BLASFÉMIAS

Baleia Azul (não essa, a outra)

Divididos entre atribuir culpa aos donos dos cães e ao estado por permitir que animais “perigosos” sejam mantidos por irresponsáveis, lá passamos a semana do Dia da Liberdade a discutir mais uma meritória (por inconsequente) causa. Jornalistas passaram a semana a telefonar para hospitais, à procura de casos para documentar, levando o funcionário do estabelecimento a procurar no menu das urgências diárias por casos suficientes para indignar os portugueses. “Tenho um pé amputado por diabetes, ataque de cão não tenho”, terá dito um dos funcionários. “Temos algum artigo sobre os malefícios do açúcar?”, perguntara o jornalista ao editor, tapando o microfone do telefone antes de despachar o prestável funcionário hospitalar com “esta semana não há regulação do açúcar, só ataques de cães”.

Antes que pudéssemos concluir se o estado deve criar formação obrigatória para os que têm cães ou proibir pessoas de terem os tais ditos perigosos, isto depois de se catalogarem devidamente as raças — e aqui não é xenofobia, são cães, não são activistas do Estado Islâmico —, mudamos de assunto indignante — mas mantendo o tema Fauna — para algo mais excitante que mordeduras que dá pelo nome de Baleia Azul. Ao contrário do que o nome parece indicar, não se trata da designação usada para quando o António Costa se apresenta como aristocrata soberano inchado do orgulho de poder ignorar as perguntas no Parlamento sem que ninguém se indigne, trata-se, sim, de um suposto jogo para adolescentes com o objectivo de os levar ao suicídio. Bem sei que, dito desta forma, parece que continuo a falar do António Costa, mas é importante que o leitor reconheça esse natural equívoco antes de avançar na necessária discussão sobre o assunto.

As pessoas estão muito preocupadas com a Baleia Azul e com razão. Os adolescentes são muito dados a actos parvos, mesmo antes de terem idade para votar, como forma de preparação para a vida que levarão como adultos parvos. Para que fiquemos tranquilos — nós, os adultos —, seria necessário que o estado reconhecesse este fenómeno e o regulasse. Por exemplo, podia-se integrar na escola pública a aprendizagem estruturante que consiste em saber lidar com as pressões dos pares para fazer coisas idiotas. Seria até bastante irónico, fomentaria o ensino do sarcasmo e, mesmo que não impedisse adolescentes de se suicidarem através de incentivos nas redes sociais, seria uma oportunidade preciosa para educar os jovens para a cidadania que lhes permita uma longa vida e oportunidade para abortar, mudar de sexo e requerer eutanásia, uma forma muito mais adequada de terminar a vida do que com jogos com nome mais adequado a estabelecimento de lavagem de carros.