Dos crimes de faca e alguidar aos comportamentos disruptivos das pesso@s inseridas em contextos problemáticos no arquipélago ZATO*
Durante décadas, jornal que se prezasse jamais trataria do problema que hoje designamos como violência doméstica. O que acontecia portas adentro só era notícia nos casos de homicídio. No dia em que este ocorria, aquelas mulheres e crianças, quotidianamente sovadas, acabavam a ser ainda caricaturadas, quais galinhas sangradas para cabidela, como personagens das chamadas “notícias de faca e alguidar”. O tempo fez o seu trabalho e os crimes de faca e alguidar ganharam uma designação decente – violência doméstica – e passaram a ser denunciados. Por ironia, durante outro largo período, era a agressão de que se podia falar. Os outros crimes, à excepção dos fiscais, mantinham-se no reduto da faca e alguidar, a que agora se juntava o anátema do populismo e doutros “ismos” ainda mais terríveis como o racismo.
Paulatinamente para tratar do roubo e agressões foi-se instituindo uma novilíngua. As notícias sobre crimes não são bem notícias mas sim teses sobre comportamentos disruptivos. De quem? Das pesso@s ou seja aqueles seres sem cor, nem deus ou sexo. Este apagamento levou por exemplo a que só após os atentados do 11 de Setembro, se identificassem como fundamentalistas islâmicos os autores de inúmeros crimes contra mulheres praticados na Europa. Já em Portugal, alguns dos órgãos de comunicação que identificam sem qualquer problema a comunidade cigana como uma vítima da pobreza omitiram, em meados deste ano, a pertença cigana dos alegados exploradores duma rede que terá escravizado centenas de pessoas com debilidades psíquicas. E não raramente quando se referem confrontos em bairros sociais, opta-se por incluir logo no título uma justificação sociológica, designando-os como bairros problemáticos, habitados por pessoas com fracos rendimentos, enfim os habitantes do nosso arquipélago ZATO. Para os mais esquecidos talvez seja esta a hora de recordar (Geórgia oblige) que o arquipélago ZATO era a rede de cidades secretas onde a defunta URSS desenvolvia a sua tecnologia nuclear. Oficialmente o arquipélago ZATO não existia. Logo muito menos existiam problemas em ZATO. Donde só se conseguir entrever o que aí ocorria lendo nas entrelinhas de textos que aparentemente nada tinham a ver com o nuclear: por exemplo, o grande acidente na central da cidade secreta de Chelyabinsk, em 1957, foi em parte confirmado através da leitura de artigos sobre couves, musgos e afins em revistas de botânica e agronomia da URSS.
Cada sociedade tem o seu arquipélago ZATO com a respectiva rede de cidades fechadas e temas tabu. O nosso é constituído por este emaranhado de preconceitos ideológicos em torno do crime. À semelhança do que sucedia no ZATO original, também aqui as crises colocam em causa a seriedade dos números. Estes não medem a realidade. Constroem-na. Daí a actual discussão em torno do número de queixas. Quem já tentou apresentar uma queixa por agressão ou roubo sabe bem como os números estão longe de corresponder à realidade: o principal objectivo do agente que preenche os formulários indispensáveis à apresentação da queixa é explicar que aquilo não leva a nada. Aliás um dos sinais evidentes da degradação das forças policiais é esta crescente vocação para amanuense dos agentes. Atrás dum balcão ninguém os sova nem processa e se forem bem sucedidos ainda conseguem demover uma parte significativa dos potenciais queixosos. Não por caso um dos momentos mais significativos da crise na justiça aconteceu este ano na esquadra de Moscavide. Esta foi invadida por um grupo de pessoas que procuravam agredir um homem que ali fora precisamente apresentar queixa deles. Em qualquer lugar do mundo democrático uma esquadra pode ser invadida, o que não é normal é que o facto tenha sido subestimado e sobretudo que ninguém se tenha interrogado sobre o que fez o homem cuja segurança não fora garantida dentro da esquadra: pura e simplesmente desistiu de apresentar queixa.
Neste Verão muito provavelmente não ocorreram mais crimes. Simplesmente a natureza de alguns desses crimes levou a que a realidade emergisse para grande incómodo dos zeladores do arquipélago de tabus em que até agora têm mantido o assunto acantonado. Nas suas declarações à TSF o que preocupava Leonel Carvalho responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança e Criminalidade? Nem a segurança nem a criminalidade – matérias sobre as quais dizia nada poder adiantar – mas sim as notícias que, na sua opinião, fomentam “o sentimento de insegurança das pessoas, o que também não é positivo”. Em ZATO tudo corria bem enquanto as notícias assim o garantiram. E por cá também assim tem sido. Antigamente mandavam-se circulares para os jornais “proibindo relatos e comentários muito extensos e pormenorizados sobre crimes considerados repugnantes” como fez, em 1929, o governo de então quando confrontado com o facto de numa aldeia de Portugal, Lagarinhos, um homem ter sido linchado. Agora arranjam-se uns gabinetes, observatórios, ONG’s e cientistas sociais que sobre o crime dizem nada mas sabem muito bem como devem ser feitas as notícias para que as suas estatísticas continuem a ser a nossa verdade. À cautela e até que a novilíngua volte a funcionar enchem-se os noticiários com uns polícias de viseira e o aparato de operações especiais. As imagens são eficazes – e o nosso ZATO bem precisa dumas boas imagens – mas pouco têm a ver com combate ao crime e ao sentimento de impunidade. Esse está lá, na solidão daquele homem que, na esquadra de Moscavide, concluiu que o melhor era tratar da sua vida e desistir de apresentar queixa.
