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O Porto bem vivo!

21 Julho, 2018

Ligo o rádio e ouço sempre a mesma coisa. Algumas canções boas, destruídas pelo limitador dinâmico da rádio, outras destruídas à partida pela hiper-compressão durante a produção do master, mas, essencialmente, a rádio transmite um monte de trampa que serve apenas o propósito de torturar cérebros que se querem acordados durante a condução. Posso sempre mudar para a TSF, se quiser ouvir trampa de outro género (os especialistas diriam tratar-se de spoken word, mas, apesar de montes de spoken, raramente ouço alguma word com interesse). Mantenho laboriosas playlists nos dispositivos móveis, incluindo alguns álbuns essenciais de ponta a ponta, e é assim que normalmente vivo, sem interferência da rádio, tanto calhando em sorte um “These Arms of Mine” de Otis Redding como um “Signed, Sealed, Delivered (I’m Yours)” de Stevie Wonder; tanto um “Forgiving You Was Easy” de Willie Nelson como um “Substitute” dos The Who; tanto um “Truck Stop Girl” dos Little Feat como um “Glad” dos Traffic; tanto um “This Is Me Leaving You” de Mary Chapin Carpenter (com o extremo bom gosto da guitarra do saudoso John Jennings) como um “Fill Me Up” de Shawn Colvin; tanto “I Wanna Be Your Lover” de Prince como um “I Love L.A.” de Randy Newman; tanto um “Hang Down Your Head” de Tom Waits como um “Funerais” de António Pinho Vargas; tanto um “Os Bravos” de José Afonso como um “A Candle’s Fire” dos Beirut. Não fosse a música digital e o mix-‘n’-match de mixtapes digitais, estaria completamente estúpido pela rádio. Dito isto, é raro encontrar, desde o início do século, um álbum que me apeteça ouvir de ponta-a-ponta. Este ano ainda não tinha encontrado nenhum, até que ouvi algo que me chamou a atenção, saindo do quarto do meu filho de onze anos, por uma voz que me pareceu reconhecer: “somos todos condutores de carroceis / não lemos mapas, andamos aos papeis / então deitamos fora a sorte deste norte fazemo-nos reis / já que a lua se pode comportar assim”. Como se isto não bastasse, toca a descrever-me (sim, é sobre mim, como todas as boas canções), logo de seguida, assim: “sou dos do bem mas não sei bem o que é do mal / sou um céptico optimista, hipócrita ocasional / e se observo mudo o resultado experimental / então que a lua sorri só porque sim”.

Apple Music a ajudar, encontro a canção “Efeito do Observador” d’Os Azeitonas. É isto. Ouço o resto do álbum, por afinidade prévia com a banda, não tendo dado pelo lançamento deste álbum, “Banda Sonora”. Ouço, esperando encontrar uma ou outra canção que me leve a passar à frente: nada. Cinquenta e sete minutos de pura classe. Mete outra vez. Mais uma. Encontrei o álbum de 2018 que me vai afastar mais uns tempos da rádio. Curioso que, no ano passado, um dos albums que causou o mesmo efeito tenha sido o “Giesta” do ex-Azeitonas Miguel Araújo. Apesar de tanta treta sobre a defesa de quotas para música portuguesa na rádio, meto as mão no fogo que nada deste “Banda Sonora” passará na rádio: é bom demais para isso. Atrevo-me até a dizer que todo o disco emana um odor a Porto que a corte não compreende: que bom, o Porto está vivo e bem vivo. Parabéns, rapaziada (“rapaziada” inclui rapariga, é da gramática, ó chanfradas lisboetas).

