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Desencontros

8 Fevereiro, 2019

Há muitos muitos anos, numa terra distante, vivia uma princesa de razoável beleza e impecável delicadeza de trato que ansiava por um futuro como empreendedora ao serviço de import/export gerador de crescimento. Na corte diziam-lhe para escolher um dos muitos príncipes que a cortejavam, mas a princesa Amélia não tinha feitio para namoriscos, preferindo concentrar-se nos estudos em engenharia das organizações, uma licenciatura mencionada pelo professor responsável, naquele tom jocoso e letrado típico de engenheiros, como enganaria das organizações.

Quando Hipólio, um conde ou barão bastardo e deveras efeminado, arrebatou o coração de Amélia, todo o reino celebrou o rompimento de hímen da princesinha, retuitando imagens dos lençóis que ilibaram, aos olhos da plebe, o noivo de anunciada incompetência. O alívio dos populares por Amélia não ser fufa acalorou corações embrutecidos com relatos ficcionados de contos de fada. Cedo, qualquer dúvida que teimosamente restara, foi dissipada com o aparecimento dos filhos. Os dias correram para semanas e estas tornaram-se em anos sem que a plebe notasse a crescente insatisfação sexual de Hipólito. Não havia baile de debutantes em que Hipólito não aparecesse, sorridente e tímido, para desempenhar a sua obrigação de pau-de-vassoura, sem que essa fosse a vida que desejara. No íntimo, as coisas não corriam bem. Hipólito queria ser feliz, queria adquirir uma identidade de género, ser algo mais que um estrelador de ovos e naná dos pirralhos enquanto Amélia tertuliava nas casas de chá. Hipólito queria ser Cátia Vanessa, vestir lantejoulas e uma cinta de liga rendada da Triumph.

Após a traição de Hipólito com um senhor moçambicano de origem árabe que vendia Henry Potters de contrafacção na feira, Amélia voltou aos estudos. Mãe de filhos, atingira a idade que permitiu — como permite a qualquer mulher quando a progesterona ameaça escassear — que se preocupasse com a aparência, com os vestidos cintados e com os acessórios condizentes com as pernas que entroncam para uma anca no pinaculo da desejabilidade masculina. Tornara-se, pela primeira vez, numa mulher verdadeiramente bonita.

Um dia, por infortúnio dos que acontecem nas calendas, ao desempenhar a sua habitual imitação noctura de uma Jane Eyre assanhada com a sua própria libido recalcada por marido apaneleirado, pisou bosta de cão, arruinando os Prada. Em casa, de joanetes no bidé e nádegas entaladas na berma da banheira, teve uma epifania: só cães cagam no meio do jardim, cadelas não, estas procuram o recato feminino da normatividade heteropatriarcal canina. Quanto mais pensava no assunto, mais se apercebia que os machos do planeta eram os causadores do infortúnio das fêmeas. Todos os machos, como Hipólito e o seu mais recente namorado, um engolidor de fogo de Vigo que se assumia ser mais versado em engolir espadas do que o que se espera de uma princesa da Rechousa.

A partir desse momento, tornou-se amarga. A sua anca perdeu fogosidade e alargou, fruto do tempo dispendido no sofá a marcar pontos de cada vez que um homem mata a mulher e sua filha. Tornou-se feminista e nunca mais ninguém a quis, o que fez com que passasse mais tempo a imaginar o que outros teriam dito do que a ouvir o que realmente disseram.

Enquanto Amélia continuou com o seu perpétuo enterro no negro sepulcro da solitária virtude, a população recorda os instagrams dos lençois de casamento, o momento em que, pela primeira e única vez, a princesa agora feminista destruiu, de verdade, o que restava de um homem.

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7 comentários leave one →
  1. André Silva permalink
    8 Fevereiro, 2019 18:28

    Absolutamente divinal! Se eu fosse gay, queria o Vitor Cunha!!!

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  2. Carlos Reis permalink
    8 Fevereiro, 2019 19:04

    como é que você consegue carago?brilhante.

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  3. 8 Fevereiro, 2019 21:27

    AHAHAHAAHHA

    Já chorei a rir. Este está absolutamente hilariante e surpreendente.

    A epifania: ” só cães cagam no meio do jardim, cadelas não”

    “:O))))))))))))

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  4. Andre Miguel permalink
    8 Fevereiro, 2019 22:07

    Genial!!!

    Ahahahah!!!! Brilhante… ah ganda Victor!

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  5. 9 Fevereiro, 2019 03:10

    Excelente, VCunha !

    Imagino o que seria a Assembleia da República com uma, bastava uma intervenção mensal do deputado VCunha.
    A fraca inteligência de muitos dos seus pares não o entenderiam, outros protestariam e uns quantos perceberiam mas ficavam sisudos e repreendedores…sem efeito no VC.

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  6. Raghnar permalink
    9 Fevereiro, 2019 10:04

    Heheheh… brutal! 🙂

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  7. Martim Moniz permalink
    9 Fevereiro, 2019 10:15

    “Desde que a frente de esquerda tomou conta disto, surgiu um ligeiro obstáculo ao aproveitamento das tragédias íntimas. Claro que os cidadãos continuaram a matar-se e a agredir-se com o empenho do costume, que comparativamente com o “estrangeiro” até nem é demasiado. Mas a impossibilidade logística de culpar Pedro Passos Coelho e a “troika” pela sessão de pancadaria de anteontem numa marquise de Moscavide tornou a pancadaria desinteressante, para os “media”, que passaram a noticiá-la como o caso particular que realmente é, e para os partidos outrora escandalizados, que partiram em busca de novos desafios. Mesmo em tragédias públicas, de que os incêndios de 2017 são o maior exemplo, meio mundo decidiu ignorar a responsabilidade do poder e dos poderes no destino de centenas de infelizes. Perante os infelizes que perderam a vida e os infelizes que perderam o resto, a actriz que chefia o Bloco de Esquerda limitou-se a exigir: “Que venha a chuva. Bom dia!” É triste ver uma profissional da indignação fingida descer a tais abismos de moderação e doçura.”————do último artigo do Gonçalves no Observador

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