*PÚBLICO, 2de Setembro

“Durante décadas, jornal que se prezasse jamais trataria do problema que hoje designamos como violência doméstica.”
Essas decadas foram quando? No século XVIII?
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“Durante décadas, jornal que se prezasse jamais trataria do problema que hoje designamos como violência doméstica.”
Essas decadas foram quando? No século XVIII?
É que desde há decadas que vejo o problema tratado nos jornais de várias formas e feitios. Parece que nao dá é muito efeito. Mas nao me lembro de serem apenas noticas de faca e alguidar. Portanto essas decadas devem ser antes de eu nascer. Talvez no tempo da outra senhora.
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O anónimo lê poucos jornais
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Para mim sempre que o Leonel Carvalho aparece na televisão sei que a criminalidade está a descer.
É o tipo de pessoas que se sabe que foram bem escolhidas para o cargo.
Enquanto aparecer gente desta sabemos que Portugal melhora a olhos vistos.
Sabemos assim que estamos no bom caminho.
Salve-se quem puder.
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“Durante décadas, jornal que se prezasse jamais trataria do problema que hoje designamos como violência doméstica.”
Pelo menos durante o fascismo, que foram quatro décadas, qualquer notícia sobre violência doméstica seria censurada.
O “Deus, Pátria e Família”, não permitia notícias negativas sobre tais valores.
Sabe-se que Salazar “andou” com uma jornalista francesa, Christine Garnier, mas nada consta que lhe tivesse batido.
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5 – é notório que as ditaduras lidam mal com as notícias sobre crimes. O que não exclui que em alguns momentos não as utilizem a seu favor.
O que se assiste neste momento em Portugal e noutros estados sociais é exactamente ao mesmo que já se viu nas ditaduras: negar e dizer ao povo que está enganado
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Algum jornal está impedido de publicar o que lhe aprouver, em Portugal hoje, sobre violência doméstica ?
Se não o faz no Público, é porque não quer ou o Fernandes não deixa.
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Mais que o tiques ditatoriais imputados ao 1º ministro é a actual ditadura do politicamente correcto que ameaça a liberdade dos portugueses. E a turba de comentadores bem pensantes que ciclicamente invade as tv’s é a principal responsável por isso.
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” As imagens são eficazes – e o nosso ZATO bem precisa dumas boas imagens – mas pouco têm a ver com combate ao crime e ao sentimento de impunidade. ”
As imagens se calhar sao eficazes mas é para os criminosos. Que podem observar que alguma coisa está a ser feitta e é melhor mudarem de vida..
Se nao fazem é porque nao fazem nada, se fazem é porque nao deviam fazer. Foge que já chateiam.
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O que se assiste nas tv’s é o que sempre se assistiu. É a propaganda sobre aquilo que querem que as pessoas pensem. É por ondas. Há quem tenha na tv e nos media a ideia de que servem para manipular as opinioes. É por isso que andam sempre muito preocupados com o que aparece na tv. Sempre a ver quanto tempo falam e o que fazem. Sempre preocupados com o que dizem na tv.
e O MAIS ENGRAÇADO É QUE JÁ QUASE NINGUÉM VE TV…lol Só os politicos.
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Se não o faz no Público, é porque não quer ou o Fernandes não deixa.
Helena Matos é cronista, não é nenhuma reporter a escrevinhar notícias.
Este texto foi aliás publicado no Público.
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Helna Matos deve ser saber essas coisas da violencia por estudos de campo visto que os jornais e os media nunca falam disso. De certeza que nao está informada disso pelo que le nos jornais que nunca escreveram nada sobre isso.
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No mínimo, conhecerá os casos da família dela.
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Cara Helena:
Foi V. que censurou um comentário em que me limitava a perguntar-lhe o que fazia aqui?
A sério? Foi V.? Não quero crer. Diga-me qualquer coisa, para eu poder dormir mais descansado esta noite.
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É preciso relembrar que as queixas contra desconhecidos passaram a ser pagas. Comparar os números de queixas antigas com o quê?
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“A integridade física de Rui Mateus estaria alegadamente ameaçada, havendo fortes indícios de que terão sido feitos contactos com indivíduos ligados ao mundo do crime, para se encarregarem desta «operação» (…). As pressões eram muitas, a começar com as «recomendações de amigo» de Almeida Santos, que o Presidente da República enviara apressadamente de Marrocos e com quem reuniríamos regularmente a partir do dia 17 de Maio em sua casa. Por outro lado eu estava a ser «olhado» como um traidor à causa «soarista» (…).
Rui Mateus
A Procuradoria-Geral da República manteve sempre um silêncio sobre estas actividades criminosas
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“O VIRGEM NEGRA”
Adaptação de Fernando Pessoa para explicar às criancinhas o Processo Casa Pia
“O Ferro gosta muito de levar no cu
O Jaime nem por isso
O Paulo dá-lhe mais para ir
O Carlos emociona-se e não consegue acabar.
O Jorge
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Jaime
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia. (…)”
“O Ferro gosta muito de levar no cu
O Jaime nem por isso
O Paulo dá-lhe mais para ir
O Carlos emociona-se e não consegue acabar.
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