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Uma crónica usando o template do Fernando Alves

17 Maio, 2017

Um homem aparentando os setentas ou, quem sabe, os oitentas, carregando no ombro um periquito azul, sentara-se no banco de jardim onde Richelieu, em tempos, soltara um sonoro flato, e aí permaneceu por tempo suficiente para despertar a atenção do jovem Marchand, então inexperiente na que se tornaria numa longa carreira com abundante sucesso como jogral. Que teria este homem, tão misterioso, envergando encardido paletó servindo de pousio à exótica ave para que o distraído e ocioso bardo reparasse nele? Seria a baba que abundava pelos cantos da boca, como represas de digestão de uma vida de sabedoria? Seria a rebelde indiferença com que misturava meia azul num tornozelo com a meia branca do outro? Ou seria, porventura, o vigor com que esgalhava hirto pessegueiro em tão avançada idade, antes de comprimidos azuis, que tardariam a aparecer no mercado para salvar tantos anciões da precoce obsolescência na arte do amor, sem que denunciasse pudor e decoro perante púdicos transeuntes? Nunca saberemos. Mathis veio a escrever, uns anos mais tarde, que “é na agitação quotidiana que a tez se enruga de candura”. Na sua crónica de ontem, no Diário de Lomé, Hervé Gnassingbé escreve que Il y a des choses qui échappent et il y a des choses qui sont, como que recordando o homem que, em tempos, se sentou na espuma dos dias em banco partilhado por Richelieu a demolir preconceitos do seu e do nosso tempo.

Teresofobia

16 Maio, 2017

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Após algumas semanas de especulação jornalística acabou por se confirmar a recusa do Governo em nomear Teresa Ter-Minassian para o Conselho de Finanças Públicas. Quando ouvi António Costa, na Assembleia da República, a explicar aos deputados que a reputadíssima economista italiana não tinha o perfil necessário para a função, mergulhei imediatamente na internet para analisar o caso. Não sob o ponto de vista curricular, que não levanta dúvidas a ninguém, mas para tentar perceber, através de imagens, que monstruosa alteração física teria sofrido o elegante perfil que nos safou da bancarrota em 1983. Infelizmente, não fiquei esclarecido. É verdade que passaram 34 anos e que a frase de Yourcenar – o tempo, esse grande escultor –, não foi dita a pensar no corpo dos mortais; mas também não me parece que a actual silhueta da chefe de missão do FMI durante o segundo resgate do país prejudicasse assim tanto a estética das nossas instituições.

Só agora, quando soube que o nome da social-democrata Teresa Morais foi igualmente vetado pelo PS para um cargo público (e pelo mesmo motivo de “perfil desadequado”, segundo as palavras de Carlos César), é que entendi o desacordo. Claro que o curriculum da deputada do PSD não é nada de especial (licenciada, mestre e doutoranda na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi apenas professora universitária, advogada, assessora jurídica da presidência do conselho de ministros, investigadora, secretária de estado, adjunta do provedor de justiça e ministra, tal como a generalidade dos cidadãos portugueses), mas com um bocadinho da boa vontade de outros tempos seria suficiente. Afinal de contas, nem todos têm amigos que financiem o aprofundamento dos estudos em Paris, ou a inteligência necessária para, tal como Carlos César, chegar longe apenas com os graus académicos concedidos pela Universidade da Vida.

O problema – inultrapassável, percebo agora –, é o nome: o Partido Socialista terá um assunto mal resolvido com alguma Teresa e todas as outras estão a pagar pela embirração! E no caso da economista italiana a situação é agravada pelo apelido, que parece estar propositadamente a provocar o Largo do Rato, como se fosse um falso gago irritante e zombeteiro.

