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Aquela Comissão de Inquérito à CGD que o Trump quer impedir

19 Fevereiro, 2017

não vos parece que pode dar impeachment? A mim parece-me que sim. Para mais aquele aspecto de a todo o custo o Trump não querer que se saiba quem são os devedores da CGD é mais que suspeito. Por outro lado as manobras para travar as audições aos anteriores administradores da CGD – gesto que não há história que tenha acontecido na Europa ou com qualquer outra administração nore-americana – é de facto uma linha vermelha que o Trump passou.

Espero sinceramente que os artistas, escritores, jornalistas, activistas… denunciem aquilo que a administração Trump (chamar adminsitraão àquele grupo de interesse é uma ironia, obviamente) está a fazer contra a liberdade e as instituições. Nos EUA e à CGD.

Meter na misturadora, 1, 2, 3… fábula instantânea

19 Fevereiro, 2017

Era uma vez uma mãe porca de três leitões sem recursos para os alimentar. Enviou-os para o mundo para que fizessem pela vida.

O primeiro, o das finanças, viu um homem com palha e pediu-lhe: “dá-me a tua palha para construir uma casa”. O homem deu e o pequeno leitão montou a sua tenda baseada em fomentar o consumo ou lá o que era que acabou por não fazer por motivos que agora não interessam. O lobo, criatura da “direita”, soprou e disse: “sai, leitãozinho, és o primeiro para o meu espeto”. Soprou, sem grande esforço, e imediatamente desfez o plano Centeno, nome da tenda do pequeno reco.

O segundo animal, ao ver um homem que transportava lenha, parou e pediu: “dá-me os teus galhos para que construa um abrigo”. O homem, grande impulsionador da expressão lenha para te queimares, entregou os pauzinhos ao porco. Este construiu uma geringonça de casa, que aquilo não tinha tecto, não tinha nada. O lobo, criatura da “direita”, soprou e disse: “sai, porquito, vou-te assar usando o ridículo abrigo como lenha”. Soprou, soprou, soprou e rapidamente desfez a geringonça.

O terceiro bicho, ao ver um trolha distraído com uma deliciosa vichyssoise, pegou em tijolos e cimento e construiu uma linda estação de televisão em Queluz de Baixo. O lobo, criatura da “direita”, soprou, soprou, soprou, mas nada. Gritava: “sai, porco, sai que te vou comer”, mas o suíno nada. Vai daí, o lobo, criatura da “direita”, mete o Figueiredo, amigo de longa data do primeiro mano a ser comido (e de outro que está-se cagando para segredos) a mandar na informação do canal. Isto permitiu ao porquito sair da casa onde a estação de televisão funciona para se instalar na fortaleza da capital.

Como se escrevia na outra história, todos os animais são iguais, uns mais que os outros. Qualquer interpretação diferente da aqui apresentada deve ser considerada como erro de interpretação mútuo.

É esse mesmo o problema

18 Fevereiro, 2017

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou na sexta-feira, em Braga, que não tenciona escrever as memórias do seu mandato, porque o tiver a dizer di-lo-á enquanto estiver no cargo.

A exultação dos asnos

18 Fevereiro, 2017

Diz-nos o Expresso que o governo vai mudar o currículo da escola. Começando com a afirmação “alterações profundas ao programa de Crato”, percebemos imediatamente de que se trata: ai foi um mauzão da “direita” quem deu primazia curricular à Língua Portuguesa e à Matemática? Então mude-se isso para a primazia do Adãoesilvismo.

A frase seguinte (“matemática e Português perderão horas para 
as ciências sociais”) é ainda mais engraçada: em primeiro lugar, pela omissão das aspas em “ciências” que antecedem o adjectivo “sociais” (ainda me hão-de explicar quais são as ciências que não podem levar com o adjectivo “sociais”); em segundo, porque, o que realmente falta aos alunos proto-asnos é mais marxismo cultural.

