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Obviamente do contra

5 Abril, 2020

Este é o mundo em que nos lares se afixam códigos de combate ao assédio sexual mas se esquecem os planos de contingência para o vírus. Um mundo de frases feitas.

Isto é uma guerra – Não, não é.

Está sob controlo – Não, não estava.

Estamos todos no mesmo barco – Não, não estamos.

Os nossos idosos – Não, não são nossos nem de ninguém.

A Organização Mundial de Saúde declarou – Não, não declarou, calou.

Diário do manicómio

5 Abril, 2020

Quase, quase a adormecer, ouço um megafone debitando sílabas mecânicas sem os intervalos preenchidos pela Internacional Socialista que indicariam tratar-se de uma campanha eleitoral de um dos resquícios revolucionários que os baby boomers mantêm vivos para gozar com os mileniais crédulos em qualquer treta. Não era, pelo que saí à rua para descobrir quem seria o idiota do autor do desaforo. Tratava-se de um carro da polícia a “aconselhar” as pessoas para que não saíssem de casa. Olhei em redor e não vi qualquer pessoa na rua: cá estávamos nós, eu e um carro da polícia de onde um agente “aconselhava”, em total exclusividade para mim, que devia regressar rapidamente a casa. Emocionado pelo gesto pessoal, regressei a casa. Eles lá continuaram, a falar sozinhos.

Quando entrei em casa ouvi um barulho ensurdecedor. Vim à janela e vi um meteoro a atingir o carro da polícia. Por entre a destruição total do carro, um deles, preso na chapa amolgada como o papel da multa de estacionamento que recebi quando ainda éramos humanos, ainda vivo, gritava por ajuda. Abri a janela e gritei: “não podemos sair de casa”.

Jaime Nogueira Pinto: o que ficou por lembrar

3 Abril, 2020

JNP

Jaime Nogueira Pinto (JNP) constrói hoje no seu artigo publicado no Observador um enredo subtil que, embora não tendo má intenção sofista, ilude a verdade e subverte a realidade dos factos.

Diz JNP que a Alemanha, a Holanda, a Áustria e a Finlândia, a que chama depreciativamente “os financeiramente correctos” são países profundamente egoístas por serem avessos ou recusarem a emissão de coronabonds. Refere ainda que os governos destes países só se mostram preocupados com o “déficit” e apenas querem uma União Europeia “para os tempos fáceis”.

Desde logo JNP parece fazer a habitual confusão entre variáveis fluxo e stock. Do que veio reportado na imprensa, os países supostamente “malvados” têm objecções de princípio a níveis de dívida pública astronómicos como os de Portugal ou Itália. Não estariam demasiadamente preocupados com o valor dos déficits em situações de excepção como a da epidemia que nos faz companhia neste momento, não fosse dar-se o caso de os países pretensamente “vítimas” terem, recorrentemente e ao longo de décadas, despesas públicas acima dos valores que recolhem através de impostos. A reserva dos Estados hipoteticamente “facínoras” é, aliás, maior porque num passado não tão distante quanto isso acudiram a situações de insolvência dos países “injustiçados” na expectativa de que estes mudassem de vida após uma situação de aperto e se tornassem entidades de contas razoavelmente certas e gastos parcimoniosos.

Só para que nos entendamos: a Alemanha tem uma dívida pública de 62% do seu PIB, a Holanda de 53%, a Aústria de 74% e a Finlândia de 59%. Já Portugal, como se sabe, ultrapassa os 122%.

JNP esquece algumas coisas. Primeira: se os países “anti-coronabonds” estão em condições de ajudar os outros é porque criaram riqueza suficiente e pouparam em medida tal para que não haja dúvidas fundadas quanto à sua solvência para o nível de dívida que têm actualmente. Já os países “pro-coronabonds” acumularam um stock de dívida pública tão exagerado que já não há margem para distender o déficit durante o período económico mais conturbado sem que os credores tenham uma percepção de risco enorme e sério receio de nunca mais serem ressarcidos dos seus empréstimos.

Desde logo é crucial que as pessoas e as sociedades sejam livres nas suas opções, mas responsáveis pelas decisões que tomam. A seu tempo os países frugais (como também lhes chamam) optaram por reformar a sua sociedade e o âmbito de actuação do Estado. Nós, legitimamente e por vontade popular optamos por não reformar. Ou, melhor dito, optamos por dar ao Estado um peso cada vez maior nas nossas vidas e permitimos que se endividasse a tal ponto que, em momentos de aflição como a covid19 (ou outros), o próprio recurso a mais dívida se torna extremamente difícil. Ora, não é legítimo sugerir que a responsabilidade dos nossos actos e imprudências seja de terceiros. 

Outra coisa que JNP esqueceu é a de que é absolutamente racional e um dever básico que os países “maus” tenham noção do risco de incumprimento por parte de Portugal, Itália ou mesmo Espanha. O dinheiro alemão ou holandês não é dos respectivos Estados, mas sim de cidadãos concretos a quem lhes foi subtraída parte dos seus rendimentos. Os contribuintes desses países não são Portugueses, mas são gente respeitável também. Mal fora que os governos destes países desconsiderassem esta circunstância.