Em 1992, talvez sob a influência de um desgosto de amor, Quim Barreiros lançou um dos álbuns de maior sucesso da sua carreira, O Sorveteiro. No tema mais conhecido desse trabalho discográfico, o influente artista popular utilizou os seus dotes linguísticos para exorcizar os fantasmas que lhe atormentavam o coração, colocando todo um povo a cantar “Chupa, Teresa!” a plenos pulmões. Vinte e cinco anos depois, o PS encontrou uma outra maneira de fazer a mesma coisa, embora de um modo mais prejudicial para o país e ligeiramente mais brejeiro.

 

Se “nós” ganhamos o Eurofestival, o Sócrates também ganhou, que ele está no meio de nós

15 Maio, 2017

A histeria nacional em torno da vitória de um cantor no festival da canção da Eurovisão é bastante representativa da psique nacional. O cantor, de seu nome Salvador Sobral, venceu um concurso. Através da mesma lógica, não é difícil argumentar que a sua irmã, que escreveu a canção, também o venceu. O que é difícil é perceber o que é que eu venci e o que é o que o leitor venceu. Ao nacionalizar-se a vitória de um indivíduo, todos perdem, incluíndo os que agora ganharam.

O primeiro-ministro já puxou para si a vitória, como puxa tudo, tipo buraco negro que suga o que quer que se aproxime. Isto deveria ser pista suficiente para percebermos que não ganhamos absolutamente nada, que quem venceu a competição foi um indivíduo (ou dois, ou três…). Porém, é suposto estarmos ainda na fase de vencedores, mesmo não sabendo cantar nem escrever uma canção (ou, sequer, uma lista de compras).

Salvador, coitado, é aclamado como herói nacional, o passo essencial para a metamorfose em Anti-Cristo que, invariavelmente, acontece a todos os heróis nacionais. Não merecia isto: até parece bom rapaz, afinado, com baixa probabilidade de vir a viver em Paris numa casa “de um amigo” mal terminasse o necessário dinamitar do país. Outros coitados que chegaram, no passado, ao triste epíteto de herói nacional, como a Amália e o Eusébio, acabaram caracterizados como “bêbedas”, “quanto muito bissexual”, “analfabeto” e “afilhado do Salazar”. Prepara-te, Salvador.

Agora, lá até ao dia 20 deste mês, ainda estamos na fase “há portugueses estúpidos que nem merecem o Salvador”. Daí para a frente, é um só um tirinho até que os mesmos que agora endeusam um homem, o passem a tratar como o seu palhaço pessoal, incapaz de cumprir a função a que o destinaram, a de manter o heroísmo nacional vivo.

Não somos nós, os portugueses, que não merecem o Salvador. O rapaz é que, coitado, não merecia mesmo nada ter que levar com os portugueses.

Quero Lá Saber! Ganhamos Porra!

15 Maio, 2017

Sou do tempo em que o Festival da Eurovisão era imperdível. Uma noite de nervos, com a família em peso à frente da TV a torcer por Portugal. A ouvir depois os apresentadores a dizer: “Portugal two points”, “Portugal five points”,  para desalento de todos nós que não entendíamos como canções tão boas e interpretadas por vozes maravilhosas, não passavam do chão da tabela. Quando descolavam, o coração disparava e pensávamos” é desta!!” mas… depois, como que congeladas, as pontuações já não subiam mais e ficávamos a 7 lugares da vitória. Foi assim, com José Cid, Sara Tavares, Anabela, Dulce Pontes e tantos outros. Anos a fio… Lúcia Moniz foi quem chegou mais perto com um sexto lugar. Até ao dia 12 de Maio de… 2017.  Ler mais…

O Que Eles Querem é Aparecer

14 Maio, 2017

E lá estavam eles, Ferro, Costa e Marcelo, depois de fecharem a tasca à nação  mais cedo, a receberem o Papa Francisco com honras de Estado numa visita que não era de Estado. O Costa até alertou o cronista que só poderia ficar a tomar conta dos seus filhos ( que amoroso!) pela manhã porque depois seguia para Fátima. Não podia falhar o encontro (ele que nunca vai à missa).   Um gesto aliás muito bonito de propaganda mas que mais uma vez soou a marketing puro (que rica novidade!). Então e os outros cidadãos à rasca sem terem onde pôr os filhos? Só servem para pagar impostos? Quem pensa nesses? (ninguém, claro!). Mas pronto,  e lá foi ele…  até porque não sendo um “Papa selfie” como nosso querido Presidente, estar ao lado deste símbolo da fé cristã é bonito  e quem sabe arrasta mais uns votos extra (duvido muito!).

