O “partido autárquico” e a agenda “liberal e reformista” II
Bruno Alves respondeu a este meu post. A resposta de Bruno Alves contém um pressuposto prévio que deve ser questionado antes que a discussão prossiga. E esse pressuposto é o de que é possível avaliar carácteres e identificar redes de interesses e de corrupção olhando para o comportamento público dos políticos e dos seus apoiantes. Eu contesto essa possibilidade e considero que, mesmo que os dados disponíveis não permitem identificar na sociedade portuguesas redes de políticos impolutos, às quais Ferreira Leite pertenceria, e redes de políticos de carácter duvidoso, como a rede de interesses do PSD autárquico.
Comecemos por uma teoria da corrupção. A corrupção quando existe numa sociedade tende a estar igualmente distribuída por todas as escalas de poder. As razões são simples: o povo é o mesmo, a cultura é a mesma, as regras são similares e os ganhos da corrupção são proporcionais à escala. Devemos ainda esperar que a separação de poderes não compartimenta a corrupção. A corrupção estará igualmente distribuída pelo legislativo, pelo judicial e pelo executivo. Devemos esperar essa igual distribuição porque os ganhos de corromper um poder judicial impoluto são muito maiores que os ganhos de corromper um poder executivo minado pela corrupção. E vice-versa. O mesmo acontece com os partidos. Não pode existir uma parede invisível entre um partido autárquico e um partido nacional O incentivo dos privados para corromperem um partido ao nível nacional é muito maior do que o incentivo para corromper estruturas locais de um partido.
Quanto à avaliação de carácteres olhando para o comportamento público dos agentes políticos, o Dr House dá a resposta: “everybody lies”. Toda a gente mente e, como é fácil de perceber os corruptos são os que têm maior incentivo para mentir. Não existe nenhuma forma objectiva de distinguir um político sério de um político que se diz sério ou que se comporta como sério em público. Bruno Alves tem vindo a sustentar grande parte dos seus argumentos a favor de Ferreira Leite na sua avaliação subjectiva do carácter de pessoas a partir do seu comportamento público. A própria campanha de Ferreira Leite baseia-se na exploração desses juízos subjectivos. Não há razão nenhuma para alguém confiar nessas avaliações. Mas, mais importante do que isso, não há nenhuma razão para, no actual momento político do PSD, esperar uma correlação entre carácter e acção política (deixarei isto para outro post).
Finalmente, os dados disponíveis não permitem atribuir às redes do PSD autárquico níveis de corrupção ou de interesses duvidosos superiores aos do PSD nacional. Numa autarquia os interesses duvidosos revelam-se através da contratação de familiares, utilização de máquinas em obras particulares, mudanças dos PDMs para favorecer determinadas empresas, contratação desnecessária de serviços, obras públicas destinadas a favorecer construtoras locais. Ao nível nacional os interesses duvidosos revelam-se através das grandes obras públicas (TGV, OTA/Alcochete, 2ª e 3ª pontes sobre o Tejo, Alcântara, Centro Cultural de Belém, Expo, Euro 2004), dos serviços comprados a escritórios de advogados, projectos inúteis comprado a empresas amigas, movimentação de políticos entre as empresas, partido e governo. O PSD nacional, incluindo aquele que apoia Ferreira Leite, não é estranho a nenhum destes indícios. A diferença entre os indícios é apenas na escala dos projectos. No poder local falamos de milhões. No governo nacional falamos de milhares de milhões. Não percebo por isso onde é que Bruno Alves consegue ver uma diferença entre as redes de interesses do PSD autárquico e as redes de interesses do PSD nacional.

“sua avaliação subjectiva do carácter de pessoas a partir do seu comportamento público”
João, e de que outra maneira pode ser? Escrutinando a vida pessoal da pessoa? A avaliação de carácter é sempre subjectiva e, o comportamento público de uma pessoa não é mais que a cristalização do seu carácter. A maioria das pessoas têm a MFL em grande consideração, muito provavelmente por esta o merecer. O João, desconsidera o valor da subjectividade; quer utilizar a razão ou qualquer escala positiva de medida para medir uma coisa que é, em si própria, subjectiva.
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Há ainda as redes de interesse do PSD sazonal.
Mas fica para um próximo comentário.
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««João, e de que outra maneira pode ser?»»
Não pode. O ponto do post é que as avaliações de carácter baseada naquilo que o político quer mostrar valem muito pouco. O racional nestes casos é ingnorar as avaliações de carácter, excepto quando é revelada informação de bastidores. É aliás por isso que a informação de bastidores quando revelada é normalmente devastadora para as carreiras políticas enquanto que a publicamente revelada pelo próprio não tem grande impacto.
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É mais fácil controlar o poder nacional ( corrupção), Assembleia da República do que o poder autárquico corrupto, assembleia municipal, tem poucos poderes reúne 5 vezes ou os vereadores da oposição sem pelouro. Na AR há comissões, chamadas dos ministros, 15 em 15 dias o pM explica-se. Nem compare a corrupção nacional há municipal!
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««A avaliação de carácter é sempre subjectiva e,»»
Por ser subjectiva vale muito pouco.
«« o comportamento público de uma pessoa não é mais que a cristalização do seu carácter.»»
Isso é uma teoria facilmente refutável por vários contra-exemplos de políticos que tinham um comportamento em público e outro em privado totalmente contraditórios.
