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A maçonaria pode muito

13 Junho, 2019

A fotografia assim a apontar para o céu escamoteia o estado de degradação envolvente: esta dita biblioteca está integrada nuns edifícios de habitação social cujo nível de degradação é bem visível ao nível do chão.

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Não sei que tipo de biblioteca será mais adequado para aquele local – infantil, de bairro – mas há duas coisas  a ter em conta: a proliferação em Lisboa de espaços municipais  destinados a fazer da maçonaria um sinónimo de liberdade levou a disparates como o desta Biblioteca-Museu República e Resistência (BMRR) que em nada a não ser na despesa  acrescenta ao Museu do Aljube – Resistência e Liberdade.

Entretanto um dos espólios mais importantes CML – o de jornais e revistas – saiu  do Largo da Misericórdia e foi despejado numas instalações manifestamente desadequadas ali para a Estrada da Luz.  Foi despejado é um modo de dizer pq boa parte do espólio está depositado noutro local, A sala de leitura parece um cubículo. O que levou a a CML a instalar ali a Hemeteca é um caso digno de estudo.

(Aliás  a escolha da CML dos edifícios para instalar bibliotecas e arquivos a sério parece ser norteada pelo critério do pior possível: o arquivo municipal instalado no Bairro  da Liberdade é uma espécie de monumento  à má construção e insalubridade)

 

 

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Antes batiam à porta

12 Junho, 2019

Tinha decidido que precisava de uns calções e de sandálias, fui ao Instagram ver o que se usa. Baralhado com as combinações possíveis – não tenho tatuagens, mas posso ter fungos; não tenho barba pelos mamilos, mas posso adquirir piolhos; não depilo as pernas, mas não tenciono andar de bicicleta na estrada nacional – decidi pedir ajuda a um amigo influencer. Liguei para casa dele e atendeu-me a mãe, que, tentando explicar que influencer não é o termo certo para um homem solteiro de quarenta e oito anos que ainda vive na casa dos pais idosos sem contribuir com um tostão, me deu o número de WhatsApp do jovem.

Após falar com ele, dei comigo inscrito nas Testemunhas de Jeová, vou receber durante oitenta e nove meses os restantes volumes da Enciclopédia Britânica (edição de 1973) e, apesar de ter um aspirador novo em folha que canta canções da Broadway com som de besouro enquanto pisca várias luzes coloridas, já não tenho dinheiro para os calções e sandálias.

Realmente é bem mais fácil tratar dos bordados do que das fronteiras

12 Junho, 2019

A maluqueira da apropriação cultural é uma das maiores barbaridades que por aí circulam e como todas as maluqueiras presta-se a distrair os povos da realidade. O governo mexicano liderado por Andrés Manuel López Obrador recuou em toda a linha perante a administração norte-americana no caso do controlo fronteiriço. Recordo que o México não controlava a sua fronteira sul e estava transformado numa espécie de corredor de imigrantes em direcção aos EUA. Jornalistas e activistas  acompanhavam a marcha dessas caravanas de milhares de pessoas em direcção ao país que os mesmos jornalistas e activistas garantem ser a fonte do mal do mundo para mais agora governado pela encarnação desse mesmo mal.

Como é  óbvio Trump tal como Obama, Bush e Clinton têm de garantir a segurança das suas fronteiras e Trump tal como os anteriores tratou de pressionar o México. E o México cedeu.  Ora quando se esperava que essa nova esperança da esquerda que é Andrés Manuel López Obrador desatasse a mandar vir com o capitalismo, mais o Trump, mais não sei quê eis que lhe deu para pedir explicações à modista. Mais propriamente resolveu acusar Carolina Herrera de apropriação cultural. Isto porque esta marca de roupa lançou uns vestidos com uns estampados e bordados que o governo do senhor Obrador entende que fazem parte do patromónio dos povos indígenas. Realmente é bem mais fácil tratar dos bordados do que das fronteiras.

Texto extremamente claro

11 Junho, 2019

Foi o dia de Camões. Não só dia de Camões: como em tudo que é nacional e bom, a lógica de sinédoque tomou conta e, para além do dia do poeta, também foi dia de Portugal, das comunidades(?) e do raio que vos parta. Dizem-me que o discurso de João Miguel Tavares foi muito bom. Eu acredito, nem que mais não seja para matar o assunto sem ter que o ir ouvir. Não é pessoal: não é o João Miguel Tavares que eu não quero ouvir, é mesmo a ideia de ouvir um discurso que me faz apoiar imediatamente a eutanásia, em particular a minha. Felizmente, foi Mateus quem esteve na montanha e não eu. Tivesse sido eu e a única recordação que teria para o evangelho seria a de que senti a falta de um corta-unhas para passar o tempo. Que querem? Só há blasfémias em retrospectiva, não é?

Parece que são precisos líderes. Talvez: vocês lá saberão do que precisam, mas eu não preciso de líder, tal como não preciso de verrugas e até já dispenso quem me aconchegue a roupa da cama à noite. Podeis arranjar líderes à vontade, mas eu vou para a praia. Quer dizer, vou para uma praia metafórica, daquelas que tanto pode ser uma praia com areia e caranguejos como pode ser qualquer outro sítio onde não estejam pessoas que precisam de líderes. Já me custa besuntar as crianças com sabão para protecção solar e odor a anos oitenta, mal de mim se andasse para aí à procura de mais gente para besuntar. Porque os líderes são isso, não é? Gente que besuntamos, para que não se queimem com ultravioletas, ou com dióxido de carbono (o inimigo é volátil, quero que este texto seja genérico). Mas, mais que eu não precisar de líderes, a questão que me assola é do porquê de um líder precisar que eu precise de um líder.

