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Texto extremamente claro

11 Junho, 2019

Foi o dia de Camões. Não só dia de Camões: como em tudo que é nacional e bom, a lógica de sinédoque tomou conta e, para além do dia do poeta, também foi dia de Portugal, das comunidades(?) e do raio que vos parta. Dizem-me que o discurso de João Miguel Tavares foi muito bom. Eu acredito, nem que mais não seja para matar o assunto sem ter que o ir ouvir. Não é pessoal: não é o João Miguel Tavares que eu não quero ouvir, é mesmo a ideia de ouvir um discurso que me faz apoiar imediatamente a eutanásia, em particular a minha. Felizmente, foi Mateus quem esteve na montanha e não eu. Tivesse sido eu e a única recordação que teria para o evangelho seria a de que senti a falta de um corta-unhas para passar o tempo. Que querem? Só há blasfémias em retrospectiva, não é?

Parece que são precisos líderes. Talvez: vocês lá saberão do que precisam, mas eu não preciso de líder, tal como não preciso de verrugas e até já dispenso quem me aconchegue a roupa da cama à noite. Podeis arranjar líderes à vontade, mas eu vou para a praia. Quer dizer, vou para uma praia metafórica, daquelas que tanto pode ser uma praia com areia e caranguejos como pode ser qualquer outro sítio onde não estejam pessoas que precisam de líderes. Já me custa besuntar as crianças com sabão para protecção solar e odor a anos oitenta, mal de mim se andasse para aí à procura de mais gente para besuntar. Porque os líderes são isso, não é? Gente que besuntamos, para que não se queimem com ultravioletas, ou com dióxido de carbono (o inimigo é volátil, quero que este texto seja genérico). Mas, mais que eu não precisar de líderes, a questão que me assola é do porquê de um líder precisar que eu precise de um líder.

É como a questão do liberalismo. Sou eu que preciso do liberalismo ou é o liberalismo que precisa de mim? É que se o liberalismo precisa de mim, parece um bocado socialista esse tal de liberalismo. E se o liberalismo não precisa de mim, porque haveria eu de precisar do liberalismo? Eu e o liberalismo somos amigos, admito. Contudo, como com todos os amigos, nem sempre estou com disposição de ver as trinta mil fotografias das férias no México. De vez em quando, sai-me um “já vi isso na internet”. E, se o amigo gostou tanto das férias no México, porque me maça com fotografias das férias que agora deixei de querer fazer para que não pense que só lá fui para não ficar atrás? Já há muito que percebi que manter amizades é sobretudo dar-lhes espaço sem a minha presença. É isso que faço com o liberalismo, que é meu amigo, mas que não me apetece ver durante uns tempos.

Se me perguntarem sobre o que é este texto, direi que é sobre amigos. Em particular, é sobre amigos que discursam para amigos. Ide, mas é, fazer novos amigos. Vou então para a praia.

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7 comentários leave one →
  1. MJRB permalink
    11 Junho, 2019 16:01

    Óptimo post !
    Eu gostaria de ouvir o VCunha, ou o Alberto Gonçalves, entre poucos mais, num seu discurso no “Dia de Camões”. Mais outro que certamente eu ouviria com muito agrado: o João César Monteiro…ou a Natália Correia.

    O discurso do JMTavares, que li há minutos, fez uma mini-radiografia do sítio tuga, foi muito bom porque todos os que o ouviram certamente não vão esquecer-se dele: uns reprovando-o, outros apoiando-o.
    Acertou no lombo de muitos políticos merdosos, empecilhantes, vígaros, alguns no palanque das comemorações.
    P”S”‘s sentiram as estocadas, PC’s e Bloquistas aceitaram-no qb.

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    • Jornaleco permalink
      11 Junho, 2019 16:47

      Tomou conta, quando ele, JMTavares, falando da corrupção, se tornou num tigre de papel? Quando ele mencionou que não só os ladrões roubam, mas também os bons? Lembra-se daquele passagem?

      Desde o 25 de Abril só esquerdistas fascistas deram cabo desto país.

      Como é que uma pessoa honesta pode roubar? Impossível.

      Eu não compreendo essa distinção entre esquerda e ????. Ninguém compreende.

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  2. Sérgio Gonçalves permalink
    11 Junho, 2019 16:16

    Excelente texto Vítor. Obrigado

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  3. maria permalink
    11 Junho, 2019 18:09

    Na verdade foi um bom discurso. Falou em 3 bancarrotas estragou tudo.
    Certo, certo é que nunca mais vi ou ouvi qualquer referência a tal.
    Foi abafado pelos democratas. Limpinho sem osso.

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  4. 11 Junho, 2019 19:34

    🙂

    Bons banhos

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  5. Que Gaita permalink
    11 Junho, 2019 21:52

    O carrascão sempre é melhor que o parreirol

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  6. Rão Arques permalink
    12 Junho, 2019 09:55

    Entretanto Marcelo segue em postura doentia de se recusar a revelar porque não cumprir o papel de presidente.
    Nas artes da manha lá vai entretendo o pagode sem coragem de ser direto e frontal mesmo nos pintelhos que gravitam à sua volta.
    A vergonhosa alusão a um ex-presidente do Mindelo que lhe ofereceu uma casa mas que recusou, não pode ser ignorada como um mexerico nojento da mais desbragada regateira.

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