Depois, a coisa continua a crescer, com “educação cívica regressa”. Presumo que seja aqui que se ensinará o civismo do aborto, uma abordagem válida de meta-crítica a todo o sistema de ensino nacional. Por último, o resumo gratuito do Expresso refere que “consciência e domínio do corpo” está (estarão? — não sei se é uma ou duas entidades) “entre as dez novas competências pedidas ao aluno”. Pedidas? É para confirmar as suspeitas de muitos que a exigência está ausente do ensino?

Sem demora, deixo aos leitores espaço para especularem nos comentários sobre o significado de “consciência e domínio do corpo”. Estas são as minhas interpretações:

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Domínio do corpo

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Consciência do corpo

Mentira, Corrupção e Abuso de Poder Não tem Cor Política

17 Fevereiro, 2017

Era uma vez um segredo que Centeno queria esconder. Não queria que se soubesse que acedeu  negociar condições particulares com futuros administradores do banco público. Que essas condições visavam para além do termo dos tectos salariais, isenção de apresentação das declarações de rendimentos. Como não podia decidir sozinho, informou Costa. Como Costa precisava de contornar a questão da inconstitucionalidade, falou com Marcelo. Marcelo falou com Centeno e Centeno enviou SMS para Domingues. Tudo resolvido. Tudo acertado. Até ao momento em que tudo isto chega ao conhecimento público… Ler mais…

Erros de percepção mútuos

17 Fevereiro, 2017

A transição progressiva do meio primordial de entretenimento, da televisão para as redes sociais, acarretou mudanças que, só agora, com a consolidação decorrente da massificação, começamos a observar com clareza. E que começamos então a perceber? Fake News.

Na era anterior, a do consumo unilateral de conteúdos, a premissa básica era a construção de ficções que pretendiam preencher as necessidades do consumidor. Tal como com o Evangelho — a linguagem que unifica o grupo de crentes —, um produto televisivo produz adendas à linguagem comum — isto quando não a altera — para os telespectadores (e, consequentemente, para a sua rede de relações humanas) através da solidificação da cultura pop, da sua terminologia e da sua moral inerente, no caso em que esta existe. A comunidade, englobando o lastro e não necessariamente obstante da sua tradição, foi sendo dotada de conceitos e léxicos comuns: desde a especulação sobre a morte e regresso de Bobby Ewing ao mundo dos vivos, ao colapso do romantismo associado ao programa espacial norte-americano após a explosão do vaivém Challenger, em 1986. “J.R.” tornou-se sinedoque de impiedoso magnata do petróleo1; “soup nazi” trouxe para o léxico comum a contração de nacional-socialismo em nova acepção designativa de excêntricos intransigentes2 . Da mesma forma, ao nível semântico, é perfeitamente legítimo especular que a americanização consistente em necessidade de explicação para factos não correlacionados decorre de programas como o The Oprah Winfrey Show3 — matou o filho porque foi violada pelo tio há mais de vinte e cinco anos; roubou o banco porque a mãe negou-lhe um gelado em 1982.

Independentemente do efeito que a televisão teve (e ainda tem) na comunidade, ver televisão — assistir — sempre foi um acto individual: não é de espantar que, ainda hoje, o maior número de horas em frente ao aparelho seja oriundo de pessoas envoltas numa mística (e, muitas vezes, na sua realidade) de solidão — reformados, pessoas em habitação arrendada há décadas, pais e avós com filhos e netos que dispensam a labuta diária da preparação para o dia escolar, donas de casa, desempregados, solteiros sem filhos e pessoas institucionalizadas ou em internamento. Não vemos televisão para estar com os outros, vemos, precisamente, para que possamos ver os outros sem sermos vistos4. Porém, tornou-se paradigmático que o solitário em frente à televisão assistisse à vida dos outros através da barreira adicional à realidade: não é a vida dos outros que passa num episódio televisivo, é uma iteração possível da vida de outro interpretada por um actor. Da vida ficcional — portanto, falsa — interpretada por um actor, chega-se às notícias fictícias — portanto, falsas — interpretadas pelo filtro crítico e intrinsecamente dotado de ideologia, preconceito e agenda do pivot e sua redacção.

