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Júdice, mestre do insulogio

26 Abril, 2017

judice

Existe desde há muitos meses um grande consenso no país: todos os portugueses concordam que António Costa é um verdadeiro político. A única divisão que se evidenciava até agora era entre aqueles que referiam este facto como forma de lhe dirigir um sincero e sentido elogio e aqueles que o sublinhavam como forma de lhe dirigir um sincero e sentido insulto. Na última semana, com a entrevista concedida ao diário i por José Miguel Júdice, passou a existir uma terceira categoria de cidadãos: os que consideram António Costa um verdadeiro político, mas o exprimem de uma maneira tal, que louvor e ofensa se misturam num género ainda não estudado pelos linguistas.

Nessa conversa jornalística, o ex-Bastonário da Ordem dos Advogados começa por atribuir ao Primeiro-Ministro o título de político mais dotado da sua geração; algumas linhas depois, quando o leitor ainda está a digerir a apologia, aproveita para realçar que é impossível fazer política sem se estar permanentemente a mentir. E é precisamente por isso que o advogado considera o secretário-geral do PS um génio, um autêntico Fernando Pessoa da aldrabice / que chega a achar que é verdade / a mentira que sabe que disse.

Recorrendo ao Google, descobri que já há uns tempos, numa outra entrevista, Júdice tinha destacado a frieza e a falta de emoções de António Costa, assegurando que a sua maior qualidade era ser “um verdadeiro oportunista”. Desde o dia em que um amigo meu, fervoroso adepto do FCP, confessou apreciar as minhas qualidades futebolísticas e estilo de jogo ao ponto de sonhar todas as noites com a minha contratação pelo Benfica ou pelo Sporting, que não tinha o prazer de contactar com tão venenosos elogios.

Mas Júdice não se fica por António Costa e lança também a sua análise sobre o Chefe de Estado: o seu amigo Marcelo é igualmente o político mais dotado da sua geração (ficamos sem saber quantos anos dura cada geração de políticos, mas, aparentemente, são poucos), embora sofra de verborreia e de entusiasmo excessivo, e seja manipulador, maquiavélico, ácido, sibilino, capaz de jogar com as pessoas, maledicente e traiçoeiro! É impossível não ficar assustado só de pensar nos elogios que o advogado utilizaria para caracterizar o político menos dotado da geração do Presidente da República.

Nestas entrevistas, são também reservadas algumas palavras a Passos Coelho: é descrito como um homem menos adequado ao momento que Portugal atravessa, e com uma menor habilidade para lidar com as subtilezas, complicações e especificidades da vida política nacional. Ambrose Bierce disse uma vez que um elogio é um empréstimo que rende juros. Intenções de José Miguel Júdice à parte, se fosse a Passos Coelho, começava a poupar para os pagar.

 

Tolerância de ponto: sim, venha daí

26 Abril, 2017

Faz todo o sentido que no dia 12 de Maio, sexta-feira, haja tolerância de ponto. José Sócrates, que chefiava o bando governamental em 2010, também considerou que a visita papal de Bento XVI, a 12 de Maio, merecia um dia de reflexão na função pública para que diligentes funcionários pudessem dedicar tempo ao plano espiritual de remoção sistemática de crucifixos de organismos públicos promovida pela então namorada do doutor-engenheiro, isto antes de se converter à causa da co-adopção de refugiados sírios que sejam transsexuais pretos e de se lembrar que o bisavô teve um escravo (obviamente, a bisavó). Foi bonita, a festa: o Sumo Pontífice foi recebido pelo autarca lisboeta, doutor António Costa, que lhe ofereceu, entusiasticamente, a chave da cidade. De seguida, foi altura de receber a águia de prata, oferecida pelo Benfica, um símbolo do ecumenismo que une a segunda e a terceira religião de Portugal. A religião principal, o socialismo, tolerante para com tudo que o faça avançar, beneficia agora de ao laicismo militante calhar bastante agradável um fim-de-semana prolongado.

o 25 de abril foram três revoluções

25 Abril, 2017
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A primeira, que hoje comemora 43 anos, derrubou um regime velho e caduco, que não se soubera modernizar e, pior que tudo, que não foi capaz de resolver politicamente uma guerra com treze anos e sem solução militar à vista. A guerra colonial foi, muito mais do que a questão democrática, o motivo principal que fez com que as Forças Armadas executassem um golpe de estado que, quase imediatamente, se transformou em revolução. Com excepção da tentativa do golpe de Botelho Moniz, em 61, Salazar conseguira sempre assegurar a lealdade das chefias militares, o que Marcello Caetano não foi capaz. A perda de Spínola e Costa Gomes, que surgem, na noite de 24 para 25 de Abril, como os chefes do movimento militar, foi fatal para o regime. A revolução só foi pacífica porque o regime deposto estava anquilosado e não teve reacção. Envelhecido por quarenta anos de salazarismo e por uma sucessão que se mostrou incapaz de cumprir a renovação que prometera e o país aguardava, já nem aqueles que o dirigiam acreditavam nele. O regime foi derrubado, mas não caiu: desfaleceu.

