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Crise dos Camionistas e vulnerabilidade

16 Junho, 2008
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Nota prévia: o texto que se segue não é mais do que um conjunto de conjecturas; recomenda-se a quem esteja interessado em opiniões com substrato técnico que escolha outro texto para ler.

 

Em Junho de 2008, na sequência da subida do preço dos combustíveis, verificou-se um movimento de camionistas o qual limitou, por alguns dias, a circulação de mercadorias em Portugal. Na sequência dessa crise, foi proclamado que o país tinha vulnerabilidades. No 9/11, os E.U.A. mostraram-se vulneráveis. O Tsunami que atingiu países asiáticos em 2004 revelou vulnerabilidades. J.F. Kennedy, o homem mais poderoso do mundo, era uma pessoa vulnerável. Os dinossauros foram vulneráveis. A lista de exemplos seria longa, mas poderá ser substituída por um conceito de ordem geral: tudo o que existe é vulnerável.

 

A vulnerabilidade de Portugal a uma tentativa de bloqueio rodoviário poderá não ser uniforme – poderá ser maior no sul do país. A razão para esse facto poderá ter a ver com a localização das fontes de combustíveis – as refinarias. Para o regime salazarista, Portugal era concebido como um conjunto de territórios distribuído por vários continentes. Contudo, Lisboa ocupava um lugar especial. Tanto quanto se possa especular, para Salazar, Lisboa, enquanto “capital do império”, devia estar concebida de forma a não depender dos territórios anexos, uma vez que governava territórios distantes. Num grau menor, uma vez que os pressupostos seriam diferentes, também o Porto tinha algumas características do mesmo género – essencialmente, por estar relativamente longe da capital.

 

Em Lisboa existiam, portanto, um aeroporto e uma refinaria – em ambos os casos, próximo do centro da cidade e próximos entre si; para além disso, e entre múltiplas outras entidades, do outro lado do Tejo encontravam-se uma base aérea e uma base naval, para além de importantes indústrias. Na sequência da construção da refinaria de Sines e da descolonização em África, a refinaria de Lisboa viria a ser desmantelada, dando lugar a um novo bairro da cidade. Ao que tudo indica, é neste ponto – no fim da filosofia acima referida – que se encontra boa parte da vulnerabilidade verificada em Junho de 2008, e que curiosamente, não se verificou no Porto – uma cidade que não está guardada (de perto) por aviões de guerra ou por navios. Nesta óptica, Lisboa estaria a sofrer uma transformação no sentido de se transformar numa cidade pós industrial – o preço seria a maior vulnerabilidade.

 

A análise da experiência de Junho de 2008, e sem prejuízo de outras considerações, pode ser útil, uma vez que acções de outro tipo (imaginemos uma eventual acção terrorista, por exemplo) poderiam gerar consequências com algum grau de semelhança. Nos dias de hoje, não se afigura provável uma agressão de natureza militar. Pelo contrário, vários tipos de acções de natureza não convencional poderão vir a ter lugar. Se existir alguma verdade nas conjecturas acima expostas, poderá especular-se que a “vulnerabilidade”de Lisboa será aumentada se o aeroporto da Portela for desactivado. Como corolário do atrás exposto, poderá concluir-se que, em sede eventual de crise grave, uma zona na qual poderá ser estabelecido um posto de comando é a que rodeia Matosinhos, local onde se encontram porto de mar, aeroporto, refinaria e onde confluem numerosas auto-estradas. Nada de novo – antes de Portugal, existia já Portucale.

 

José Pedro Lopes Nunes

 

8 comentários leave one →
  1. JC/Gato Maltês's avatar
    16 Junho, 2008 19:09

    Se me permitem, deixo aqui o link para o que escrevi sobre o assunto:
    http://eusouogatomaltes.blogspot.com/2008/06/um-pas-vulnervel-ou-sociedades.html
    Cumprimentos
    JC

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  2. Dinis's avatar
    16 Junho, 2008 19:18

    Esqueceu-se da vulnerabilidade dos orgãos disciplinares da UEfa, essa ´e que é uma grande vulnerabilidade. A de não fazer NENHUM.

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  3. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    16 Junho, 2008 19:28

    Um exército não sobrevive sem Quartermaster. Lisboa parece que não tem um há algum tempo ainda assim para haver refinação é preciso haver produto para refinar, o que implica vias de comunicação abertas.

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  4. Desconhecida's avatar
    16 Junho, 2008 19:31

    Deixa lá os camionistas pá… Isso já passou… Agora o que tá a dar é isto

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  5. JoãoMiranda's avatar
    JoãoMiranda permalink
    16 Junho, 2008 19:35

    Chegou a existir uma refinaria em Lisboa ou apenas um terminal portuário?

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  6. Luis Moreira's avatar
    Luis Moreira permalink
    16 Junho, 2008 19:41

    Havia uma refinaria que, aliás, ainda lá está em esqueleto.

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  7. C. Medina Ribeiro's avatar
    16 Junho, 2008 19:46

    MUITO SE TEM FALADO, ultimamente, nas consequências nefastas do desinvestimento que Portugal tem feito, ao longo das últimas décadas, no transporte ferroviário. Acerca disso, o Público de ontem trazia algumas informações curiosas que dão que pensar:

    1ª – Mesmo quando as mercadorias circulam de comboio, o trajecto final (se não mesmo, também, o inicial) depende do transporte rodoviário.

    2ª – Durante a paralisação dos camionistas, o aeroporto de Faro foi abastecido de jetfuel com recurso à CP (que tem comboios diários entre Sines e Loulé); no entanto, o trajecto final até ao aeroporto foi, como sempre, feito em camiões-cisterna. Nesses dias, as camionetas passaram… porque não havia piquetes em Loulé.

    3ª – A própria CP, que continua a ter muitas composições movidas a Diesel, depende do transporte rodoviário para se abastecer desse combustível. Se a paralisação tivesse durado mais alguns dias, mais de metade da rede ferroviária parava.
    .

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  8. Desconhecida's avatar
    Fado Alexandrino permalink
    17 Junho, 2008 01:33

    uma zona na qual poderá ser estabelecido um posto de comando é a que rodeia Matosinhos,

    Já foi feito, no PREC.

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