Do quartel para o restaurante. E depois para onde?*
Os sargentos faltaram ao almoço para dar conta do seu mal-estar. A não comparência ao almoço por parte dos sargentos é o resultado da redução das forças armadas a uma espécie de confraria. Uma confraria cara, com ritos e hábitos doutros tempos e cuja existência dificilmente se justifica perante a opinião pública. O poder político não ignora que os militares estão reféns do tempo, cujos ventos sopram contra eles – por exemplo, ao certo, em que se pode traduzir hoje a quartelada ou os disparates passíveis de serem efectuados pelos militares a que aludiu o general Loureiro dos Santos? Faltar a mais almoços? Ou marcar almoços de descontentamento? Mais uns tempos neste estado de ânimo e as notícias sobre as forças armadas portuguesas ainda acabam a ser expressas com termos culinários que podem ir do caldo entornado, ao bispo no feijão sem esquecer as doses de batata a murro.
Sejamos realistas as forças armadas atravessam uma grave crise de identidade e estão a perder claramente terreno e poder face às forças policiais. Destas últimas, e ao contrário daquilo que acontece com as forças armadas, a população não duvida que sejam necessárias e o poder político vê-as como mais plásticas e adaptáveis às circunstâncias governamentais. Nos corpos especiais de polícia, sobretudo se actuarem encapuçados, os cidadãos vêem segurança e modernidade. Nos soldados vêem despesa, códigos e manias doutros tempos. Como é que se chegou aqui? Basta olhar para aquilo que nos sobrou da sua história: os golpes de 1926 e 1974. Ou seja aquilo que os militares nunca deveriam fazer – golpes de Estado – são não só as únicas razões pelas quais a História os recorda mas também os motivos pelos quais, em diferentes momentos, o povo português mais genuinamente os homenageou. O reverso desta imagem das forças armadas enquanto sustentáculo dos governos ou agentes da sua queda levou a que se identificassem as suas missões com serviços prestados aos diversos governos e regimes. No passado Domingo, em Inglaterra, desde a rainha até aos diversos líderes políticos e representantes de credos tão variados quanto o muçulmano, o budista e o Exército Salvação, todos comparecerem numa impressionante cerimónia de homenagem aos soldados mortos na I Guerra. E ninguém achou estar a prestar um favor a qualquer governo quando se ouviram os versos They went with songs to the battle, they were young…
Portugal participou nesta guerra combatendo não apenas na Flandres mas também em África mas a evocação desses combatentes ficou para sempre associada não à defesa dos interesses do país mas sim dos governos republicanos. Foi também assim com a guerra travada em Angola, Moçambique e Guiné, identificadas com a defesa do Estado Novo e não dos portugueses. O que daqui resultou foi um país que não consegue entender o passado, já que em boa parte desse passado, sobretudo no mais recente, as forças armadas tiveram um enorme protagonismo. Assim o mesmo Portugal que viu e ouviu os relatos do cativeiro vietnamita do candidato McCain não sabe o que fazer com a história de António Lobato, um sargento português sete anos preso em Conakry e que, tal como MacCain, recusou ser liberto em condições que considerava indignas para si e para o seu país.
