BLASFÉMIAS

6 meses

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Ao fim de quase dois anos de mandato, o governo prepara-se para iniciar uma reforma profunda do estado, que resultará em cortes substanciais da sua despesa. Fica assim demonstrado que há muito por onde cortar, e que só por essa via – resolvendo o problema na fonte – se poderá encarar o crónico e crescente défice das contas públicas que tem destruído o país.

Entretanto, passaram-se dois anos. Nesse imenso tempo político, o governo exauriu fiscalmente os contribuintes, sem ter simultaneamente demonstrado um verdadeiro espírito reformista que pudesse justificar os sacrifícios impostos. Com isso irritou profundamente o país, desiludiu muitos dos seus apoiantes e virou contra si a opinião pública. Permitiu que o partido que fora responsável pela crise e pela intervenção externa recuperasse forças, utilizadas agora para o atacar. Deu espaço para o regresso de José Sócrates à ribalta política, para que ele recontasse a história desta crise e atacasse semanalmente o presidente da República. Enfraqueceu a sua posição negocial junto dos parceiros sociais. Entrou em conflito com o Tribunal Constitucional e perdeu espaço, junto a este órgão de soberania, para forçar algumas reformas necessárias, mas de questionável constitucionalidade. Em suma, perdeu o seu estado de graça com medidas de circunstância, ditadas pelo desespero da iminência da bancarrota, sem ter tomado as que poderiam ter ido ao cerne dos problemas.

Tamanha impreparação terá custos elevados. É dos manuais que um governo dispõe, em condições normais de governação, de um período inicial de 6 a 12 meses para tomar as medidas estruturais do seu mandato. Em situação de ruptura financeira, como a vivida em 2011, esse período é seguramente mais reduzido. Isto teria exigido, da parte do governo, o aproveitamento do resto do ano de 2011 e do orçamento de estado de 2012 para levar a cabo as reformas que agora quer aplicar ao país.

Por razões que apenas os dois líderes dos partidos que formam a coligação de governo, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, poderão explicar (e essas explicações são-nos devidas), perderam-se dois anos. A sensação que este período nos transmite é a de que nenhum deles estava preparado para o que tinha pela frente e que só agora se conseguiram entender quanto ao fundamental. O mais provável é que já não tenham ambiente político, tempo e apoio da opinião pública para fazer o que tinha há muito que ser feito, e que o anúncio de amanhã passe à história como o testamento de uma oportunidade perdida.

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