Apesar da evidente desagregação do papel do catolicismo nas sociedades ocidentais, levando à conclusão de que a morte de Deus origina a substituição da angústia existencial por ideologias fracas, muitos comentadores parecem ainda não ter percebido que todas essas ideologias também já se desagregaram e caíram por terra como palha seca. É inútil falar do socialismo, do comunismo, do liberalismo ou de qualquer outro -ismo nas sociedades ocidentais. Já passamos essa fase, retendo simplesmente a simbologia, como acontece sempre, relegando todos os -ismos, incluindo os religiosos, para o domínio meramente mitológico.
Agora não há -ismos, como se verifica com a inversão permanente de conceitos entre o que os que se identificam com tais epítetos. É o fascismo, é o socialismo, é o comunismo… meras tentativas de insulto, mas palavras ocas no pragmatismo higiénico dos nossos dias.
As sociedades ocidentais caminharam para um regime que se pode considerar, à falta de melhor palavra, para o “civismo”, uma doutrina que eleva o estado para o papel do Deus morto e os seus agentes, sob a forma de governantes, a profetas do zelo comunitário para que todos caminhem no mesmo sentido. Por isso há tão poucas diferenças entre partidos e o que defendem. Aliás, em Portugal, se há algo que os une é o repúdio a essa reminiscência da plebe desbocada sob forma de André Ventura.
Uma oligarquia de castos, virtuosos, pastores da moral, prontos a impor o civismo através da educação, das notícias, dos julgamentos de carácter e da incapacidade dos rebeldes em se enquadrarem nas tribos identitárias fomentadas pelas ferramentas de dopamina das redes sociais. Uma espécie de humanismo higiénico de estado.
Não é de admirar que um pequeno evento como o Covid seja suficiente para se extrapolar esse puritanismo-cidadão a todo o mundo ocidental de uma só leva. Resistir é possível, mas requer muita coragem: é preciso sair e ir comer farturas bem fritas e a transbordar de açúcar aos arraiais. Daí que não seja de admirar que sejam os primeiros a serem banidos, perante o aplauso dos recém-formados cívicos.