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Outra vez a conversa do novo aeroporto?

13 Abril, 2019

Como cidadã não há nada mais revoltante do que ver  um país tecnicamente falido e que caminha a passos largos para mais uma grave crise financeira em propaganda por mais um aeroporto. Sim, mais um. Ou estão esquecidos que em 2011 inauguramos um, novinho em folha, por 33 milhões de euros, a 147 km do Algarve e com capacidade para receber os A380, o maior avião do mundo da Airbus e que está literalmente ao abandono?

Não existe qualquer respeito pelo contribuinte que já suporta a maior carga fiscal de que há memória. Como se pode falar em mais gastos megalómanos desta forma tão brejeira? Eu sei. Interesses. Só, só interesses. E muitos. Imobiliários e financeiros e… “comissões”.

Há anos que andam a dizer que o aeroporto de Lisboa “esgotou” as suas capacidades. Mas foi com Sócrates que essa lenga-lenga mais se fez ouvir. Lembram-se do aeroporto da OTA que era preciso fazer urgentemente bla, bla, bla? Pois é. Era tão, mas tão, mas tão urgente, que construíram primeiro o de Beja. Não acha isso no mínimo estranho? Então com um aeroporto já em “perigo de rebentar pelas costuras” dá-se prioridade a outro fora de Lisboa? E em… Beja!!!!

Bom, vamos a factos: a única entidade internacional que efectuou estudos de capacidade na Portela foi a Aeroports de Paris, parte interessada na eventual futura construção de um novo aeroporto; foram solicitados estudos preliminares aos Aeroportos de Manchester e de Gatwick mas os resultados NUNCA foram divulgados (obviamente porque o resultado não interessou ao “establisment”); o Aeroporto de Gatwick, em Londres, apenas com uma pista tal como o de Lisboa, movimentou em 2016, 43.136.795 passageiros enquanto Lisboa, no mesmo ano, 22.462.599 passageiros; em 2005 altura em que o governo decidiu pela Ota o total de passageiros anual era de apenas 11.236.476. Onde estava a saturação?

PORDATA Tráfego de passageiros nos principais aeroportos Lisboa Porto e Faro

Mas há mais: em 2000 já se sabia que Portela tinha capacidade para suportar 35 milhões de passageiros como afirmava – o insuspeito socialista – João Soares ao Expresso: «todos os dados novos que apareceram, os tais relatórios que estavam na gaveta, vieram dar-me razão: a Portela tem todas as condições para chegar aos 30 ou 35 milhões de passageiros».  Nesse mesmo ano,  Jorge Coelho dizia no Porto que o aeroporto da  Portela ficaria saturado mais cedo do que o previsto e que em 2006, só com transportes rodoviários alternativos se evitaria engarrafamentos  na área do aeroporto (fonte TSF). Ora, em 2000, o total de passageiros era de 9.394.532 e 2006 acabou com um total de 12.314.917. Mais ainda: em 2010 o Jornal Nacional da TVI denunciava a falsa saturação do Portela onde claramente os slots, isto é, a disponibilidade para aterrar e descolar das aeronaves, demonstravam que não havia saturação nenhuma.

Esta ideia megalómana de construir de raiz um aeroporto internacional totalmente novo em Lisboa surgiu com o ex-ministro socialista (tinha de ser) das Obras Públicas, Jorge Coelho, que a juntar a isto queria ainda, em simultâneo,  o comboio de alta velocidade e uma terceira ponte sobre o Tejo. Acontece que Portela já provou ser um dos aeroportos mais fiáveis e mais seguros do mundo e que a pista 17/35 é o ex-libris deste aeroporto por causa da frequência dos ventos cruzados atlânticos. Exemplo disso, em 2013, dos 182 aviões que deveriam ter aterrado, em dia de forte  temporal, a 19 Janeiro, apenas 13 foram forçados a seguir para outro aeroporto. A sua eficiência, a sua excelente localização e a qualidade do projecto original fazem dele um dos melhores entre os melhores.

Obviamente que o aeroporto de Lisboa, hoje, mais do que nunca, precisa de uma remodelação de beneficiação como se verificou com o aeroporto Francisco Sá Carneiro no Porto para aumentar sua eficiência e qualidade. E uma vez que já temos um excelente aeroporto em Beja, inaugurado em 2011, que apenas precisa de melhores acessibilidades, manda as boas regras de gestão, rentabilizar esse investimento que, por falta de VONTADE política, está “morto”.

Aeroporto de Beja vai ter área de desmantelamento de aviões (2)

(foto Dinheiro Vivo/ Lusa)

“Nem mais um cêntimo para lobbistas”  deveria ser o slogan actual contra este (des)governo recalcado do socratismo  e não qualquer outro. As pessoas estão primeiro. E as pessoas não podem ser as eternas cobaias dos  políticos irresponsáveis.