JNP esqueceu ainda um outro facto indesmentível: dívida agora significa impostos futuros. Quer JNP deixar às gerações mais novas e aos portugueses vindouros um peso de obrigações de que não foram responsáveis e condicionar de forma dramática a possibilidade destes desenharem o seu próprio futuro com um mínimo de liberdade? A solidariedade inter-geracional passa pelos mais jovens e os que ainda nem sequer nasceram pagarem os desvarios e esbanjamento de quem se lhes antecedeu na história? 

Mas, como JNP coloca a questão quase do ponto de vista deontológico e não tanto do utilitarista, vou-me abster de comentar os resultados que invariavelmente se verificam quando se fornece droga a quem tem comportamentos aditivos de estupefacientes ou o que é de esperar quando se cede a chantagistas.

Digo antes que a verdadeira caridade parte da vontade livre de quem a oferece. Caridade não é responder a pedinchar de mendigos. Gostaria também de salientar que não constitui obrigação moral a nenhum Estado acudir a situações de má gestão pública e falta de previdência de terceiros países.

A quem já beneficiou de ajuda externa e mais do que uma vez como Portugal, se não sabe viver com os seus próprios meios nem tem nenhum pudor de ainda assim fomentar o esbulho das pessoas e dos seus contribuintes que criam riqueza, seria de bom tom não esquecer de a ajuda que já teve. Se não agradece, pelo menos, deveria ter o recato de não se sentir credor de direitos que não tem.

É de elementar decência não exigir dos outros a manutenção do país numa situação de dependência de terceiros e parasitismo compulsivo.

O preço a pagar pela liberdade é elevado, mas define um povo.

o decreto repugnante

3 Abril, 2020

A 20 de Março o Governo socialista publicou o Decreto-Lei n.º 10-B/2020 que aumenta os salários dos funcionários públicos. Foi na mesma semana em que centenas de milhar ou mesmo milhões de trabalhadores portugueses ficaram na incerteza do seu futuro; se as empresas onde trabalhavam iriam novamente reabrir; se perderão já ou  daqui a um mês ou dois o seu emprego; se verão os seus salários reduzidos por lay-off, se e quando os clientes voltarão. Apenas uma certeza esses trabalhadores tiveram: alguém terá de pagar o aumento dos salários da FP e não serão os FP.

Tão ofensivo decreto ainda está a tempo de ser revogado. Mas tem de ser agora.

Sette Piani

3 Abril, 2020

No extraordinário conto Sette Piani (Sete Andares), Dino Buzzati descreve a história de um advogado – Giuseppe Corte – que, em virtude de uma doença ligeira, se hospeda num moderno hospital italiano. O hospital ocupa um edifício com sete andares e tem um curioso sistema de repartição dos pacientes pelo espaço: no último piso estão os doentes menos graves; os restantes pisos são ocupados por pacientes com maleitas de gravidade inversamente proporcional à distância ao solo; no rés-do-chão ficam os que já têm as malas aviadas para o outro mundo. O dr. Corte dá entrada no último piso, já que quase nem estava doente. No entanto, uma série de acontecimentos improváveis – todos sem qualquer relação com o agravamento da doença – fazem-no sucessivamente descer de piso, até ao infernal rés-do-chão.

O conto descreve com mestria o esvaziamento progressivo da esperança de regresso à vida normal com que o protagonista é confrontado, à medida que passa para os pisos inferiores, por razões incompreensíveis. Lembrei-me deste conto, que li há quase vinte anos no n.º 3 da Revista Ficções (revista que pode ser descarregada no site do Instituto Camões) ao ver o Decreto Presidencial n.º 17-A/2020, que renova o Estado de Emergência e agrava, sem qualquer razão aparente (nada se vislumbra no prefácio do decreto presidencial), as medidas que podem ser adoptadas pelo Governo ao abrigo de tal estado de excepção.

Tal como o protagonista do conto de Buzatti, vejo o regresso à normalidade como algo cada vez mais distante, pois é evidente que o sr. Presidente parece apreciar os poderes de excepção de que dispõe (nem me atrevo a imaginar o que estará a preparar para inevitável terceiro decreto desta série) e o Governo, embora mais moderado, também parece estar a tomar-lhe o gosto. A sensação de que recuperar o estado de normalidade constitucional pode vir a ser mais difícil do que a recuperação da economia é aterradora.

