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O Processo de Grunhificação em Curso

26 Fevereiro, 2020

«Motards perseguem polícia e enconstam-no contra carro patrulha durante funeral das vítimas da Segunda Circular. O agente, em sua defesa, puxou de uma arma quando estava a ser cercado.»

Algures entre chamar rei a Eusébio e sr. a Máŕio Coluna e guinchar diante de Marega, Portugal ajavardou. O PREC tornou-se no PGEC: Processo de Grunhificação em Curso. O amanhã que ia cantar é o hoje que grunhe. No fim acabamos tolerando o que acreditávamos intolerável. Calando o que nos indignava. Pactuando com o que sabemos ser um crime. O Processo de Grunhificação acontece muito rapidamente. Recuperar dele é que demora tempo.

Aí não?

26 Fevereiro, 2020

Aí o Marega não foi insultado por ser preto? Se calhar foi por ter nascido em Les Ulis Ou por ser um jogador alto. Ou por pesar mais de 70 kilos. Porquê tanto esforço para torcer a realidade? Racismo é usar a cor, etnia ou cultura de alguém, denegrindo-o e rebaixando-o. Foi o que aconteceu. Sim, outros jogadores já foram insultados com comentários racistas. E não duvido que a Cristina também o tenha sido. E….? Por causa disso o Marega não foi insultado por causa da sua cor?  Quem o insultou teria imitado um macaco se o jogador fosse branco? E não, não é verdade que «quem vai para o futebol tem de saber que isso (insultos) faz parte do ofício». Isso é absurdo, seria doentio e levaria a ter de aceitar-se que tal espectáculo é antro exclusivo de grunhos na assistência. O que felizmente não é caso. Há sim pessoas e grupos que gostam de andar a exorcizar as suas frustações e complexos gritando cânticos racistas e insultando jogadores com base na cor da pele, na origem, na etnia, no nome. Sim, racismo. Há. Bastante.

Marega esteve bem, e teve o mérito de ter sido o primeiro a recusar-se a jogar enquanto o insultavam com cânticos racistas. Se todos os jogadores daqui para a frente fizerem o mesmo, certamente o país será melhor e mais civilizado.

A constitucionalidade faz de conta

26 Fevereiro, 2020

Ferro Rodrigues solicitou à Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais que esclareça “com muita urgência” a constitucionalidade do projecto do Chega que propõe o agravamento de penas para crimes de abuso sexual de crianças e uma pena acessória de castração química. Os partidos representados na Comissão de Assuntos Constitucionais não têm dúvidas: a castração química é inconstitucional.

Há menos de uma semana estes mesmos deputados votaram sem quaisquer dúvidas sobre a constitucionalidade dessa votação a favor da eutanásia.

Só interessa se for lá fora

25 Fevereiro, 2020

Harvey Weinstein foi considerado culpado por tribunal nova-iorquino de dois crimes de abuso sexual. Na mesma altura que a escandaleira MeToo progredia de efectivos casos de violação para um “tenho a impressão que me tocou no joelho há 45 anos”, uma senhora de 49 anos seria pacificamente violada por dois homens perto de uma estação de metro na Maia. Seria, porque dias mais tarde, segundo o noticiado, não conseguiu “sustentar a queixa”, tendo desistido da denúncia.

Terá sido violada? Terá imaginado coisas? Nunca saberemos: estamos mais interessados em dizer que não há denúncias falsas do que em descobrir a verdade. E se a senhora foi mesmo violada, que se lixe, não vamos é arriscar a narrativa de que todas as acusações de violação têm fundamento. Entre prevalecer a justiça ou descobrirem-se falhas na narrativa oficial, mais vale não arriscar. A mulher que se lixe.

Não limitem a liberdade

24 Fevereiro, 2020

Caiu por terra qualquer argumento sobre taxas de cesarianas e resolveu-se a questão do direito da grávida a escolher livremente o método cirúrgico para o parto: no momento em que alguém pode entrar no hospital para ser morto, não há qualquer argumento passível de restringir a decisão pessoal de uma cesariana a pedido. Com o estado a criar algoritmos, o médico do futuro poderá até ser substituído por um robô.

Marega, não é por seres preto

24 Fevereiro, 2020

Digam ao Marega que a estupidez humana não tem cor e meia dúzia de energúmenos não representam um país. Que tem razão: aquilo – a imitação de sons de macacos –  não se faz. Aquilo não é de gente civilizada e tem de ser punido. Mas  que não  foi pelo tom da sua pele. Foi por estupidez.

Perguntem se é verdade que foi trazido de clubes sem qualquer relevo para o Marítimo da Madeira, em 2014/2015, mas revelou desde cedo uma queda para indisciplina e descontrolo emocional que lhe valeram várias multas e suspensões e mesmo assim, foi acarinhado pelo clube pelo seu brilhantismo.

Perguntem se é verdade que depois de transferido para o FCP, a prestação caiu a pique e, só por isso, passou a ser a anedota azul e branca.

Perguntem se é verdade que mesmo com a popularidade em baixa foi emprestado ao Vitória perante a perplexidade de alguns que não lhe viam valor futebolístico, mas mesmo assim, de camisola vestida, foi recebido com carinho e apoiado como qualquer outro jogador, tendo recebido aplausos quando os mereceu e reprovação, como qualquer outro, quando desiludia.

Perguntem se é verdade que vestindo o equipamento do Vitória, num jogo perante o Nacional, se descontrolou e sem mais deu um estalo num adversário valendo-lhe uma expulsão e que ao sair do relvado ainda insultou com palavras e gestos adeptos do Vitória, partindo tudo o que lhe apareceu à frente no balneário.

