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Pastorear «carneiros» para a mobilidade sustentável.

23 Setembro, 2026

Em 2019 o país já tinha uma Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa Ciclável e como isso aparentemente não bastava, em 2023 surgiu também uma Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa Pedonal. Confesso que não sei se existe uma Estratégia Nacional para Subir Escadas ou para Atravessar Ruas, mas sei que, agora, o governo do Dr. Montenegro decidiu integrar tudo numa única nova Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa.

Os nossos políticos entenderam que andar de bicicleta e andar a pé, actividades que a humanidade dominava antes da invenção do Estado moderno, necessitam agora de planos, grupos de trabalho, e estruturas administrativas. Dizem que o objectivo é a “transferência de utilizadores” do transporte individual para modos considerados sustentáveis, havendo até um eixo destas políticas dedicado a “cultura e comportamentos”.

A mentalidade dos nossos decisores públicos não dá para mais. Em vez de se ocuparem a construir passeios melhores ou eliminar buracos das ruas, entendem que escolhas dos seus concidadãos são erradas e por isso há que alterar comportamentos de forma administrativa. Parte-se da conclusão de que há uma proporção correcta de cidadãos que se deve deslocar a pé, de bicicleta ou de automóvel, e depois tenta-se reorganizar centralmente as cidades para aproximar a realidade das tabelas de virtude imaginadas pelos burocratas.

Porém, o objectivo deveria ser maximizar acessibilidades, reduzir tempos e custos de deslocação, melhorar segurança e corrigir externalidades reais. E se, em resultado disso, mais pessoas caminharem ou andarem de bicicleta, óptimo. Mas se continuarem a preferir o automóvel porque é a solução mais conveniente à sua vida concreta, isso não constitui uma falha moral nem administrativa.

O paternalismo da expressão “mudança de comportamentos” é sinistro, pois pressupõe que o Estado conhece melhor do que milhões de pessoas a combinação de tempo, distância, horários, topografia e obrigações que determina cada viagem. E quando o Estado começa a considerar o cidadão uma variável comportamental a corrigir, não se está a planear mobilidade, mas sim a planear cidadãos como um rebanho de carneiros.

A minha crónica-vídeo de hoje, aqui:

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