  1. tina permalink
    13 Março, 2011 22:58

    Por acaso até está bem analisado. Mas não podemos esquecer uma coisa. É que os tempos ficaram mesmo maus, piores do que na nossa geração. A emigração voltou aos números do tempo de Salazar. E eu acho muito bem que a população se revolte contra ter de sair do país. Lá por ser tradição, não é simplesmente aceitável. É realmente vergonhoso que por causa de maus governantes, as pessoas tenham de emigrar.

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  2. 13 Março, 2011 23:04

    Já que tanto defendeu o PPC me lá um cunha ao moço para ele sair da toca e enfrentar o animal feroz com coragem, a coragem de quem tem razão.

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  3. 13 Março, 2011 23:05

    Esta nova geração existe em toda a Europa, não é só por cá.
    Os Deolinda conseguiram um bom furo publicitário.

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  4. Arlindo da Costa permalink
    13 Março, 2011 23:17

    A geração do CAA foi uma geração de betinhos.
    A minha geração lombou com os ossos em África, cheirou capim, «matou pretos», emigrou, levou porrada da grossa da polícia de choque, foi presa, trabalhou no duro, andou exilada, andou na clandestinidade, comeu o pão que o diabo amassou, mas nunca desistiu e pegou em armas e deitou abaixo um regime pôdre, corporativo e ladrão.
    No nosso tempo não tínhamos jeito nem tempo para passeatas carnavalescas como a de ontem.
    Se a geração actual quiser mudar algo, terá que encostar à parede os diversos centros de poder ( e não só os poderes politicos!), se não mesmo tomar o poder pela força!
    A não ser assim, vão continuar a ser o lumpen social e laboral….e o gozo de toda a gente!

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  5. 13 Março, 2011 23:46

    É tempo de o PSD se afirmar caso tenha algum estadista ainda.
    PPC tem de se perguntar: Que faria Sá Carneiro nestas condições social-políticas.

    Uma nova AD? Um programa de SALVAÇÂO NACIONAL?

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  6. Ernst permalink
    13 Março, 2011 23:55

    “cheirou capim,”
    Que até tinha bom aroma.

    «matou pretos»
    Esta expressão é horrenda. A mim, dá-me vómitos.

    “trabalhou no duro”
    Claro, claro. Agora não se faz nada. São todos uns malandros, claro!

    “emigrou”
    A sério?!?!??!?
    E agora?! Não emigram?!

    “andou exilada, andou na clandestinidade”
    Conhecemos bem esses “exílios” e essas “clandestinidades”……..a fazer o Estado Novo parecer uma Democracia-Cristã quando comparada com outros “exílios” e “clandestinidades” um pouco mais a leste (ah, o Leste, na altura a “aurora da humanidade”, lembro-me bem, que a memória não é curta…)

    “e deitou abaixo um regime pôdre, corporativo e ladrão.”
    Refere-se a que regime em concreto?
    LOL!

    “se não mesmo tomar o poder pela força!”
    Para quando os camisas negras?
    Quando vai ser a marcha sobre Lisboa?

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  7. Gol(pada) permalink
    14 Março, 2011 00:48

    O ERRE chamou a atenção para esta PÉROLA do ministro Santos Silva em Bragança.
    http://www.jn.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1804737
    .
    Vejam os comentários no mesmo artigo.
    Demita-se Santos Silva!!!

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  8. do lugar da azinhaga permalink
    14 Março, 2011 10:57

    o da costa vai levar na garrafa, que é o que a tua geração gosta, tenham vergonha do que fizeram ás novas gerações, não enxergas isto??? oh revolucionários de meia tigela, devem de ter lutado muito pela liberdades……., coitadinhos, que heróis que eles são.

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  9. manuela c. moura permalink
    14 Março, 2011 11:53

    Em que planeta viveram/vivem? Finalmente alguem no passivo retangulo toma uma iniciativa para chamar a atencao para o quao “podre” era, eh e pelos vistos continuara a ser a vida em Portugal.
    Um pais que ha seculos vive do negocio de seres humanos: primeiro da trata de escravos, depois de emigrantes que na sua maioria ainda por cima ainda rende enviando remessas de divisas para manter o parasitico retangulo a flutuar sem se afogar de todo como merece…Um pais que em 1945 tinha ainda 70% de analfabetos, vivia e vive sob o obscurantismo da religiao, com sintomas de mazoquismo, pois ate Sabado nunca ouvi falar de nenhum protesto visivel…
    Nem sequer o 25 de Abril conseguiu alterar o plano da “exportacao” de seres humanos apodados de emigrantes em Portugal…Num pais onde metade da populacao tem sido sempre exportada ha seguramente algo de muito errado…
    Nos, os que nao temos “cunhas” sabemos que nao ha lugar para merito e continuamos assim emigrados…Estranho tambem que soh os paises da Uniao Europeia aonde a reforma protestante de Martin nunca chegou, sejam os unicos com problemas…
    Se Portugal gasta mais do que produz, esta reduzido a pais sub-desenvolvido e claro que precisa urgentemente do FMI,…Deixem-se de falsos orgulhos e viva a geracao RASCA que nao eh soh a actual mas todos nos que tivemos de abandonar o pais para sobreviver…

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  10. 14 Março, 2011 12:09

    Mudando de assunto… ou nem tanto: eu gostaria que CAA comentasse as recentes declarações do presidente do FCP sobre as agressões de que foi alvo Rui Gomes da Silva, e que demonstram mais uma vez (como se tal ainda fosse necessário) que, em termos de sacanice e de impunidade, Pinto da Costa pertence ao mesmo «campeonato» de Pinto de Sousa – aliás, o primeiro apelou ao voto no segundo, não é verdade?

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  11. 14 Março, 2011 17:30

    Ó Octávio,
    Rui Gomes da Silva, segundo notícias veiculadas pelo Benfica, foi agredido à saída de um restaurante na Foz do Douro.
    Nada se sabe dos danos físicos nem dos autores da pretensa agressão.
    Pela Foz do Douro, anda pessoal de todo o país e muitos estrangeiros.
    Não teriam sido alguns jagunços do Paris Saint Germain, para enfraquecerem o próximo adversário?
    E porque não benfiquistas insatisfeitos com a perda do campeonato e a direcção do clube?
    Ou será que o canal Benfica anda com falta de assunto?

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