É como a questão do liberalismo. Sou eu que preciso do liberalismo ou é o liberalismo que precisa de mim? É que se o liberalismo precisa de mim, parece um bocado socialista esse tal de liberalismo. E se o liberalismo não precisa de mim, porque haveria eu de precisar do liberalismo? Eu e o liberalismo somos amigos, admito. Contudo, como com todos os amigos, nem sempre estou com disposição de ver as trinta mil fotografias das férias no México. De vez em quando, sai-me um “já vi isso na internet”. E, se o amigo gostou tanto das férias no México, porque me maça com fotografias das férias que agora deixei de querer fazer para que não pense que só lá fui para não ficar atrás? Já há muito que percebi que manter amizades é sobretudo dar-lhes espaço sem a minha presença. É isso que faço com o liberalismo, que é meu amigo, mas que não me apetece ver durante uns tempos.

Se me perguntarem sobre o que é este texto, direi que é sobre amigos. Em particular, é sobre amigos que discursam para amigos. Ide, mas é, fazer novos amigos. Vou então para a praia.

a reforma do estado

11 Junho, 2019
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Do nosso amigo e leitor Luiz de Cabral Moncada, recebemos este texto que aqui se publica:

    «Muito se fala na reforma do Estado. Toda a gente concorda que o Estado actual é excessivo, que incrementa por si próprio despesas cada vez mais irracionais e incontroláveis, que alimenta uma burocracia improdutiva que, por sua vez, dele vive e que está povoada pelo nepotismo e pela corrupção. O nosso país é um palco privilegiado para constatarmos os desmandos do Estado. Tudo isto é verdade e está ao alcance de reformas pontuais certamente que bem intencionadas mas que passam muito ao lado da questão de fundo.

    A questão de fundo é simplesmente esta: a crise do Estado  moderno que saiu da Revolução francesa e do constitucionalismo monárquico é consequência do próprio funcionamento da democracia tal como a conhecemos e vivemos. É um prolongamento dela. Logo desde o princípio que nela estava inscrita a reforma social e, assim sendo, o Estado moderno dos dois últimos séculos prestou grandes serviços: possibilitou o exercício da democracia representativa num quadro nacional estável e pacificado, elevou muito o nível cultural das populações, laicizou o espírito, generalizou o ensino, a saúde e a assistência aos mais carenciados, etc… Em suma; a democracia não ficou pela esfera do político em sentido estrito ou seja, não ficou reduzida a um método formal de contagem de votos e chegou ao concreto nível económico, social e cultural.  Ainda bem porque a democracia representativa foi a primeira a lucrar com isso. Na verdade, quanto mais livres e instruídos os cidadãos forem mais valiosa é a democracia representativa e a minha própria liberdade. Isto é inegável. É um imperativo ético.

    Só que a chegada da democracia ao nível económico, social e cultural não tem fim: é um caminho sem regresso nem abrandamento. O avanço na democratização da sociedade a todos os níveis gera obviamente votos fáceis e, para os conquistar, os partidos estão dispostos a tudo. Os partidos do establishment avançam sem parar no intervencionismo social porque não cometem suicídio. Os programas de realizações de que se alimentam favorecem o crescimento de uma burocracia governamental não eleita e desconhecida dos cidadãos que concentra quase todo o poder pelo que o parlamento (quase) deixa de ser um órgão legislador. E os tecnocratas arregimentados não se limitam a administrar: legislam. O resultado está à vista. A democracia económica, social e cultural quebra o nexo de representatividade de que se alimenta a democracia política. Favorece o despesismo e o nepotismo. Esmaga a classe média maioritária com impostos e desincentiva o crescimento. Em vez de Estado de bem-estar temos a breve trecho Estado de mal-estar. Os cidadãos, por seu lado, estão atordoados com tanto facilitismo. Estato-dependentes e infantilizados perderam o espírito crítico e individualista que gerou a modernidade. A linguagem política, por sua vez, foi transformada em estúpido economês e sociologuês. Se a linguagem exprime o ser, o do homem actual, parafraseando Ary dos Santos, é cada vez mais anónimo, responsável e limitado.  Alexis, visconde de Tocqueville é que tinha razão.

    O ponto de equilíbrio entre a democracia representativa e a económica e social é muito difícil. O Estado Social tem grandes vantagens sociais mas tem enormes custos democráticos. Em toda a parte se percebeu isto menos em Portugal, como é habitual.

    Reformar o Estado moderno neste contexto a que chegou? Impossível. Já Eça de Queiroz há cento e quarenta anos o dizia. A próxima geração viverá naquele dilema. O que vai acontecer é a substituição do paradigma do Estado moderno que se agigantou durante mais de duzentos anos por um novo paradigma o do Estado pós-moderno. Este não será a destruição do primeiro. As coisas não são assim. Qual o caminho? Ficará para uma próxima ocasião. Mas nem tudo será como dantes.»

PAN all over

11 Junho, 2019

PAN-AllOver

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Já chegou o aerograma!

10 Junho, 2019

Escrevi para o Observador sobre aerogramas: Postos em fila davam a volta à Terra. Chamaram-lhes “bate-estradas” e “corta-capim”. Escreveram-se centenas de milhões. Os aerogramas foram a face mais conhecida do Serviço Postal Militar.

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