BLASFÉMIAS

Já produzimos mais do que consumimos!!!

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Estamos a produzir menos, mas de forma mais sustentada, já que também consumimos muito menos. Algo que não acontecia desde os tempos da II Guerra, em que o volfrâmio impulsionou então o último excedente comercial que registámos.

Agora não temos volfrâmio nem guerra, mas temos a tão diabolizada austeridade que começa a mostrar os seus efeitos virtuosos. Foi ela que nos obrigou a racionalizar hábitos, a desistir de extravagâncias, a fazer melhores contas à vida.

Terminou o leasing da viatura? Óptimo, conclui o Silva, menos um encargo mensal, fica-se com ela pelo valor residual, que dura à vontade outros 3 anitos; mais a mais, agora utiliza-se menos, que combustíveis e portagens até queimam. Fins de semana na Pousada? Já eram. Talvez para o ano, se o cunhado emprestar o apartamento da praia, na ida ou no regresso de férias se vá almoçar a uma das que ainda falta conhecer. Ir ao restaurante com a família? Quiçá por alturas da Páscoa, se houver algum de sobra. Agora restaurantes, nem à semana, que aquele “investimento” que se fez nos tupperwares tem óptimo retorno. Leva-se o almocinho para o serviço cozinhado na véspera e, entre o casal, poupa-se à vontade 10 euritos por dia; já dá para financiar o aumento do passe dos miúdos e ainda sobra. E em boa hora a patroa se lembrou de fazer compotas ao fim de semana, que estão a sair muito bem por toda a vizinhança. Um dinheirito extra e sem impostos que dá um jeitaço, vai todo para o banco, que o emprego dela está por um fio, a construtora onde trabalha deve fechar portas nos próximos meses. Talvez seja de plantar mais algumas árvores de fruto no terreno da sogra na aldeia. Se a firma da patroa falir, há que fazer crescer o negócio da compota; portanto, tratemos desde já de garantir o acréscimo de fornecimento (quase) gratuito da matéria prima.

Os dramas abundam, sendo o desemprego o maior de todos, mas há muita gente a arregaçar as mangas e a tentar dar a volta como os Silvas. Há muitos hábitos/vícios consumistas que estão a ficar para trás, há muita gente a ansiar libertar-se dos leasings, rentings e de todas as “Cofidis” que lhe comem grande parte do rendimento mensal. De resto, não é necessário (excepto para ostentar perante o vizinho, mas ele também já anda a tinir) trocar de carro, mobília ou aparelhagem Hi-fi a cada 3 ou 4 anos ou trocar de vestimenta em cada estação. Quaisquer daqueles bens podem perfeitamente durar o dobro ou o triplo, sem que daí decorra uma perda substancial de qualidade de vida.

Ter uma vida mais austera não significa pois que se viva pior. E em termos macro, uma alteração neste sentido dos padrões de consumo irá obstar no futuro a que a procura interna cresça a ritmos superiores ao produto. E é desta forma que se criam as bases de um crescimento económico sustentado: consumir de acordo com as possibilidades e produzir algo que terceiros apreciem e paguem para ter, sejam compotas, sapatos ou outros bens e serviços transaccionáveis.

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