Marcelo que deveria ter sido o único a comparecer porque a ele lhe cabe esse papel,  com o entusiasmo de um verdadeiro crente e homem de fé, não conseguiu moderar o abanar do braço de sua Santidade que quase esgaça sob o ar algo incómodo de Francisco que muito provavelmente se perguntava em silêncio, “já paravas, não?”, de tanta emoção sentida. Sentimentos genuínos de um homem verdadeiramente crente e católico praticante.  Estava, esse sim, no lugar certo.

Os outros dois,  ateus, agnósticos, laicos, hereges e maçons assumidos, a governarem em coligação com comunistas (alguém se lembra dos ataques à Igreja no PREC?), que defendem por um lado um Estado laico mas expropriam friamente a privados para financiar com dinheiros públicos  (algo inédito e nunca visto em relação a outras religiões)  a construção de uma mesquita em Lisboa, e portanto ligados a tudo quanto é luta contra esta prática religiosa, mostraram sem o querer e numa dimensão astronómica,  o quanto o ser humano pode ser hipócrita para manipular e construir uma imagem à custa, neste caso,  da religião. Sabendo eles da importância do Papa na vida dos católicos, em lugar sagrado como Fátima, estenderam a máquina eleitoral transformando um evento espiritual num circo mediático só para aparecer. Um nojo.

Nasci numa família profundamente cristã que todos os domingos se vestia a preceito para ir à missa sem falhar uma. Estudei em escolas católicas no Canadá e cá num colégio de padres.  Fui várias vezes a Fátima e em todas, sem saber porquê, a emoção tomou sempre conta de mim. Contudo à medida que fui crescendo não consegui segurar esta minha natureza crítica de quem não se conforma com o vê. Apesar de ser uma mulher de fé e profundamente espiritual, passei a questionar sem obter respostas que me levassem a consolidar a minha crença. Se hoje não sou praticante é por culpa dos homens da Igreja que teimam em encher o mundo mais de palavras que de acções. E tal como na política, não aceito a inércia de quem tem todo o poder mas não o usa como deveria em prol dos outros. Contudo, continuo fiel aos ensinamentos católicos que aplico no meu dia a dia escrupulosamente abominando toda a hipocrisia existente nos que se dizem praticantes e são simplesmente umas bestas.

Por isso, se não suporto num cristão este comportamento dúbio, revolto-me ainda mais quando vejo os políticos de velinha na mão e nas missas do Santo Padre! Porque Fátima, meus senhores,  não é o lugar dos que passam o tempo a atacar os católicos, que gozam com suas crenças, que não respeitam a sua devoção. Fátima é um lugar de fé, de culto onde não há espaço para quem não sente e vive em Deus. Estar nos dois lados é estar em nenhum.

E sinceramente, se tivessem só um poucochinho de vergonha faziam de tudo para não aparecer.

Serviço público da ética republicana laica

13 Maio, 2017

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A Corte e os Bobos

12 Maio, 2017

Nos últimos dias, não houve cabrão todo laico e dos que considera um perigo a existência de crucifixos na escola — como que reconhecendo que esta é frequentada por vampiros — que se livrasse da hipocrisia de enaltecer o Papa, a relevância de Fátima para os portugueses e o papel da fé na vida quotidiana de pessoas que precisam de alento e que, infelizmente, ainda não é totalmente providenciado pela figura do Senhor Primeiro-Ministro.

Graças a Deus, a Corte continua cheia de bobos.