Assino por baixo desta desmistificadora análise de Avelino de Jesus:
(…) O tremendismo das críticas raia o terrorismo ideológico: aconselhar, sugerir, até aventar, a possibilidade da emigração de professores desempregados foi apelidado de tudo – até de “criminoso”.
Se quisessem criticar com rigor e se porventura – coisa improvável – pretendesse estar do lado das vítimas candidatas a emigrar, argumentariam que os professores terão dificuldades em exercer outras profissões devido ao embuste que foi a sua formação. Em vez de lhes terem ensinado o necessário de matemática, português e outros instrumentos de trabalho, úteis em geral e até também para poderem ensinar tais matérias, impingiram-lhes tralha “pedagógica” o que lhes dificulta, entre outras coisas, a mobilidade profissional, em Portugal ou noutra parte do mundo. (…)
(…) A verdade é que os críticos em apreço não gostam dos emigrantes pelo mesmo motivo que não gostam dos empresários. No fundo, os emigrantes são desprezados e ridicularizados, sobretudo no seu regresso. A iniciativa autónoma, individual e radical, como é por excelência a emigração, é desprezada.
Não admira que aqueles que mais criticamente reagiram às suaves e inócuas palavras dos governantes tenham sido as forças mais reaccionárias da sociedade.
A atitude emigratória é – por três razões principais – um factor social e economicamente muito positivo.
Primeiro: a emigração representa a melhor reacção – física, radical e individual – da população às situações de pobreza de desigualdade ou de injustiça. A reacção emigratória deveria ser apoiada pelas forças que combatem estas situações. A atitude perante a emigração permite aferir a distância entre a teoria, as declarações de princípios e a dura realidade das práticas do dia-a-dia das pessoas e das organizações.
Segundo: a emigração é um poderoso factor de aprendizagem e de circulação de informação, de produtos, serviços e capitais e, em geral, de fecundação da economia e das sociedades, tanto de destino como de origem como é agora o caso em apreço.
Terceiro: a emigração é um choque que poderá constituir um poderoso factor de desequilíbrio de sociedades que enfrentam impasses, devido a obstáculos e resistências sociais e políticas difíceis de estilhaçar. A larvar e eficaz resistência às profundas reformas que a sociedade portuguesa há muito necessita poderá ser amolecida com uma emigração significativa nos próximos anos.
Os mesmos que se dizem preocupar com a emigração são os mesmos que ficam indiferentes – quando não se declaram abertamente contra – aos movimentos de regresso dos nossos emigrantes. O que os importa, acima de tudo, é contrariar a mobilidade e a iniciativa dos mais activos e inconformados.
A atitude face à emigração deve ser enquadrada numa posição de abertura face à mobilidade social e económica em geral. As restrições à emigração, quer em termos de políticas quer de pensamento, relevam sobretudo de posições ultraconservadores e reaccionárias, qualquer que seja a forma com que se disfarcem. É próprio destas perspectivas reprimir os movimentos de populações quer no interior quer para o exterior. É muito frágil a posição de alguns críticos segundo os quais “nem nos tempos do salazarismo se ouviu um governante dizer que os portugueses deviam ir embora”; claro que não, ouviam-se antes os tiros de perseguição nas fronteiras contra aqueles que procuravam sair a salto, contra a vontade dos que então, como agora, visam tolher a liberdade de circulação das populações. (…)
Vale a pena ler todo o artigo.