BLASFÉMIAS

Será que ela pensou no que disse?

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Num dos depoimentos sobre “razões para alinhar com os indignados”, um senhora, de seu nome Fátima Soares, médica de família, diz o seguinte ao Público de hoje:

“Trabalho desde 1981 e, depois de muitos anos de serviço, por vezes gratuito, reformei-me aos 55 anos. Fiz parte do grupo de médicos que, com Albino Aroso, fez com que Portugal passasse a exibir uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo. Agora ganho 1120 euros por mês. Estou indignada porque estão a matar tudo aquilo por que lutámos, incluindo o Serviço Nacional de Ssaúde”.

Ora bem, vamos por partes. Primeiro, esta senhora reformou-se ao fim de 30 anos de serviço e, se ficar na média da esperança de vida para as mulheres, deverá viver até aos 83/85 anos (conforme considere a esperança de vida à nascença ou aos 65 anos, dados da Pordata). Isto significa que lhe teremos de pagar a reforma por tantos anos quantos aqueles que trabalhou. Ela não descontou nem um décimo do dinheiro necessário para receber mesmo a sua reforma de 1120 euros, e para lhe pagar será necessário descontar a dezenas de trabalhadores ainda no activo que ganham bem menos do que ela, médicos incluídos. (um aparte: eu, que trabalho desde 1976 e sou um ano mais novo nunca me poderia reformar nem com um fracção do que recebe esta senhora porque trabalhei sempre no sector privado, não beneficio do sistema privilegiado dos funcionários públicos – não me poderia reformar nem me passaria pela cabeça fazê-lo, diga-se passagem).

Segundo, arroga-se o direito de invocar Albino Aroso, um homem incansável, como comprovei da última vez que estive com ele já ele contava bem mais de 80 anos, alguém que foi secretário de Estado (de Leonor Beleza) dea anos mais velho do que esta senhora quando se reformou, alguém que ensinou até ser forçado a jubilar-se, alguém, estou certo, que ficaria chocado só com a ideia de se reformar aos 55 anos.

Por fim devo dizer que me escapa por completo a lógica de alguém que se reforma do Serviço Nacional de Saúde aos 55 anos para, depois, vir dizer que estão amatar esse mesmo serviço. Será que não entende que são atitudes egoistas como a sua, que visam apenas beneficair de “direitos adquiridos”, que contribuem para que em Portugal não existam oportunidades para os mais novos? É preciso ter lata, muita lata…

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