 

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12 comentários leave one →
  1. Manuel Assis Teixeira permalink
    13 Abril, 2019 13:25

    Muito bom Cristina e muito claro e objectivo! A ideia de um novo aeroporto é um polvo de muitos tentaculos…
    P.S.1 Jorge Coelho defender um novo aeroporto, TGVs, mais betão, mais alcatrão, não surpreende! Para onde é que ele foi pouco depois de ser Ministro? Onde é que ele voltou pouco tempo depois do Governo P.S. tomar posse! Mota Engil : a construtora do regime!
    P.S. 2 Claro que os defensores de novo aeroporto e do betão a todo os custo, não estão só no P.S. Estão tambem no PSD como aquele sinistro Arnaut ou o sinistro Relvas, ou no CDS onde o caixeiro viajante Portas deve estar algures a fazer lobby por alguma construtora!

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    • 15 Abril, 2019 10:20

      Em relação ao PS1, posso afirmar com conhecimento de facto que as obras que se foram fazendo nos últimos anos na Portela (algumas completamente inúteis) foram adjudicadas à Mota Engil. Granda Coelhone! E ainda há quem louve o facto de se ter demitido depois da queda da ponte de Entre-Os-Rios. Pudera, com tacho garantido também eu!

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  2. Luís Lavoura permalink
    13 Abril, 2019 17:13

    Não sei se a Cristina já se apercebeu, mas quem vai construir e inaugurar um novo aeroporto não é o Estado português, mas sim uma empresa francesa, a Vinci.
    Que raio tem a Cristina, ou eu, que chatear a Vinci por ela decidir construir um novo aeroporto onde lhe dê na real gana?

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  3. Artista português permalink
    13 Abril, 2019 18:39

    Bravo Cristina! Se não me engano, no início dos anos 70 foi realizado estudo por técnicos estrangeiros para localização de novo aeroporto para servir Lisboa. A encomenda não foi feita por o aeroporto da Portela estar na altura congestionado. Estava era dentro da cidade e tal pareceu ser menos seguro. O estudo apontou como localização mais adequada, porventura a única, a herdade de Rio Frio. A herdade entretanto faliu e hoje está na alçada da Parvalorem, devido à excelente gestão do BCP. Está abandonada e é nossa! Como o terreno não pertence a nenhum particular, está bem de ver que não lembra a ninguém recordar o estudo. Ou será por ter sido feito em pleno obscurantismo? Qualquer motivo é bom desde que não seja para atrapalhar as negociatas.

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  4. 13 Abril, 2019 23:22

    Republicou isto em O Pica-Miolos and commented:

    A Cristina Miranda, agora munida com dados oficiais estatísticos, é a exterminadora implacável do socialismo português.

    Mais um excelente artigo, que até dá prazer ler pela sua qualidade.
    E mais uma vez percebemos, mentem-nos, mentem-nos, e continuam a mentir-nos e fazerem o que querem com o NOSSO dinheiro!

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  5. Blitzkrieg permalink
    14 Abril, 2019 01:51

    Sim, o novo aeroporto é uma palhaçada. Contudo, a Portela precisa mesmo de obras para aumentar a capacidade.

    Gatwick é uma comparação aceitável, mas recebe aviões de muito grande porte com grande frequência. Onde Lisboa recebe um A320 de 160 passageiros, Gatwick por estar a receber um 777 com 350 passageiros – o slot de pista é quase o mesmo mas endereça o dobro dos passageiros. Heathrow tem uma taxa altíssima de voos de “grande porte” optimizando ao limite as pistas que tem. Contudo, Lisboa não pode receber só A330, 777 e A380s… não somos Londres.

    Dito este pequeno pormenor, apoio as suas opiniões.

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    • Cristina Miranda permalink
      14 Abril, 2019 09:38

      O texto refere exactamente o que acaba de dizer: que Portela precisa de aumentar sua eficiência. Não me esqueci de nada. Por outro lado temos o de Beja que tem capacidade de receber o maior airbus do mundo. Ironias.

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  6. Andre Miguel permalink
    14 Abril, 2019 11:59

    A Portela não é ampliada por causa da nossa força aerea, pois as bases areas que rodeiam Lisboa não permitem alargar o corredor aereo e assim permitir maior trafego. Isto foi-nos ensinado numa cadeira de operaçoes e logistica no ISG! Não há quem diga isto preto no branco num jornal ou na TV?! Havera interesses da nossa força aérea nesta situação?

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