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O governo português quer que os alunos troquem o Técnico em Lisboa por Sociologia no interior. Quanto aos cursos de jornalismo há muito que foram deslocalizados para a Coreia do Norte

21 Julho, 2018

Mais um esfaqueamento. Desta vez na Alemanha. Mais uma vez tivemso as notícias com a edição do costume:

“A polícia alemã confirma um total de oito pessoas feridas, uma com gravidade, no ataque perpetrado por um homem, com arma branca, no interior de um autocarro na cidade alemã de Lübeck, norte do país. A polícia alemã confirmou, entretanto, que não há sinais de antecedentes terroristas no ataque.TOMAMOS NOTA COM JÚBILO :” não há sinais de antecedentes terroristas no ataque É UMA VERDADEIRA FELICIDADE SABER QUE NÃO TEVE MOTIVAÇÃO TERORISTA O FACTO DE, NUM AUTOCARRO, UMA CRIATURA LARGAR UMA MOCHILA DONDE SAI FUMO, EM SEGUIDA ESFAQUEAR UM HOMEM NO PEITO E VÁRIAS OUTRAS PESSOAS EM QUE SE INCLUI O MOTORISTA. JÁ AGORA O QUE SE ENTENDE POR “antecedentes terroristas”?

“O agressor, que foi detido pouco depois do ataque por uma patrulha da polícia. Fontes policiais da cidade alemã afirmaram, através do Twitter que a “identidade do atacante é clara: É um alemão de 34 anos e mora em Lübeck”. COM TANTA CLAREZA PODIA TER-SE REFERIDO QUE O ATACANTE ERA DE ORIGEM IRANIANA. ERA SÓ PARA SER TUDO MAIS CLARO.

“A mensagem acrescenta que não há sinais de uma “radicalização política” no atacante ou de um contexto terrorista. TERÁ SIDO UM CRIME PASSIONAL? ESTOU EM CRER QUE TUDO ISTO ACONTECEU POR AMOR AOS AUTOCARROS: EXISTE UM GRUPO DE PESSOAS QUE NÃO CONSEGUE VER OS AUTOCARROS A CIRCULAR HORAS SEM FIM. VAI DAÍ ATACAM OS PASSAGEIROS!

O Ministério Público pediu “compreensão e paciência” na impossibilidade de dar mais detalhes sobre o agressor até que a sua identidade pudesse ser verificada com total certeza.” ESTA PARTE DA NOTÍCIA QUER DIZER QUE NO MOMENTO EM QUE AS AUTORIDADES FIZERAM ESTA DECLARAÇÃO JÁ SE DIZIA O HABITUAL NESTES ATAQUES QUE NÃO SÃO ATAQUES: ESTÁ A SER SONEGADA INFORMAÇÃO SOBRE O ATAQUE E O ATACANTE

E assim se criou mais uma taxa

19 Julho, 2018

Momento I: a CML de Costa/Medina cria uma taxa que só almas pérfidas seriam capazes de achar que algum dia recairia sobre os portugueses

2014: Residentes em Portugal isentos da taxa de chegada ao aeroporto de LisboaPara o vice-presidente da Câmara,  de maioria socialista, [em 2014 era Fernando Medina[ o município dá assim «resposta ao fundamental das objeções levantadas». «Quisemos limitar ao mínimo possível as margens de erro», tentando criar «uma taxa que não abrangesse pessoas que não estão na condição de turista», justificou.

Momento II: a taxa vai agora ser alargada a todos. AS culpa vai ser obviamente chutada para Bruxelas

2018: Bruxelas deu esta quinta-feira um prazo de dois meses para que a taxa do aeroporto de Lisboa seja aplicável também a residentes em Portugal, considerando que a cobrança apenas a não residentes constitui uma discriminação em razão da nacionalidade, o que viola as leis da UE.

Não vejo como podem os residentes em Portugal pagar ter de pagar uma Taxa Municipal Turística em Lisboa. E muito menos como podem os lisboetas pagar uma Taxa Municipal Turísticaquando chegam de avião à sua cidade. Eu não sou turista em Lisboa. Vivo cá. Ou a taxa muda de nome e é devidamente justificada ou é extinta

 

 

 

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O ilusionista e sua partenaire vão trocar de papéis?

