Skip to content

É tempo de dizer ‘basta’

21 Janeiro, 2018

Disseram-lhe que se sentiria fresca, que poderia fazer tudo o que lhe era vedado pela sociedade, tal como andar a cavalo, natação sincronizada e ioga sem roupa. O anúncio prometia tudo isso e mais alguma coisa, como a miríade de amigas com excesso de motricidade e sorrisos de sacarina envergando curtíssimas saias, as que, mesmo assim, oscilavam ao vento de Inverno no Ártico; ou até jardinagem de cócoras com uniforme de escoteira dez anos mais nova e um rapaz musculoso no limiar entre o bom gosto e o azeiteiro a assistir.

A realidade, contudo, não se compadece com o romantismo bucólico dos anúncios televisivos.

Quando saiu para os comprar, pensou que chegaria a casa com o bronze de modelo californiana dos anos 80 e a atitude assertiva de uma mulher a quem Sócrates dá dinheiro. Sentiu até uma gotinha de xixi a cair, tal a excitação de os ver na prateleira do supermercado. Comprou-os, transportando-os no saco opaco do Continente como quem sabe que transporta o fruto proibido, a chave para o Shangri-La, o encaixe que desencadeia a dinâmica do mecanismo que oculta o Graal.

Chegou a casa e introduziu-o. Saiu à rua, radiante por saber que saberia instantaneamente andar a cavalo.

Olhou para o lado e nada, nenhuma nova amiga francamente sub-vestida para o Inverno serrano, nenhum instrutor de ioga nu, nenhuma equipa de natação sincronizada em perfeita harmonia consigo própria. Até lhe doía a cabeça, sentia-se como que enjoada, maldisposta, irascível. Foi para isto que tentou, antecipou, que ansiou, investigou e determinou que seriam companheiros para a vida? E a jardinagem de cócoras com que tanto sonhara, tão realista como a senhora do anúncio do Neoblanc que se queixa de comprarem lixívias baratas numa casa de 3700m2 com vista para o Mediterrâneo grego?

Regressa a casa, agoniada, zangada, magoada, desiludida, como se toda a vida tivesse perdido o sentido, e escreve uma denúncia a publicar em todos os órgãos de informação. Começa assim:

“Sim, eu também fui violada pela Tampax”.

Anúncios

Uma semana no recreio

21 Janeiro, 2018

O Governo proíbe as crianças-pais de comerem queques nos hospitais, já a PSP faz comunicados explicando às crianças-filhos que não devem engolir cápsulas de detergente. Estamos no país-recreio. E um dos dogmas desse mundo-recreio garante que se se ignorar os problemas eles deixam de existir. Por isso praticamente não tivemos notícias sobre os 1031 carros queimados em França na noite da passagem de ano, nem sobre as agressões aos polícias em Agression de Champigny, nem sobre mais uma explosão de granadas na Suécia, nem sobre o movimento de adultos nascidos através do recurso a dadores de espema e óvulos pelo direito a saber quem são os seus pais…

Pelo caminho até esquecemos que em 2012 andou meio país a tentar convencer e pagar a Woody Allen para vir filmar em Lisboa. E claro temos esse novo grupo de práticas para agit-prop neo-realista que são os inquilinos velhos e pobres despejados em Lisboa.

Por outras palavras, é o recreio

Brexit: punir o Reino Unido?

20 Janeiro, 2018

Customs-Duty

 

De forma mais ou menos dissimulada, continua a perpassar entre os dirigentes europeus e a opinião pública em geral a ideia de “punir” o Reino Unido pelo Brexit, desde logo colocando em causa ou condicionando o “acesso” ao mercado único da União Europeia.

A imbecilidade de tal coisa seria óbvia a todos não fosse o caso de, mesmo depois de séculos passados sobre a publicação de tratados fundamentais de Economia e da exaustiva evidência histórica, o conceito de vantagem comparativa não ser ainda compreendido (perdoa-lhes David Ricardo!) e o mercantilismo estar vivo como nunca (não faças caso, Adam Smith!).