A estas razões nacionais, que já não são poucas, juntam-se factores externos que também eles contribuem para a impopularidade das Forças Armadas. Tendo transportado para a construção do projecto europeu muita da ambição que os levara a expandir-se e combater entre si no passado, os europeus têm-se deixado embalar na doce e perigosa identificação entre paz e ausência de intervenções militares. Do Ruanda a Srebenica, vemos bem onde nos leva a confusão entre paz e ausência de forças armadas ou, pior ainda, onde podemos chegar quando num teatro de guerra, como era o caso da Bósnia, os exércitos se portam como milícias civis ou negoceiam como forças policiais dum país corrupto. Mas acreditar que a paz se consegue sem forças armadas sai barato, rende votos e poupa os governantes às idiossincrasias da instituição castrense. Alguns acreditam que esta demissão dos europeus perante as responsabilidades da defesa mudarão com a chegada de Obama à Casa Branca. Agora que a América tem o presidente de que o mundo gosta chegou a hora do mundo fazer o que lhe compete, ou seja, ter forças armadas dignas desse nome: “Mostrem-nos o dinheiro. Mostrem-nos as tropas. Mostrem-nos os esforços diplomáticos.” – escrevia há dias no New York Times, Thomas Friedman, dirigindo-se directamente a todo aqueles povos que, como os europeus, por esse mundo fora se alegraram com a vitória de Obama e o fim do unilateralismo de Bush. Mas isso implica assumir que aquilo a que temos chamado missões de paz implica por vezes combater ou, pelo menos, não excluir essa hipótese. Que tudo isso custa dinheiro, decisões difíceis e um discurso sobre os interesses do país que não seja questionado por cada mudança de governo ou até de ministro. Naturalmente implica respeitar as forças armadas e assumir que o seu papel não é propriamente animar desfiles, tocar a charanga quando chegam dirigentes estrangeiros, ter uns privilégios corporativos sobrantes doutros tempos e distribuir sacos de arroz e alguns medicamentos pelo mundo – embora seja excelente que respondam positivamente quando são chamadas a fazê-lo. E muito particularmente entender que as forças armadas não podem chegar a um tal grau de achincalhamento e vazio que aquilo que delas o país sabe é que andam arrastando descontentamentos vários, uns certamente mais justificados que outros, por jantares de confraternização onde, entre duas garfadas de bacalhau espiritual, evocam os tempos em que tais encontros faziam tremer governos, e combinam futuros levantamentos de rancho.
*PÚBLICO

belo artigo! parabens!
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A minha claque está atrasada.
Ainda não tomou o pequeno-almoço.
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Helena,
Tanto assunto. Tanta coisa.
Começo pelo fim, a Europa jamais terá peso no mundo actual e futuro, se continuar a investir 3% do seu PIB nor orçamento militar. Bastou ver a vergonha da intervenção de Clinton na ex-Jugoslávia, “a cause” da inexistência de uma solução Europeia.
Mas, a Europa vive há mais de 60 anos, a paz. A paz garantida pelos Americanos. Estes têm múltiplas bases na Europa e são a guarda avançada da europa no Médio Oriente.
Lembra-se quando clinton não ligou a Timor. Por todo o mundo se exigia a intervenção Americana. Mas, quando os Americanos intervêm, são o Império mal amado.
Real politics. É terrível, mas a guerra voltará a uma Europa muito confortável assente no dinheiro acumulado. Há outras zonas do mundo que começam a ganhar força para quererem também vir a ter o conforto europeu. E aí, lá virá o desconforto.
Por cá, a tropa fandanga do Vasquinho Lourenço tem que comer e caler, pois se vierem para a rua, só se constiparão. Basta pensar, que seria apenas necessário cortar o fluxo de camiões em Vilar formoso durante uma semana, e lá voltaria o Vasquinho Lourenço ao seu aquartelamento.
Já nem na tropa, a malta está a salvo, mesmo tendo na mão as “canhotas” para fazer disparates….
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Sim, mas esses golpes deram-se porque os governos “civis” enfiaram sempre o país em buracos sem saída. Quer a 1ª república, quer o Estado Novo. A solução não era de facto a melhor, mas não sendo as instituições capazes de se reformar, que se podia fazer? Esperar que o Estado Novo continuasse a perpetuar-se indefinidamente? É o problema de termos uma sociedade civil muito fraca em relação ao estado.
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As forças armadas deviam mudar de missão. A missão seria actuação nas grandes catastrofes. Absolutamente mais nada.
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Vocês os descendentes dos cruzados, na porcalhota já não são precisos. Se recusarem lavrar a terra, tanta terra que vocês os tugas têem para lavrar (!) preferindo os bons ofícios do banco mundial contra a fome, venham até Kandhar iludidos que vão ganhar uns cobres que nós até os comemos.
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Vede o magnânimo exemplo do sargento Gomes, como vocação alternativa. Recolher as esmeraldas “abandonadas”, ainda que reclamadas pelos legítimos progenitores.
Entregai-lhes as crianças, senhores.
