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De Maricarmen a Renata: revolução acampada

4 Novembro, 2026

Ao início as «acampadas» eram muito mais honestas e tinham a virtude rara de não esconderem ao que vinham. Manifestantes e políticos nacionais disseram explicitamente que o objectivo era a revolução, a acção directa contra o capitalismo, fizeram apelo à luta de classes, a expropriações e ao fim da propriedade privada, defenderam a destruição do Estado de Direito e chegou a ser mostrada uma simpatia inspiradora pelo massacre de judeus de 07 de outubro. Tudo isto foi dito, redito, escrito, proclamado, cantado e aplaudido inúmeras vezes nos primeiros dias da ocupação do Rossio e da Pç. D. João I. Aí foi também anunciado que a habitação era apenas uma das muitas frentes da guerra ideológica que travam os «okupas».

Mas, para efeitos de marketing junto das televisões os manifestantes deram, entretanto, uma falsa aparência de inocente reivindicação de direitos sociais e, para isso, tentou-se importar de Espanha a mártir Maricarmen como símbolo da luta em Portugal. Infelizmente, veio-se a saber que Maricarmen foi durante décadas uma privilegiada de arrendamento protegido ao abrigo de leis do general Franco e tinha sido também administradora de empresas imobiliárias e especuladoras.

O pessoal da «acampada» teve por isso de trocar Maricarmen por Marta Almeida, a comovente história de uma mãe, viúva com dois filhos menores, despejada de uma habitação social em Lisboa pela Gebalis. A chatice é que a senhora nunca foi titular do arrendamento, nunca residiu no imóvel, o tribunal decretou por duas vezes que estava a ocupar ilegalmente a casa e ficou a saber-se que quem foi efectivamente expulso da habitação foi um idoso de 84 anos, por coacção de Marta, e que era o legítimo residente.

Mais uma vez a «acampada» teve de esquecer o embuste do caso Gebalis e proceder rapidamente à canonização de Renata Cambra. Uma militante trotskista promovida a heroína da habitação, com a deliciosa ironia de uma história familiar ligada à promoção imobiliária, com pai e avô executivo e empresário no sector da construção civil.

A comédia delirante em torno destas «acampadas» é tal que se torna fascinante ver activistas hostis à democracia liberal serem apresentados no espaço mediático como guardiães da liberdade.

Mas mais extraordinário é a facilidade com que os nossos fraquíssimos políticos e comentadores esquecem que as nossas liberdades foram conquistadas contra o totalitarismo e que a memória das vítimas do comunismo não deveria ser traída ao transformar militantes de ideologias autoritárias em referências morais e interlocutores privilegiados da decisão pública.

A minha crónica-vídeo de hoje, aqui:

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