Gostava de lembrar que Portugal não faz importações. Quem compra bens e serviços aos britânicos são os indivíduos e as empresas. Convém também não esquecer que o consumo de produtos e serviços estrangeiros é fruto das opções autónomas e voluntárias de cada um de nós.

Ninguém me obriga a comprar chá inglês ou uma camisola de lã escocesa. Compro esses produtos porque quero usufruir deles e prefiro ter esses bens a gastar o meu dinheiro noutras coisas ou de outras origens.

Assim, qual o argumento moral para que políticos se arroguem o direito de decidir por mim a origem dos produtos que posso consumir? Ou que direito terá a UE de, através de eventuais futuras tarifas às importações britânicas, me obrigar a pagar mais caro por produtos que poderia obter gastando menos dinheiro, não existisse esse imposto adicional? É o estado e os burocratas que decidem se é melhor comprar “europeu” ou britânico? A que propósito os produtores de chá e camisolas de lã “internos” seriam beneficiados à minha custa?

Além de indefensável à luz dos mais elementares princípios de economia e de ser um valente tiro no nosso pé, impedir ou tornar mais difícil o livre comércio entre o Reino Unido e a União Europeia no pós-Brexit é eticamente condenável.

*

Onde Estão os Hipócritas Defensores dos Direitos Humanos?

19 Janeiro, 2018

Há um silêncio ensurdecedor à volta do que se passa na Venezuela. A começar pela comunicação social, essa aliada do governo em ofuscar, omitir ou atenuar tudo o que possa beliscar quem manda agora neste país. Eles que não nos poupam com o Trump seja porque bebeu água com as duas mãos, seja por causa de uns exames médicos que fez, seja por umas calinadas linguísticas, aqui tudo é importante escrutinar TODOS OS DIAS (tudo que não seja positivo, claro) sobre esta criatura. E a Venezuela com mais de 500 mil luso-descendentes a morrer à fome, miséria, opressão, não interessa? Onde estão agora, também, os intelectuais e os políticos que tinham em Maduro uma referência política? Ficaram mudos porquê? Estes portugueses não interessam a ninguém?

A Venezuela está a ser assassinada por um louco que mata a economia apesar de ser um grande produtor de petróleo (mas que ironia), provocando escassez severa de alimentos com uma inflação de mais de 2,300%. Que mata opositores entre eles Oscar Perez. Que mata o povo por falta de assistência médica. Que mata crianças por falta de comida. Um louco fanático que para não reconhecer o fracasso das suas políticas de esquerda rejeita apoio internacional. Mas um louco com lucidez suficiente para desarmar a população e aceitar ajuda de Cuba com milícias da sua tropa de elite, as “Vespas Negras “, para oprimir movimentos populares usando qualquer método dissuasivo como tortura ou morte. Com lucidez suficiente para comprar pessoas com caixas de comida barata para assegurar votos sob coação e manter-se eternamente no poder (não sei o que isto me lembra).

Entretanto há 31 milhões de pessoas desesperadas para sobreviver à morte certa. Fugas em massa com quilómetros de fila para a Colômbia, assaltos a supermercados e armazéns de comida, apedrejamento de vacas em propriedades privadas para matar a fome, a comerem do lixo, a comerem alimento para cães com a ONU a observar, observar, observar… que é o que de melhor sabe fazer. Observar. No meio deste observatório todo, marca debates, uns atrás dos outros, e vejam só até houve lugar a elogios ao esforço da Venezuela ao introduzir uma série de medidas em linha com as que foram recomendadas por Alfred de Zayas,( especialista independente da ONU para a promoção de uma ordem internacional democrática e equitativa), para melhorar a distribuição de alimentos e medicamentos. Está-se mesmo a ver o esforço de Maduro. Até lhe sinto o suor daqui… Francamente!