««A maioria das pessoas têm a MFL em grande consideração, muito provavelmente por esta o merecer. »»
Muito provavelmente por ela merecer ou por ela mentir bem. Como é que distingue uma coisa da outra?
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««É mais fácil controlar o poder nacional ( corrupção), Assembleia da República do que o poder autárquico corrupto, assembleia municipal, tem poucos poderes reúne 5 vezes ou os vereadores da oposição sem pelouro. Na AR há comissões, chamadas dos ministros, 15 em 15 dias o pM explica-se. Nem compare a corrupção nacional há municipal!»»
É uma teoria muito interessante mas que tem uma grave falha: o que é que impede os corruptos de minarem a própria Assembleia da República? Absolutamente nada. Aliás, os indícios de que já o fizeram são semelhantes aos indícios de corrupção autárquica. Para além do mais, os deputados devem o lugar e a obediência aos líderes partidários e às estruturas locais dos partidos que os escolhem para as listas.
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É engraçado que se fale na Assembleia da República como órgão fiscalizador da corrupção quando eu no post falo em “serviços comprados a escritórios de advogados”. Se formassem um grupo parlamentar, os escritórios de advogados seriam muito provavelmente o 2º ou o 3º maior grupo parlamentar na Assembleia.
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Depreende-se do post “que as avaliações de carácter baseadas naquilo que o político quer mostrar valem muito pouco”.
Donde as avaliações de carácter devem basear-se naquilo que o político não quer mostrar.
O que é que o JM achará que MFL não quer mostrar ?
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João, sou estudante de Psicologia, e encaro a subjectividade com muita naturalidade. A razão, ou métodos científicos, não respondem à maioria das grandes questões psicológicas e / ou sociais, como é o caso do carácter. A identidade da pessoa na sociedade é construída ao longo de uma vida e, para isso, tem de ser coerente. Por exemplo: por ler os seus escritos diariamente, ao longo de alguns anos, tenho-o como uma pessoa séria. Pode não ser. Pode ser até um grande mentiroso ou um revolucionário fervoroso. Mas eu acredito que não. Do ponto de vida psicológico é impossível não fazermos estes juízos de valor, todos inferidos, com base em pressupostos subjectivos. Se assim não fosse, não conseguiríamos viver em sociedade. Nós acreditamos que tal pessoa é honesta apenas pelo que conhecemos. Se fazemos tais juízos com o vizinho e com o amigo, também os podemos fazer com um político.
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Mais do mesmo.
Bom domingo.
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Ricardo Duarte,
nos cursos de psicologia não se estuda o “confirmation bias” e o problema das provas silenciosas?
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Estuda sim João. É dado como “casos em que as inferências e induções podem ter efeitos negativos”. Exemplo disso é obviamente a psicologia forense e / ou testemunhos. Mas a questão é mesmo essa: não vamos a tribunal julgar o carácter das pessoas. Temos mecanismos próprios que nos ajudam nessa tarefa. Claro que falíveis, aliás, muito falíveis. Mas confiamos neles, porque ao longo da vida, embora com desilusões, vamos percebendo que eles resultam.
Ps: João percebo perfeitamente que este não era o ponto principal do seu post.
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Porque é que a MFL é “impoluta”? Não foi ela que fez aquela negociata fiscal e troca por acções com o Benfica?
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“Não percebo por isso onde é que Bruno Alves consegue ver uma diferença entre as redes de interesses do PSD autárquico e as redes de interesses do PSD nacional.”
R: Elitismo. Provincianismo travestido de racionalidade e seriedade. Típico de Lisboa. Fica melhor bater no Fernando Ruas do que nos Dias Loureiros e Arnauts.
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Pelo menos cá o meu Sócrates é ao contrário: Não parece impoluto nem é impoluto.
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O comentário 15. usa um nick abusivamente e uma foto ilegalmente.
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“R: Elitismo. Provincianismo travestido de racionalidade e seriedade. Típico de Lisboa. Fica melhor bater no Fernando Ruas do que nos Dias Loureiros e Arnauts.”
Isso é igual em todo o lado, porque a importância das coisas muda de acordo com a geografia Na terra de Fernando Ruas de certeza que criticam o Governo Central e fecham os olhos ao que lá se passa.
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De acordo quando se diz “o PSD nacional o PSD autárquico…” mas não quando se refere a MFL.Não é verdade que ela em 30 anos de vida pública e nunca foi suspeita de nada?
Um individuo pode ser incorrupto mas não conseguir parar a corrupção dos seus próprios serviços.Nem os maus serviços para o Estado.Nem parar o financiamento ílicito do seu próprio partido.Ter que viver com a corrupção é ser corrupto?
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Temos pois que a democracia é, estruturalmente, a corrupção e o combate à corrupção.
Estas duas coisas.
«(…)Ter que viver com a corrupção é ser corrupto ?».
Não, meu caro senhor. É, sim, viver em democracia. Em ditadura, também. O destino enfim …
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Este João Miranda, para além de feio, é intelectualmente desonesto (ou imbecil). O Bruno Alves não partiu de pressuposto nenhum como o que aqui enuncia. Deu-lhe foi uma belissima resposta. Mirando quer ser sempre do contra. Ninguém que tenha de fazer figura de idiota.
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