Perguntem se é verdade que mesmo com estes comportamentos a SAD Vitoriana não deixou cair o jogador e procurou a reintegração no grupo, enquanto os adeptos também o perdoavam.

Perguntem se é verdade que se tornou um ídolo dos adeptos do Vitória por ter feito uma excelente época no clube.

Perguntem se é verdade que trocou o Vitória que o idolatrou pelo FCP,  reabilitado e com prestigio em alta, fazendo questão de agradecer ao clube vitoriano por tudo o que por ele fizeram.

Perguntem se é verdade que nos 2 anos seguintes, sempre que as 2 equipas se encontravam, era aplaudido pelo adeptos vitória até mesmo quando saiu lesionado num jogo, onde foi  aplaudido de pé.

Perguntem se é verdade que no fatídico dia da polémica racista marcado pelo famoso abandono do estádio,  no aquecimento com FCP, os adeptos (cerca de 5) estavam a mandar “bocas” aos jogadores adversários como acontece em qualquer jogo de futebol e não um em particular; que no decorrer do jogo não houve insultos apenas descontentamento dos adeptos do FCP por falhanço de golo; que chegados ao minuto 60,  assim que se deu o golo, inesperadamente foi festejar junto dos adeptos do Vitória provocando-os com gestos e palavras e que imediatamente reagiram com vaias, insultos e arremesso de cadeiras, não por ser negro; que em reacção ao sucedido,  sempre que tocava na bola  os adeptos não lhe perdoavam a traição, insultando-o.

Quando era criança, no Canadá sofri de racismo e não sou preta. Sei o que é essa humilhação,  porque com 9 anos ouvi um pavilhão gimnodesportivo inteiro apinhado de alunos em sonoras gargalhadas,    assim que o  meu nome foi anunciado nos microfones para subir ao palco para receber uma medalha de atletismo. Ainda hoje consigo ouvir toda a gente a tentar pronunciar o meu nome “estranho” com sotaque canadiano – “Gonçalves” – perdidos de riso. Em vez de sair dali a correr enfrentei a multidão, caminhando por entre eles de cabeça baixa e  a tentar suspender as lágrimas enquanto a vontade de desaparecer e a vergonha  tomavam conta de mim, num momento que deveria ter sido de euforia mas que se transformou num pesadelo. Porque ser portuguesa, ter uma língua e nome esquisitos, vestir como uma provinciana pobre, ser patinho feio  e ter ainda ar de “chinezinha”, num país que não era o meu, valeu-me episódios como esse e tantos outros e não ter  por isso quem quisesse  brincar comigo na escola. Ninguém. A não ser, claro, outros rejeitados como eu.

Chegava a casa em choro e dizia em pranto, cheia de raiva,  que não queria voltar mais à escola. Mas o meu pai ensinou-me que a melhor forma de combater a exclusão, seja pelo que for,  era ignorar e focar-me apenas em  lutar por ser a melhor na conquista dos meus objectivos e que aí chegada todos se esqueceriam da cor, da etnia, da cultura, e passariam a ver apenas a pessoa. Que o mundo era assim em todo o lado em relação às diferenças. A vida mostrou que tinha razão.

No futebol é sabido que não é preciso ser-se preto para sofrer de racismo. E que ser preto não implica necessariamente que o haja. Que o diga Cristiano Ronaldo também alvo desses ataques racistas em Espanha (veja aqui) e que soube ignorar como só um grande profissional o sabe fazer.  Exactamente como me foi ensinado pelo meu pai. Como diz aqui neste vídeo  um insuspeito africano que não se revê no comportamento de Marega: “não é racismo e  quem vai para o futebol tem de saber que isso (insultos) faz parte do ofício”.

Tão verdade que nem Eusébio, hoje a descansar no Panteão,  escapou.

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É um fogo que arde sem se ver

21 Fevereiro, 2020

Os eventos recentes e o que sobre eles escrevi poderão ter levado os três leitores assíduos a pensar que entrei num ciclo de desilusão com a política actual. A esses pretendo deixar uma pequena nota que visa o esclarecimento: é ao contrário; os eventos recentes não foram dotados de significado suficiente para me fazer sair do estado de desilusão que desde o berço acolhi de braços abertos.

Obter contentamento com a política nacional parece-me no mínimo uma imprudência, no máximo uma infantilidade. A condição indispensável à portugalidade, e a que — como os restantes nativos — não escapo, é precisamente a de nunca um português contentar-se de contente. O andar solitário entre a gente e que é ferida que dói e não se sente é, mais que o acidente demográfico e geográfico de ter sido parido nestas terras, o que nos define e une como povo.

Sim, considero uma ignomínia a aprovação dos projectos de eutanásia porque concedem ao estado o poder de determinar quem vive e quem morre, mas sei que, ao contrário dos calvinistas do norte que vivem contentando-se de contentes e infelizes de descontentamento, enquanto depender da exclusiva vontade do doente, não haverá mais que um par de portugueses a pedir o extermínio, contando estes como excepções que confirmam a regra.

O português tem uma cultura católica, pelo que sabe que a sua felicidade deriva do contentamento na miséria. Nenhuma lei muda isso. Haverá algo mais católico do que deixar de votar em eleições, correndo o risco da situação melhorar para que se alcance a infelicidade decorrente do contentamento?

Não se governam nem se deixam governar. Pudera: permitir que alguém invente soluções de prosperidade é tirar-nos a felicidade de vivermos modestamente. Ninguém o mudou antes, também não serão estes novos (ou velhos?) jacobinos que o farão. Ainda há quem não perceba porque elegemos sistematicamente o Partido Socialista para nos governar? A resposta está, como sempre esteve, em ter com quem nos mata lealdade.