A História já nos demonstrou que com loucos tem de haver uma acção drástica por parte da Comunidade Internacional para resgatar os povos da morte e não esta hipocrisia monumental do “faz de conta que não é assim tão grave”. Lembram-se do holocausto nazi? Enquanto decorria quem conseguiu escapar denunciou a chacina. Revelou os campos de concentração. Que fizeram os aliados? No imediato, nada. Só dois anos e meio depois. Porque se o tivessem feito, muitas vidas teriam sido poupadas. Factos.

Nem mesmo com as evidências todas de uma nação literalmente a morrer de fome (veja aqui) a Comunidade Internacional se mexe para acudir a esta catástrofe humanitária. Onde andam os histéricos defensores dos direitos do homem? Não andam. Sumiram.

Quem sabe se isto fosse antes um caso de pseudo assédio de artistas de Hollywood ou uma manifestação contra Trump ou alguém a manifestar-se contra a islamização da Europa, a agitação não fosse maior e aí já teria destaque no “prime time” televisivo. A toda a hora.

Quem sabe.

 

 

Quem é que no aparelho activista está a precisar de casa no centro de Lisboa?

19 Janeiro, 2018

Cem casas no centro de Lisboa para quem não pode pagar renda
O título é bonito, o palavreado da senhora vereadora é decalcado da cartilha. fala-se de despejos que “Atingem maioritariamente pessoas com baixos rendimentos e idade elevada, que não têm capacidade para encontrar habitações que possam pagar e ficam assim sem capacidade para permanecer nos territórios onde subsistem as suas raízes e rede comunitária
Mas nada disto bate certo.
1) Quais e quantas pessoas são essas “com baixos rendimentos e idade elevada” ameaçadas de despejos? Ninguém sabe e a CML não apresenta números.
2) Em seguida temos a questão dos propriamente ditos  despejos das pessoas “com baixos rendimentos e idade elevada”. Ora acontece que  os inquilinos com rendas antigas, mais de 65 anos ou deficiência igual ou superior a 60% e carências financeiras têm um período transitório de dez anos contado a partir do momento em que o inquilino respondeu formalmente ao senhorio sobre a proposta de aumento de renda.

Como é óbvio não estão a acontecer despejos mas sim saídas negociadas porque despejar alguém com mais de 65 anos e baixos rendimentos é quase impossível:

*Os inquilinos com menos de 65 anos, mas que comprovem ter carências financeiras têm um período transitório de oito anos. Têm ainda mais cinco anos em que se mantém o contrato, sendo que a renda não pode ir além de um quinze avos do valor fiscal do imóvel

*Se o inquilino tiver de ser despejado por causa de obras que custem 25% do valor patrimonial do edifício, o senhorio terá de pagar dois anos de renda ao inquilino.

*Tem carências financeiras uma família cujo RABC é inferior a 38.990 euros por ano, ou seja, 3.250 euros por mês.

Em conclusão, os despejos de pessoas “com baixos rendimentos e idade elevada” são uma história muito mal contada.  Em nome da transparência é fundamental perceber quem vai viver nestas casas.

Estereotipar é humano

19 Janeiro, 2018

Ao longo da minha vida, como acontece com toda a gente, fui aprendendo a compartimentar pessoas em estereótipos, que, por muito superficiais e consequentemente caricaturais que sejam, me permitem determinar os limites e os tabus de uma conversa. Por exemplo, o estereótipos como o tipo activista dos costumes que sobe na horizontal (com o qual “bom dia” tanto pode ser uma violação como uma cortesia pela noite anterior), o tipo filho de pedófilo que compensa demasiado encontrando vítimas ficcionais entre estações, o tipo mulher-na-menopausa que pinta quadros fraquinhos numa vivenda algarvia e que lamenta os casos #MeToo mas por despeito de ter perdido a graça, enfim, categorias perfeitamente normais que toda a gente usa.

Ultimamente tenho pensado numa dessas categorias, a do deficiente mental a quem se pergunta opinião sobre sinistros rodoviários e que apresenta como solução a redução do limite de velocidade para 30 km/h. É verdade que é necessário “dar mais tempo a quem precisa”, mas também é verdade que é fundamental dar mais multas a quem as pode esbanjar a “acabar com a austeridade”.

