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Infelizmente são uns gajos porreiros*

4 Junho, 2008

“Até são uns gajos porreiros!” Outros dizem-nos impecáveis, bons profissionais… De repente percebi que havia duas listas candidatas à Comissão da Carteira dos Jornalistas. Quando comecei a indagar quem as constituía percebi quão viva está em Portugal a “porreirologia”.

Num país que foge do debate ideológico como o diabo da cruz, a “porreirologia” é uma espécie de sociologia informal baseada na existência dos “tipos porreiros”. O que é um porreiro? Grosso modo o gajo ou tipo porreiro é uma espécie de íntimo, não tanto por se partilhar com ele grande coisa mas sobretudo porque está implícito que um gajo porreiro não incomoda aqueles com quem partilha esse estatuto.

Os gajos porreiros podem fazer coisas que são interditas aos outros porque está implícito que as fazem naturalmente de forma porreira. Ou seja, despindo-as das suas consequências e aligeirando-as naquilo que têm de questionável. Afinal, ensina a “porreirologia”, que os gajos porreiros só podem fazer coisas porreiras, logo um tipo que seja porreiro não faz de desmancha-prazeres, estragando os objectivos certamente porreiros dos outros tipos, porreiros como ele mesmo.

Apliquemos então isto às candidaturas à Comissão da Carteira dos Jornalistas. Sem dúvida que os candidatos das duas listas são uns gajos porreiros ou, se preferirem expressões menos correntes, também podem ser camaradas, companheiros, caros amigos, distintos colaboradores… enfim serão tudo o que de melhor se quiser dizer e escrever mas, e aí está o problema do porreirismo, não se pode abordar o exercício dum cargo de poder com o mesmo critério com que se escolhe alguém para conversar, ir ao cinema ou até trabalhar.

O novo Estatuto dos Jornalistas transformou aquela burocrática instância conhecida pelo ridículo nome de Comissão da Carteira num perigoso e muito questionável mecanismo de controlo quer de acesso à profissão quer do exercício da mesma. Esta Comissão, como bem explicou no PÚBLICO do passado sábado, Francisco Teixeira da Mota, foi transformada por este Estatuto numa mistela de Ordem, Sindicato e Grémio com poderes para atribuir ou retirar a carteira profissional e ainda levantar processos disciplinares aos jornalistas que a mesma comissão entender que violam os deveres deontológicos. Os países onde a imprensa é mais livre, mais madura e apresenta maior diversidade e capacidade de investigação não conta com nada disto. Por exemplo, em Inglaterra a própria existência de carteira profissional tem carácter voluntário.

A isto, que já de si não é nada tranquilizador, há ainda que juntar a provável colaboração desta Comissão da Carteira no aparentemente adormecido mas efectivamente aprovado Sistema de Regulação de Acesso a Profissões que, como se lê no Portal do Governo, vai permitir que se restrinja “o princípio constitucional da liberdade de escolha de profissão, regulando as estruturas responsáveis pela sua preparação, acompanhamento e avaliação.” Santos Silva deu aliás o jornalismo como o exemplo duma das actividades a que se aplicaria este Sistema de Regulação de Acesso a Profissões. Ou seja, não vai ser jornalista quem quer mas sim quem os reguladores entenderem que pode ser. E depois os mesmos reguladores poderão retirar-lhe ou suspender-lhe a carteira. Tudo sempre em nome da regulação.

Acreditam os jornalistas que dada a natureza porreira de quem constitui as listas presentemente candidatas à dita Comissão da Carteira Profissional de Jornalista não virá daí problema algum. Também eu acredito nisso mas no meio de tanto gajo porreiro anseio por que apareça ainda um biltre a querer candidatar-se àquela Comissão da Carteira. Talvez assim, perante a possibilidade dum grupo de óbvios sacanas passar a ter tais poderes na mão se torne mais evidente que estamos a ver nascer um monstro.

Helena Matos, PÚBLICO, 3 de Junho

22 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    Mialgia de Esforço permalink
    4 Junho, 2008 21:38

    Porreiro, pá!

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  2. zedeportugal's avatar
    4 Junho, 2008 21:55

    Assim, só os blogues poderão dizer a verdade, mesmo que não seja porreira. Pelo menos até arranjarem maneira de nos calar… que é coisa que estão mortinhos por fazer. Depois… bem, depois voltamos ao teatro de revista – à portuguesa, claro.

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  3. Piscoiso's avatar
    4 Junho, 2008 21:55

    Plhe que também há gajas porreiras.

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  4. Professor BOMBO SAFIÉ's avatar
    Professor BOMBO SAFIÉ permalink
    4 Junho, 2008 22:14

    Acho bem que o acesso à profissão de astrólogo seja restringido a profissionais credenciados, com o grau de Professor, como eu próprio, por exemplo.

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  5. balde-de-cal's avatar
    balde-de-cal permalink
    4 Junho, 2008 22:23

    o nacional-porreirismo serve para esconder todas as baixezas da condição humana.
    portugal não é o “lugar ameno” referido por Horácio nos épodos. por isso “em mar de piranhas jacaré nada de costas”
    devemos sempre recorrer ao plano b, ou “quem não tem cão caça com gato”

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  6. Desconhecida's avatar
    Cosmo permalink
    4 Junho, 2008 22:40

    Grande artigo!
    Parece que leva tempo, mas vai-se descobrindo que já chegámos a 1984!

