BLASFÉMIAS

É bom ter memória

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Morreu a semana passada Eurico Corvacho, um dos militares radicais que iam pondo o país a ferro e fogo a seguir ao 25 de Abril. No entanto houve quem preferisse lembrá-lo de outro modo. Rui Moreira, que viveu de perto a sua actuação como comandante da chamada Região Mlitar do Norte, fez contudo questão de “completar a sua biografia com alguns factos relevantes”. Para isso, recorreu “ao ‘Relatório das Sevícias’ elaborado pela comissão nomeada pelo Conselho da Revolução em Janeiro de 1976. De facto, e tal como se pode ler na deliberação do CR, ‘foram as Forças Armadas que tomaram a decisão de mandar averiguar a conduta de alguns dos seus membros, face aos clamores da opinião pública que não podiam ignorar'”.

(Registe-se que este documento importante, elaborado logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975, seria muito atacado, nomeadamente por Jorge Sampaio, co-autor do texto «O “Relatório das sevícias” e a legalidade democrática», uma espécie de contra-relatório onde se procurou defender o indefensável).

Rui Moreira não se fica, contudo, pela citação desse esquecido relatório. Reccorre também às suas memórias pessoais:

O meu Pai foi uma das vítimas de Corvacho, e da sua inventona. Foi preso no dia 12 de Março, na sede da sua empresa, onde permaneceu, apesar de ter sido avisado que iria ser detido, porque não tinha razões para fugir. Viu os seus bens congelados, a empresa ocupada, a casa de família atacada por bandos armados. Sofreu as tais sevícias que os corajosos carcereiros sempre negaram, que lhe deixaram marcas físicas e psicológicas para o resto da vida. A família foi alvo de tentativas de extorsão por parte de militares, que prometiam a sua libertação a troco de dinheiro. Em Junho de 1975, centenas de trabalhadores da sua empresa, a Molaflex, manifestaram-se junto ao Quartel-General, exigindo a sua libertação. A manifestação foi reprimida, e o meu Pai foi transferido, em segredo, para Caxias, sem que a família tenha sabido, durante semanas, do seu paradeiro. Nunca foi acusado de nada, certamente porque nunca nada fez, e foi libertado em Novembro desse ano por Pires Veloso, esse sim um militar exemplar.

O tempo passa mas não nos podemos esquecer que alguns dos que hoje continuam a ser apresentados como “militares de Abril” nada tinham de democratas e que, durante os meses quentes da revolução, chegou a haver mais presos políticos em Caxias do que os que lá se encontravam no 25 de Abril.

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