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não servem nem para desfilar na avenida.
o armistício da I Grande Guerra ocorreu noutra galáxia
desprezam e abandonam os vivos
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“As forças armadas deviam mudar de missão. A missão seria actuação nas grandes catastrofes. Absolutamente mais nada.”
Absolutamente de acordo! E, para se irem treinando, nada melhor do que provocarem grandes catástrofes aqui e ali…
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Pergunto-me, por vezes, se, em caso de conflito interno, as Forças policiais não conseguiriam neutralizar as Forças militares em poucas horas.
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“As forças armadas deviam mudar de missão. A missão seria actuação nas grandes catastrofes. Absolutamente mais nada.”
Absolutamente de acordo! E, para se irem treinando, nada melhor do que provocarem algumas grandes catástrofes, aqui e ali…
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“faltam ao almoço…”
Tipo greve de fome mas, sendo portugueses, basta faltar ao almoço para demonstrar como estão preparados para se sacrificar pela causa!…
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Vergonha mesmo foi o Estado Português ter esquecido a celebração dos 90 anos do Armisticio e a homenagem ao soldados do Corpo Expedicionário Português, arrebanhados à força em Portugal e atirados para as trincheiras da Flandres para satisfazer os interesses políticos e económicos de meia-dúzia e depois rapidamente esquecidos pelos mesmos políticos.
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É a chicada.
Ui, olha a chicória com fome.
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Tem razão em muita coisa, Helena, mas penso que a coisa é mais complexa do que as batatas a murro ( by the way, o almoço é considerado uma formatura, é obrigatório, pelo que a falta a ele é geralmente assumida como uma desobediência grave).
Nos últimos anos o poder político tem deixado decair o prestígio social da função militar.
Numa sociedade pacificada, é normal que se instale a ideia do excessivo custo dos militares cujo produto, “a segurança”, é algo vago e só se sente quando não se tem.
Isto não é novo. Salazar, no início do seu consulado, considerava os militares “parasitas sociais” e há mais de cem anos, Mouzinho escrevia uma carta ao rei falando-lhe dos “homens de vistas curtas” que em tempo de paz se não coibiam de lançar na cara dos militares o modesto pré que recebiam em troca de uma constante disponibilidade para o serviço da Pátria.
A relação do poder político com a instituição militar nunca é fácil. A segurança é uma função inalienável do Estado, desde o mais totalitário ao mais liberal, mas importa impedir a máquina militar de atravessar o Rubicão, usando a força que lhe é confiada para se sobrepor politicamente à sociedade civil da qual emana.
Nas sociedades democráticas mais antigas, os mecanismos de controlo sobre a máquina militar assentam na coincidência social das elites. Os chefes militares são figuras respeitadas e até os políticos precisam de luzir um passado militar relevante.
Ma em Portugal o poder político isola os militares da sociedade e trata a Instituição Militar como um cão de caça, deserdado de alguns direitos, mal alimentado, a quem acena com um bom naco de carne quando sai para caçar.
Exactamente o que fez Salazar.
Isto não é deliberado, acho eu.
Por detrás deste tipo de medidas esconde-se um condicionamento mental ainda refém do desbragamento da 1ª República, do caos pós-25 de Abril.
No fundo os nossos políticos continuam a não reconhecer aos militares uma genuína cultura democrática (apesar de, ironicamente, terem sido eles a fazer vingar a democracia em Portugal e procuram a sua castração política tornando-os eunucos sociais.
Como sabe, a Lei estabelece para os militares, um extenso rol de restrições que lhes retiram vários direitos fundamentais, mas esta situação de ímpar menoridade política, compreensível por razões de eficácia operacional, não é compensada sob o aspecto material.
Para além das inúmeras restrições legais, a organização militar exige ao seu profissional que dê a vida, se necessário for, em cumprimento de um contrato de trabalho.
Mais nenhuma profissão exige tal abdicação e as que admitem esse risco, assumem-no como contingência excepcional, a evitar pelos seus funcionários.
E contudo os militares, cultivando embora uma ética estóica, não são diferentes dos outros cidadãos.
Têm família, necessitam de educar os filhos. De os vestir. De os alimentar. De lhes proporcionar uma vida condigna.