paulo baldaia: um esclarecimento

2 Abril, 2020
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Na terça-feira passada recebi o telefonema de um amigo que se queria justificar por ter faltado a uma reunião por videoconferência, que eu tinha agendado e onde ele devia ter comparecido. Disse-me – o que me comoveu bastante – que tinha em sua casa um filho asmático, com apenas cinco anos, com o vírus COVID-19. Mas não só: também o seu pai, com 78, a sua mãe e a irmã tinham igualmente contraído o vírus. Não tive resposta para lhe dar. Talvez por estar com vontade de desabafar, o meu amigo contou-me que o estado de saúde do seu pai piorara uns dias antes, tendo sido internado no Hospital de São João, no Porto, onde entrou com os rins e o fígado já em processo de falência. Os médicos que o receberam e acompanharam no internamento hospitalar ter-lhe-ão dito que era grave o estado em que o seu pai se encontrava e que, mais dois ou três dias em casa lhe teriam sido fatais. Foi tratado no hospital, tendo-lhe sido administrada hidroxicloroquina. Nem uma semana depois, mais precisamente seis dias, já se encontrava em casa, obviamente ainda abalado, mas estabilizado e em franca recuperação. Ou seja, com o seu estado clínico completamente revertido.

Achando que a recuperação do pai de um amigo, possivelmente devido a uma substância sobre a qual existem expectativas sérias de poder ajudar na cura deste vírus, podia ser, nos tempos sombrios que correm, uma história inspiradora, resolvi partilhá-la no Twitter. Limitado pelo reduzido número de caracteres que um tweet comporta, circunscrevi-me ao essencial: que uma pessoa conhecida dera entrada no S. João, já em fase adiantada da infecção provocada pelo COVID-19, com alguns órgãos a entrarem em falência, e que, ao fim de alguns dias, tinha regressado a casa e estava bem, tendo-lhe sido administrada, no tratamento hospitalar, a hidroxicloroquina. Algumas pessoas colocaram likes, outras retwittaram e comentaram o post, entre elas o Carlos Guimarães Pinto. Todas o fizeram urbanamente, mesmo as que suscitaram reservas sobre a eficácia do medicamento, o que, num momento em que ainda não existem certezas derradeiras, é uma posição tão sensata quanto a de dizer que já houve pessoas que se curaram com ele.

Numa coisa que me parecia pacata e sem qualquer motivo para provocar polémica, foi com espanto que constatei que o jornalista Paulo Baldaia, em resposta directa ao mencionado like do Carlos Guimarães Pinto colocado no meu post, entrou na conversa, com um comentário que integralmente reproduzo:

Seguiram-se algumas centenas de comentários e posts a explicar a Paulo Baldaia que, ainda que não haja certeza científica do potencial curativo da hidroxicloroquina em relação ao COVID-19, os seus efeitos são inequivocamente positivos em muitas pessoas, de tal modo que o Infarmed e a Ordem dos Médicos o recomendam no tratamento da doença, sobretudo quando já está em estado avançado, mas não só. Disso mesmo sou eu também testemunha directa, já que um outro amigo muito próximo – aliás, figura pública, com internamento noticiado na comunicação social – recebeu o mesmo tratamento e também já teve alta e se encontra bem, na sua casa. Todavia, mesmo depois de se lhe ter explicado o óbvio, Baldaia persistiu em escrever disparates, em vez de ter arrepiado caminho e saído discretamente de uma contenda que, de modo grosseiro, arrogante e, no mínimo, desinformado, provocou.

Ficamos, assim, a saber que, para Baldaia, dizer-se que a hidroxicloroquina tem potencial curativo do COVID-19 é ser-se adepto de Bolsonaro, e que a validação de resultados científicos se faz pela publicação de notícias nos jornais. É esta a forma mentis de um opinion maker que já exerceu e exerce funções de responsabilidade em vários órgãos de comunicação social. É bom que todos tenhamos consciência disso, de quem nos “informa” e de como somos “informados”, razão   única pela qual me dei ao trabalho de escrever este post.

Saber o que aconteceu a esta médica é tb acautelar o nosso futuro

2 Abril, 2020

O QUE SE SABE:  Ai Fen, directora do departamento de emergência do Hospital Central de Wuhan, berço do coronavírus na China, está desaparecida desde o dia em que afirmou ter sido proibida pelos seus superiores, em Dezembro de 2019, de mencionar um vírus desconhecido que começava a surgir na região.

De acordo com investigação do “60 minutes”, da CNN Austrália a médica disse à revista chinesa Renwu ter recebido pressões para não falar nem mesmo com o seu marido sobre a doença. Desde então, não há notícias sobre o seu paradeiro.

A investigação do “60 minutes” também aponta que o surto da Covid-19 poderia ter sido evitado em 95% se o governo chinês não tentasse omitir os fatos relacionados  com a doença nas quatro primeiras semanas do surto em Wuhan.

O QUE FALTA SABER: Onde está Ai Fen? Como podemos acreditar naquilo que as autoridades chineses estão a dizer neste momento sobre o presente controlo do vírus na China?

ONDE ESTÃO: os protestos das ordens e sindicatos dos médicos por esse mundo fora pela forma como a China está a perseguir os médicos que procuraram alertar para o que estava a acontecer na China?

A primeira página da revista China’s People com Ai Fen (à esquerda, a segunda de cima), , como apareceu inicialmente . Depois na versão censurada.