BLASFÉMIAS

A guerra

Talvez por deformação profissional, as vozes contra este selvático “confinamento” direccionado para estabelecimentos nocturnos e festas populares continuam a incidir no desastre económico que se avizinha. Alguns mencionam o desastre na educação, como se fosse possível sentir-se qualquer degradação acrescida no já há muito estéril e minado campo educativo. Fora esses, os do economês, ainda há uns puritanos com noções estéticas de etiqueta saídas de um livro da Paula Bobone alegres pela faux-islamização dos costumes, mas mais nada (estes pertencem às religiões animalistas, vegan, “drugs are bad” e outros cultos ainda menores de Instagram: são para ignorar sem contemplações).

A crise económica é completamente irrelevante no contexto actual. Por muitas famílias que vejam o seu rendimento diminuído ou completamente suspenso, por muito desemprego ou por muitos encerramentos das pequenas empresas – a massa do ex-Cavaquistão – que existam, nada se compara à crise moral que a Europa e particularmente países como Portugal criaram para si próprios. Dos que após esta auto-flagelação fossem ainda capazes de investir, quem seria louco o suficiente para o fazer sabendo que a qualquer altura lhe podem fechar o negócio por tempo indeterminado alegando “razões sanitárias” e “estados de emergência”? Depois de aberta esta porta do puritanismo/bem-comum, ninguém a volta a fechar. Só a economia informal poderá mexer com seja o que for.

Portanto, razão tinha a tia de Cascais da DGS (talvez não seja de Cascais, mas o arquétipo é conhecido) ao sugerir pedirem umas couves ao amigo que têm a horta. Talvez pedir não seja o termo adequado, talvez surrupiar ao velho estilo socrático seja mais adequado (“esta couve não é minha, é de um amigo”), mas tinha razão na mesma. Quem continua a ver a crise como meramente económica julga que isto é um interruptor que se liga para confinar e, desligando-o, tudo volta ao pachorrento normal de recuperação do tempo perdido, com as devidas reestruturações, “destruição criativa”, etc. Não é. O interruptor ligou-se, não se volta a desligar. O curto-circuito está estabelecido. Só um evento do tipo bélico ou de semelhante desgraça fará esquecer a “era do confinamento”. Qualquer outra coisa, sejam barragens de dinheiro europeu, sejam as selfies deste presidente ou de outro qualquer pronto a lançar um grande programa de investimento público numa renovada Parque Escolar de nada servirão para reorganizar as sinapses estabelecidas com a declarada “guerra ao vírus”.

Compraram a guerra, agora defendam-se dela com unhas e dentes. Ou não.