BLASFÉMIAS

Temos a cozinha a arder. Vamos saltar pela janela?

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Há um ponto em que todos parecem de acordo: a crise grega não pode acabar bem. Mas o consenso acaba no momento deste prognóstico. É mais difícil assumir que quase todas as receitas alternativas são muito difíceis de digerir. Pior: que algumas delas podem também vir a ser aplicadas em Portugal.

Porque é que a crise grega vai acabar mal? No essencial, porque ninguém acredita que este último pacote de ajuda resulte. Uns não acreditam, porque entendem que a receita está errada desde o princípio, outros porque acham que, se a Grécia que não foi capaz de aplicar medidas menos rigorosas, dificilmente aplicará medidas mais duras. Isto, apesar de, desta vez, não restarem dúvidas que estamos mesmo perante uma ajuda e não apenas face a mais um empréstimo: uma parte da dívida grega deverá ser perdoada pelos credores privados (107 mil milhões de euros) e o país beneficiará de juros especialmente favoráveis.
Mas isso não chega. Na Grécia falta consenso social e político para gerir a crise. Na Grécia a classe política continua a resistir às reformas e à necessidade de acabar com os sectores clientelares da economia (um exemplo: num país muito dependente do turismo, a profissão de guia turístico ainda está nas mãos de uma corporação fechada e ciosa dos seus privilégios). Na Grécia – e este é o problema mais grave – não há sinais de uma possível recuperação da competitividade dos sectores produtivos, uma recuperação que fosse capaz de inverter o ciclo recessivo.
Daí que cada vez mais gente defenda a mais radical das medidas: a saída do euro. Na imprensa internacional tanto vozes eurocépticas (como Ambrose Evans-Pritchard, doThe Telegraph), como federalistas (caso de Wolfgang Münchau, do Financial Times) juntam-se a uma legião de economistas (de que um exemplo é Hans-Werner Sinn, responsável de um dos mais importantes think tanks económicos da Alemanha, em entrevista à Spiegel) que defendem o regresso da Grécia ao dracma. Sem dramatismos, apenas por realismo.

O argumento é tão simples como poderoso: a Grécia precisa de uma moeda própria, que possa desvalorizar, para reconquistar competitividade. Dentro de uma moeda única partilhada com economias muito mais poderosas nunca os produtos gregos serão tão bons ou tão baratos que possam competir nos mercados internacionais.
O mal grego é, neste domínio, muito semelhante ao de outros países do Sul da Europa. Durante décadas as suas economias habituaram-se a desvalorizações competitivas e a níveis de inflação relativamente elevados. Com o euro, essas economias transformaram a dependência de desvalorizações numa dependência de dívidas, dívidas tornadas possíveis por taxas de juro a que não estavam habituadas.
Dito assim tudo parece fácil. Mas então, porque não saiu ainda a Grécia do euro? Porque, como notou Angelos Tsakankis, do think tank IOVE, sair do euro seria como saltar da janela de um terceiro andar para fugir do fogo na cozinha. “Pode-se ter sorte e não ficar muito magoado, mas não seria melhor tentar extinguir o fogo?” Tsakankis manifestou-se especialmente preocupado com falências em série e um pesadelo legal, pois a verdade é que ninguém consegue antever com exactidão o que sucederia nesse cenário.
Por outras palavras: os ganhos de competitividade que a economia grega experimentaria saindo do euro seriam pagos através de uma diminuição brutal dos níveis de vida, uma diminuição muito mais brutal do que a da actual austeridade. Por isso era bom que os defensores do “fim do sacrifício do povo grego” – isto é, do abandono das actuais medidas de austeridade – nos explicassem qual o seu caminho alternativo. Até porque agora já está prevista uma das suas medidas preferidas, isto é, uma substancial perdão da dívida a ser suportada pelos bancos privados…

É natural que Portugal faça tudo para evitar seguir o caminho da Grécia, apesar de a tarefa ser difícil. Mais: é natural que analistas e comentadores discutam a possibilidade de Portugal voltar aos mercados em 2013 ou as vantagens e desvantagens de ter mais tempo para ajustar as contas públicas, mas já não é natural que responsáveis políticos sigam pelo mesmo caminho, pois isso alivia a pressão para se atingirem metas negociadas há menos de um ano. O que os responsáveis políticos devem fazer é aquilo que não fizeram vezes sem conta: cumprir, “custe o que custar”, as metas estabelecidas. Não fingir, não adiar. Até porque não tenho a certeza que uma dor espalhada por três anos seja melhor que uma dor mais intensa mas concentrada em menos tempo.
É possível – já o defendi nesta coluna em Abril de 2011 – que Portugal não consiga reerguer-se sem renegociar a sua dívida. Se pensarmos nos níveis de crescimento necessários para se voltar a criar emprego e se começarem a pagar as dívidas, é difícil imaginar que sejam concretizáveis, mesmo quando acabar a fase mais dura da austeridade. Da mesma forma, se pensarmos na competitividade perdida das nossas indústrias, é difícil imaginar como poderá ela ser recuperada sem uma desvalorização da moeda, pois os cenários de desvalorização fiscal (como se provou no caso do abandono da descida da TSU) são praticamente impossíveis de atingir.
Dito de outra forma: para recomeçarmos de novo talvez sejam necessárias medidas hoje impensáveis – como a saída do euro e a reestruturação da dívida. Nunca ninguém o admitirá, sobretudo nunca nenhum responsável político o fará, e ainda bem. Tais medidas também só serão possíveis sem nos condenarem ao empobrecimento eterno (e não apenas a um inevitável empobrecimento temporário), se enquadradas pela própria União Europeia.
Espero sinceramente que alguém, em Bruxelas e em silêncio, esteja já a estudar estes cenários de recuo. A bicicleta da Europa não tem de pedalar sempre para o mesmo lado, sobretudo quando não parece ser essa a vontade dos eleitorados.

Há alternativa a estes cenários? Claro que há, mas é duvidoso que existam condições políticas para isso. Para salvar a Grécia, e Portugal, e talvez também a Espanha e a Itália, do buraco em que se meteram, seria necessário transferir para estes países centenas de milhares de milhões de euros ao longo de vários. Não bastariam empréstimos, seriam necessárias doações. Ora, como reconhecia esta semana o próprio Wolfgang Münchau, “isso não é simplesmente possível numa base intergovernamental, onde a Alemanha, a Holanda e a Finlândia pagam as contas da Grécia, de Portugal e da Irlanda” (ou da Itália).
É bom ler palavras tão claras: a verdadeira alternativa a colocarmos as nossas contas em dia é passarmos a depender do dinheiro de outros. Há quem chame a isto “solidariedade”, há quem use o termo “subsídio-dependência”, mas algo é incontornável: uma Europa capaz de praticar esse tipo de transferências de forma permanente não existe e não se vê como possa existir continuando a ser um espaço democrático: da mesma forma que a vontade do povo grego não deve submeter-se à do alemão, a do alemão também não pode submeter-se à do grego, como às vezes quase se sugere.
Ontem, no Guardian, Timothy Garton Ash notava que, “se esta eurozona não existisse, ninguém a quereria criar hoje”. É bem verdade. Estamos a pagar um preço elevado por uma utopia tecnocrática e o problema de todas as utopias é que, a partir de determinado momento, também passam a servir para justificar todos os atropelos. A Europa, por vezes, parece à beira de sucumbir a essa lógica. E aos seus próprios mitos.

Público 2012-02-24

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