Esta manhã, tentei durante uns minutos não exceder os 30 km/h. Foi difícil, em parte porque o carro – pequeno utilitário de baixa cilindrada, 9 anos de idade, barulhos de plásticos que adicionam poliritmos à simplicidade rítmica da pop comercial – desenvolve naturalmente de forma mais eficiente que a mula que transporta os cidadãos da tal categoria estereotipada; em parte porque a octogenária do carro de trás me gritou “destrava essa merda, ó capado”.

Como bom cidadão que sou, já mandei remover duas velas ao motor e estou ansioso por poder queimar gasolina prego a fundo para combater o arrefecimento global. Vós, os rebeldes, pagai lá a multa por uma questão de princípio tão estúpida como chegar ao trabalho ainda hoje.

Não descruzarás as pernas, bitch

18 Janeiro, 2018

Se eu fosse uma daquelas pessoas que tende a saber exactamente as motivações de alguém, diria que o texto do Henrique Raposo é motivado por uma preocupação pessoal com o bem-estar (agora diz-se bem-tar) das suas filhas. Como não sou, limito-me a dizer que o considero, quer ética, quer moralmente, tão erradamente desprovido de moral humana como quando foi tornado em regra pelo código criminal da União Soviética, com pena até três anos pela posse e distribuição de pornografia. Não é de somenos que o Partido Comunista Português seja, para grande infelicidade dos três solitários conservadores-liberais portugueses, a grande referência nacional do conservadorismo.

A certa altura, o Henrique diz que “não somos macacos à deriva num universo darwinista”. Sinto-me atingido. É precisamente isso que somos enquanto o acasalamento, e Deus nos livre que assim deixe de ser, for motivado por instinto e não por minucioso data mining de base de dados genética. Durante milénios, nós, os homens, soubemos procurar visualmente as ancas que nos providenciariam maior probabilidade de reprodução e elas, as mulheres, souberam guardar o poder da procriação para o macaquinho que aparente possuir melhores genes. Não é um método infalível, mas é — e talvez mesmo por essa falibilidade — inegavelmente humano. A espécie preserva-se assim: o mais forte e a mais atraente têm probabilidade superior a gerar filhos que assegurem posterior reprodução na geração seguinte. Sobre sermos macacos darwinistas nem se trata dizer que estamos conversados, trata-se de estarmos conversados desde o início dos tempos.

Porém, como já muitas pessoas salientaram, na generalização do homem como besta sem filtros e travões, coisa que nem os cães são (que não faltam cadelas capazes de dar valentes cargas de porradinha da velha ao cachorro desinteressante mais atrevido), o Henrique diz o seguinte:

O movimento #MeToo tornou-se imparável e a sua principal consequência será a revisão dos códigos morais e sexuais que herdámos da revolução sexual dos anos 60.

A primeira parte é verdade: é imparável, pelo menos até dar de trombas com a parede; a segunda parte é que não: os códigos morais e sexuais herdados da revolução sexual dos anos 60 não serão revistos, serão sim temporariamente metidos dentro das quatro paredes (e dos WhatsApp, e dos Instagrams, e dos milhares de recantos naturais e artificiais por esses caminhos de Portugal) enquanto não se tem a certeza absoluta de um potencial parceiro não ser um maluquinho dos que não percebe que a cada #MeToo só se obtém um futuro #NoSoupForYou.

Como também tenho filhos, um de cada sexo, e como isso parece dar-me automaticamente a posição de catedrático na matéria, acrescento que nunca ensinei (adenda: nem ensinarei) a rapariga a “cruzar as pernas”, a “não abusar do decote e da saia” e a “não se expressar através do corpo”. Porém, ensinei aos dois que é particularmente bonito partir o nariz a quem tem dificuldade a perceber que as mulheres não são para serem domadas, quer pelos que lhes ensinam a cruzarem as pernas, quer pelos que vêem em pernas descruzadas uma oportunidade para extravasarem a sua má rês, ambas sintomas da vontade de alguns por controlo dos outros.