Com o advento das redes sociais, o paradigma passou do sentido único, o de espectador de conteúdos alheios, para o de re-publicador com visão crítica — se bem que igualmente dotada de ideologia, preconceito e agenda — do conteúdo original. Esta multiplicação de interpretações condicionou não só a forma como as pessoas consomem notícias e entretenimento como a forma de apresentação desse conteúdo. Donald Trump percebeu o potencial ao seu dispor para usar o descontentamento contemporâneo pela difusão previamente digerida de factos, já interpretados ao bel-prazer da figura sinistra com poder para os transmitir televisivamente, como forma de alcançar a eleição presidencial. Num registo oposto, o da conquista de simpatia pela interpretação fofinha dos factos, indo de encontro à opinião mais favorável sem grande comprometimento com a verdade e o rigor, Marcelo Rebelo de Sousa usou exactamente a mesma ferramenta para alcançar a presidência em Portugal.

Que se tente abafar o caso Caixa Geral de Depósitos, fingindo que “já passou”, não é de surpreender. Que se ache, com o esmorecer pretendido, que António Costa sai sem mácula na percepção pública é me parece demasiado despropositado, em particular para quem “ganhou” as eleições recorrendo a um expediente com custos elevados, quer pela dependência governamental da sinistra extrema-esquerda, quer pela forma com que as notícias são interpretadas na era actual, pela desconstrução das suas intenções. É curioso que, após décadas de Derrida a reinventar géneros, identidades sexuais e multiplicações de aplicações para “é tudo uma construção social”, sejam, precisamente, os progressistas as vítimas do escrutínio decorrente do pós-estruturalismo aplicado à comunicação social.

 


1 Personagem da série Dallas (1978)
2 Termo cunhado na série Seinfeld (1989)
3 Talk show que esteve 25 anos no ar. The Oprah Winfrey Show (1986). O termo americanização surge, precisamente, porque a tradição europeia nas artes (e, consequentemente, no entretenimento) é a de dispensa de explicações. Como exemplo, o cinema de Michael Haneke ou a literatura de Franz Kafka.
4 Sobre o tema, recomendo a leitura do artigo “E unibus pluram: television and U.S. fiction” de David Foster Wallace, publicado em Junho de 1993 na revista The Review of Contemporary Fiction.

com um sorriso nos lábios

16 Fevereiro, 2017
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16-02-costamarceloCom um sorriso nos lábios e cara de amigo para todas as ocasiões, Marcelo Rebelo de Sousa continua a presidencializar o regime que Aníbal Cavaco Silva tinha deixado parlamentarizar nos últimos dez anos. O caso de Mário Centeno e da Caixa é exemplar: não há nada, mas mesmo nada, na Constituição que autorize o controlo político do governo pelo presidente da República, menos ainda sobre actos dos ministros em exercício de funções. Essa é uma competência exclusiva da Assembleia da República. A verdade, porém, é que, apesar dos incómodos, Centeno foi a Belém explicar-se; Costa foi a Belém explicar-se; e Marcelo, como quem avisa que se não repita o caso outra vez, diz que, por ele, o assunto terminou, o que, a contrario sensu, quer dizer que a ele, ao presidente da República, compete pôr fim ou dar continuidade às questões de política governativa. Se é certo que, em Portugal, só a lei é fonte de direito, as praxes, usos e costumes constitucionais podem criar precedentes e tendências. E é nisso que Marcelo está apostado, aproveitando a enorme fragilidade da solução parlamentar que sustenta a geringonça. Quando chegar a hora, António Costa e o PS pagarão muito caro a aventura em que se meteram.