19 Julho, 2018

Naquele estilo épico que caracteriza toda e qualquer notícia que implique mais uma obrigação para as empresas o DN anuncia que as empresas vão ter de explicar porque contratam mulheres e homens para funções diferentes e publicar estatísticas no primeiro semestre de cada ano sobre as diferenças remuneratórias entre mulheres e homens. Pessoalmente acho que as empresas deviam recusar fazer estas estatísticas pela prosaica razão que elas representam um custo/encargo desnecessário tratando-se de um mero exercício de poder. Estas estatísticas já existem: todos os meses as empresas enviam os dados para pagamento dos seus trabalhadores à Segurança Social. A secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade pode se quiser pedi-los e tirar as conclusões que lhe aprouver.

Sonhos de criança para todos

18 Julho, 2018

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De acordo com um dos clássicos do anedotário internacional, a diferença entre um diplomata e uma senhora é que se o primeiro disser “não”, deixa de ser um diplomata, e se a segunda disser “sim”, deixa de ser uma senhora. Foi para libertar os diplomatas e as senhoras destes embaraços que a civilização desenvolveu, durante séculos, todo um conjunto de palavras, olhares, gestos e atitudes que tornam desnecessário o uso desses secos símbolos da objectividade. No entanto, aparentemente, esse tempo chegou ao fim. Segundo os jornais, Carmen Calvo, vice-presidente do Governo espanhol e ministra da Igualdade, pretende alterar a legislação sobre delitos sexuais, criminalizando todos os actos que não tenham sido expressamente precedidos por um inequívoco “sim” do lado feminino. No fundo, estamos a falar da obrigatoriedade legal de ajustes na linha do tempo, os quais, para quem acompanhava a programação do canal Viver/Vivir, se podem traduzir na antecipação do “sí, cariño” que apenas se ouvia no decorrer do enredo. É, em suma, a vitória da prolepse no competitivo mercado das anacronias.

Mais do que pelas excelentes perspectivas de negócio para os notários, o novo quadro legislativo dos nossos vizinhos surpreendeu por dispensar os homens de igual manifestação de vontade, pois caso a investida amorosa seja da iniciativa da mulher, o “quem cala, consente” continua a vigorar. Só posteriormente, através de uma outra intervenção pública de Carmen Calvo, se percebeu o motivo: de acordo com a distinta cabreña (nasceu no município de Cabra, província de Córdova), as mulheres passaram toda a vida a ouvir os homens e por isso conhecem-nos muito bem; já os homens, por não escutarem as mulheres, ignoram como é que elas funcionam. Estamos, assim, na presença de um confronto entre a adivinhação e a audição, no qual as bruxas conseguem um ascendente claro sobre os surdos. E estamos, também, a assistir ao vivo à promoção do “ele não me ouve…” a assunto de Estado. Essa passagem, directamente do Consultório Sentimental da revista Maria para a mesa do Conselho de Ministros, contribuirá certamente para o reforço da igualdade, se não entre géneros, pelo menos entre classes.

Espero que não me compreendam mal: sou totalmente a favor da existência do Ministério da Igualdade. Julgo é que a abordagem deve ser mais ampla. A minha mulher, por exemplo, quando era criança, divertia-se a limpar, embalar e alimentar Nenucos; agora, que ela já tem a alegria de limpar, embalar e alimentar bebés a sério, era importante que o governo tratasse de mim, providenciando-me carros desportivos reais, barcos de recreio genuínos e caças F-16 verdadeiros. Estou até disposto a fazer uma promessa à Doutora Carmen Calvo: quando os meus sonhos de criança forem realizados à força de lei, está autorizada a vir cá a casa lavar-me as orelhas.

 

 

A propósito da aposta nos serviços públicos, na descarbonização e na ferrovia

18 Julho, 2018

CP vai suprimir primeiro Alfa Pendular da manhã entre Lisboa e Porto

O monstro tem de crescer ainda mais

18 Julho, 2018
Ps. Note-se que isto já foi aprovado: Cantinas escolares vão passar a estar abertas durante todo o ano