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  7. Desconhecida's avatar
    4 Junho, 2008 22:55

    Estou farto de o dizer mas esqueço-me sempre. Sou uma besta quadrada. Peço desculpa, mas só depois de comentar é que me lembro.

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  8. Sofia Ventura's avatar
    4 Junho, 2008 23:42

    “foi transformada por este Estatuto numa mistela de Ordem, Sindicato e Grémio com poderes para atribuir ou retirar a carteira profissional e ainda levantar processos disciplinares aos jornalistas que a mesma comissão entender que violam os deveres deontológicos.”

    O problema é que a regulação que agora surge é eminentemente uma decorrência da incapacidade dos jornalistas em se autoregularem.
    As ordens profissionais, baseadas na defesa do interesse público, são também um importantíssimo instrumento de autoregulação e, assim, de obstaculizar a ingerência de terceiros.

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  9. Sofia Ventura's avatar
    4 Junho, 2008 23:43

    PS: o Francisco Teixeira da Mota está neste momento no ar na 2 – clube dos jornalistas

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  10. Desconhecida's avatar
    a. verneuil permalink
    5 Junho, 2008 00:05

    “Quando hoje contava a uma francesa que estava a ponderar dar às de Vila Diogo nos próximos meses ela respondeu-me escandalisada que não sabia o que se passava com os jovens portugueses. A maior parte daqueles com quem tem falado ou já saíram ou querem sair tão breve quanto possível” (da blogosfera).
    Estes já não vão em porreirismos.

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  11. Luis Moreira's avatar
    Luis Moreira permalink
    5 Junho, 2008 00:08

    Muito bem Sofia.A incapacidade de os jornalistas se autoregularem!E eles sabem porquê.Pelo menos uma maioria!

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  12. Piscoiso's avatar
    5 Junho, 2008 00:11

    “Não há verdade nem mentira nas opiniões.” – acabou de dizer Teixeira da Mota.

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  13. Sofia Ventura's avatar
    5 Junho, 2008 00:25

    “E eles sabem porquê.Pelo menos uma maioria!”

    Eu não. Não partilho da ideia que os jornalistas sejam um bando de mal intencionados, mas já pude perceber que têm enormes resistências quando se trata de regular a sua actividade. Ao ponto de terem boicotado a possibilidade de se autoregularem e exercerem, eles próprios, o poder disciplinar sobre os seus pares.
    Atenção: quando falo em regulação não estou a defender qualquer limitação das liberdades inerentes ao exercício do jornalismo. Estou a pensar, até essencialmente, num exercício efectivo pelos jornalistas de poder disciplinar sobre jornalistas (quando há falhas deontológicas a apontar – e não. Também não acredito que os jornalistas sejam um bando de anjinhos).
    O buraco que se criou – que nunca gerou o caos, mas que criou anticorpos num sistema que gosta de regular até ao absurdo – gerou descrença na possibilidade de que eles se viessem a orientar. Daí até à heteroregulação e exercício do poder disciplinar fora de uma estrutura (maxime ordem) de jornalistas foi um pulinho.

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  14. Desconhecida's avatar
    a. verneuil permalink
    5 Junho, 2008 00:37

    Mas ainda há quem acredite nos jornalistas tugas na generalidade a começar pela lusa? As excepções confirmam a regra. Para saber o que se passa no país voltou a ser necessário recorrer a outras fontes. Ainda haverá pessoas que têm dúvidas?

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  15. Desconhecida's avatar
    Raskolnikov permalink
    5 Junho, 2008 07:45

    Como díria o inenarrável P.M. de Portugal: “Porreiro, Pá!”

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  16. Elcaseiimunitates's avatar
    Elcaseiimunitates permalink
    5 Junho, 2008 09:16

    Será especulação, ou porreirismo uma “empresa de informação” ir pagando ao longo de trinta anos os descontos de um colaborador de poucos meses para que ele tenha uma reforma de 3.200 euros?
    Perguntem a quem está preocupado com as dificuldades de quem votou PS.
    Ou quem pagou a taxas saiba talvez responder.

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  17. Luís Lavoura's avatar
    Luís Lavoura permalink
    5 Junho, 2008 09:28

    A Helena desculpe que lhe diga, mas a Inglaterra é tudo menos um país exemplar em matéria de jornalismo.

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  18. Luís Lavoura's avatar
    Luís Lavoura permalink
    5 Junho, 2008 10:03

    Portanto a Helena acha que deveria poder ser jornalista quem quisesse?

    E outras profissões, também? Médico? Engenheiro de pontes e calçadas?

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  19. Luís Lavoura's avatar
    Luís Lavoura permalink
    5 Junho, 2008 10:05

    Eu compreendo que essa Comissão de Carteira Profissional envolve os riscos que a Helena refere.

    Mas, sinceramente, tendo em vista as merdas de jornalistas e jornais que hoje em dia temos, a desonestidade e pobeza intelectuais galopantes, acho que vale a pena incorrer nesses riscos.

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  20. Lololinhazinha's avatar
    Lololinhazinha permalink
    5 Junho, 2008 16:32

    “Ou seja, não vai ser jornalista quem quer mas sim quem os reguladores entenderem que pode ser. E depois os mesmos reguladores poderão retirar-lhe ou suspender-lhe a carteira. Tudo sempre em nome da regulação.”

    Também é assim para os médicos, advogados, engenheiros, etc.
    Desde que as regras de acesso à profissão sejam bem definidas e não sejam arbitrárias não vejo qual é o mal. Há profissões, e o jornalismo insere-se nelas, em que se justifica a regulação.

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