O Estado, condição sine qua non do Liberalismo (republicado).
Pela actualidade do tema, publica-se novamente este texto, de 27.02.2007
O Estado, condição sine qua non do Liberalismo.
2. A visão de T. Hobbes, inspirada pelos relatos das sociedades sem Estado encontradas pelos europeus na América, é certamente compatível com observações contemporâneas da quebra da autoridade estatal, seja de forma temporária, por exemplo na sequência de catástrofes naturais, seja de forma prolongada (nos chamados failed states).
A passagem do furacão Katrina por New Orleans, em 2005, e a falência temporária da acção do Estado, associou-se, tal como em numerosos outros relatos similares, a sordidez e a selvajaria. Sem Estado, não há civilização.
3. É possível a vida humana sem Estado, a sociedade sem Estado. Nesta, existe a liberdade do mais forte – por exemplo, a liberdade para cometer homicídio. Tal sociedade e tal liberdade, contudo, nada têm a ver com o Liberalismo.
O Liberalismo, pelo contrário, representa a evolução da organização social na dependência de um Estado. O Liberalismo representa uma forma elaborada e historicamente evoluída do estatismo. Não existe Liberalismo sem estatismo, sem a existência de Estado. Sem Estado, não existe o Liberalismo, mas poderá existir uma vida “solitária, pobre, sórdida, selvagem e curta”.
A liberdade individual, entendida como a liberdade da generalidade dos indivíduos, no contexto de uma dada civilização, não é incompatível com a existência de um Estado. Muito pelo contrário, a existência de um Estado é uma condição sine qua non para a liberdade individual (mas certamente não é condição suficiente). O facto de muitos Estados terem optado pela via do totalitarismo, ou seja, a frequente existência de Estados iliberais, não estabelece, nem o Liberalismo como doutrina contrária à existência de Estado, nem o Estado, como entidade incompatível com o Liberalismo.
José Pedro Lopes Nunes

Os comentários estão fechados.