A segunda revolução só surpreendeu os incautos. Teve duas datas: o 28 de Setembro de 1974 e o 11 de Março do ano seguinte. Verdadeiramente, principiara logo uma semana depois do dia em que Marcello Caetano foi preso no Largo do Caldas, quando, no Dia do Trabalhador, o Dr. Cunhal explicou ao Dr. Soares e ao país que o entendeu, aquilo que ele queria dizer com «as mais amplas liberdades». Quem não ignorar a história, sabe que em qualquer revolução democrática, após o romantismo das primeiras intenções, conhece inevitavelmente um momento de radicalização para fazer triunfar a «verdadeira» revolução e partir os dentes aos «reaccionários». É esse o momento em que a escumalha tenta assaltar violentamente o poder e onde, se não houver reacção forte, se fazem os banhos de sangue. Sempre em nome das mais belas intenções e dos mais honestos propósitos. A Revolução Francesa, logo após 89, explica bem como é que essas coisas se fazem. E como infelizmente terminam. Para todos.

A reacção forte aos planos dos Dr. Cunhal veio de dentro e de fora do país, e corporizou-se no 25 de Novembro de 1975, verdadeiramente, o terceiro 25 de Abril, e aquele que instituiu a democracia e o Estado de direito em Portugal. De fora – pasme-se! – da própria União Soviética, que já tinha conseguido o que queria – as independências africanas – e não estava disposta a ceder aos ímpetos leninistas do seu agente em Lisboa, e provocar, com isso, um casus belli de consequências imprevisíveis com os EUA. O rectângulo peninsular não valia esse risco, e quem duvidar das verdadeiras intenções do Dr. Cunhal (que a pequena história tem feito passar por um poço de moderação e sensatez nestas alturas) que leia o livro do José Milhazes intitulado Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril… A segunda reacção veio de dentro, do país profundo, e devemo-la a Mário Soares, Jaime Neves, Ramalho Eanes, Sá Carneiro, Emídio Guerreiro, Salgado Zenha, os homens que travaram o Partido Comunista e a radicalização revolucionária. Só com eles – e graças a eles – os propósitos iniciais da revolução foram cumpridos.

Abril Segundo Otelo

25 Abril, 2017

E já lá vão 43 anos a pensarmos que o Abril dos cravos fora feito em nome do povo. Todos os anos o país pára com celebrações, enaltecendo memórias de militares que invadiram as ruas em nome  da liberdade. Até que veio o dia, em que numa entrevista à Lusa em 2011, Otelo, o pai dessas operações, nos revela calmamente  que bastam 800 homens para derrubar um governo mas que um “novo Abril” só acontecerá quando lhes forem ao bolso. Está aqui para quem quiser ver. Em menos de um minuto caía por terra o mito de que os capitães de Abril planearam resgatar o povo da ditadura. Nem um pouco. Estavam na realidade a lutar pelos seus direitos. Alguém corrigiu isto? Nada. Silêncio absoluto.  Ler mais…

Marcelo, um símbolo de Abril

25 Abril, 2017

Um dos melhores símbolos do país que saiu do período que foi de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975 é Marcelo Rebelo de Sousa. Quando atacado ele é o filho do ministro do Estado Novo, o colonialista filho de colonialista, o beato… Quando aplaudido ele é “o Marcelo” ou mais propriamente o “Marcelo da TVI” e mais nada porque a direita não se diz de direita, aliás até se sente de esquerda. O consenso que rodeia Marcelo não passa de um trégua táctica que se pode transformar numa guerrilha feroz em escassas horas. Tivemos um pequeno vislumbre dessa passagem de ‘Marcelo presidente consensual e dos afectos’ a ‘Marcelo, o hiperactivo a cheirar a bafio do Estado Novo’ a propósito de umas declarações de Marcelo sobre a escravatura

Le Pen 40%?

25 Abril, 2017

O mais significativo nas presidenciais francesas, foi o resultado alcançado em conjunto pelos dois candidatos com programas e bases de apoio sociais-fascistas: Le Pen e Mélanchon. Juntos tiveram mais de 40% de votos. E no voto jovem (18-24 anos) mais de 50%.

Le Pen, na segunda volta, poderá sem dificuldade captar uns 4 ou 5% de votos do eleitorado de Fillon, uns 10% do eleitorado de Mélanchon e uns posinhos na abstenção atingindo marca certamente não longe dos 40%.

 

 

25 de Abril sempre

25 Abril, 2017

Criminalizar o enriquecimento ilícito é muito curioso. Parte do pressuposto interessante de que o enriquecimento ilícito é actualmente lícito e, portanto, que é necessário tornar crime o acto de enriquecer ilicitamente no futuro. Basicamente, sem artifícios de linguagem, é tornar o lícito enriquecimento ilícito em ilícito. É, também, bastante curioso que este seja um tema para as celebrações do 25 de Abril se nos lembrarmos que, a 26 de Abril de 1974, tudo o que fosse herdade ou quinta era para ser ocupada por constituir propriedade ilícita do “grande capital” e dos “fachos”.

25-de-abril-sempreNão deixa de ser bastante engraçado, para não dizer trágico, que seja uma pessoa do PSD a propor a conclusão, 43 anos depois, do programa revolucionário.

Por outro lado, o Senhor Presidente discursa contra o populismo. O circo é mesmo o maior espectáculo do mundo.