Ao Estado incumbe, como monopolista e único cliente da força, reconhecer aos militares um estatuto de exclusividade, como faz relativamente a outras profissões e compensar a severa restrição de direitos e a obrigação de morrer em serviço, se quem manda entender necessário
Remunerando o desempenho de uma função tecnicamente exigente e na qual o resultado da incompetência é invariavelmente a morte do próprio e a dos cidadãos que dele dependem.
Contudo, ao longo dos últimos anos, relativamente a profissões tradicionalmente equiparadas, e reportando-nos apenas à remuneração, os militares têm vindo a ser vítimas de um contínuo deslizar para as mais baixas escalas sociais. Em 1979, um Juiz de Círculo tinha o mesmo ordenado base de um Coronel. Em 2008, o Magistrado aufere bastante mais do dobro.
Sabe, em Portugal, o militar é usualmente visto como um ser caricatural, autoritário, boçal, que gosta de andar na forma e cujo pensamento se limita ao trivial, não alçando voo por cima dos muros dos quartéis.
Esta tradição “bem pensante” não radica em nada de concreto, mas sim no facto bem mais prosaico de a grande maioria dos nossos políticos e fazedores de opinião, nunca terem sequer contactado com a Instituição Militar (ao contrário do que se passa nos países anglo-saxónicos) tecendo sobre ela juízos apressados e consolidados no intervalo da bica, do alto de uma prosápia babosante que parte da presunção de inquestionável superioridade intelectual e cultural
Em Portugal considera-se tranquilamente que o facto de um militar poder ocupar um importante cargo político, é um retrocesso histórico e que o “progresso” está no inverso.
E contudo este é um país de soldados e os soldados têm-se notabilizado em todos os sectores da vida nacional, que não apenas na execução das suas tarefas fundamentais. Desde Afonso Henriques a Correia Barreto, figuras como Caldas Xavier, Manuel Maia (engenheiro do Aqueduto das Águas Livres), Roberto Ivens, Norton de Matos, Elias Garcia, Freire de Andrade, Gago Coutinho, etc., são exemplos conhecidos de militares a quem a História reconhece a imortalidade.
Não creio que haja agora o perigo de golpes militares, a não ser que haja um cataclismo social. Mas não são de excluir acções individuais de pessoas que, uma vez libertas dos escrúpulos éticos, têm konw how para prosseguirem os seus interesses de uma forma que prejudique outrem.
Tudo isto acompanhado por uma cada vez menor apelatividade da profissão militar, que tenderá a não atrair pessoas de nível, esvaziando-se cada vez mais e acabando a prazo, nas mãos de medíocres e invertebrados morais
E a força nas mãos de gente desta é perigosa….muito perigosa.
Mas é para aí que estamos a caminhar.
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Vivemos hoje com o medo pavoroso de que um militar morra em combate e, por isso, vamos para o Afeganistão ocupar zonas de baixo risco enquanto outros dão o coiro e o cabelo, estamos na Bósnia onde nada se passa, para o Líbano vão engenheiros, não vá o diabo tecê-las, ai Jesus que me posso magoar…
… em Portugal, na Mátria, morrem mais polícias em combate com bandidos do que militares morreram em mais de 12 anos de intervenções no pós 25 de Abril. Que raio de coisa é esta? Não seria melhor enviar polícias combater em Kandahar?
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Este é um óptimo artigo publicado no Público.
As nossas Forças Armadas estão a viver o mesmo sentimento do do filho bastardo. Têm dificuldade em acompanhar a evolução dos tempos. Do ponto de vista histórico, assistimos a um virar de página, em que passou a existir um novo paradigma quanto à definição de forças policiais, inserido no novo modelo securitário recentemente posto em prática pelo governo, e do qual os operativos militares não fazem necessariamente parte.
Com a abolição das fronteiras, deixou de fazer sentido a existência de um corpo militar operacional nos termos do existente de há três décadas atrás. Hoje, as ameaças à integridade territorial de cada país são levadas a cabo de uma forma localizada e cirúrgica, pelo que se torna necessária a existência de forças policiais especializadas, devidamente treinadas para o efeito, e, em que a utilisação da “artilharia pesada” deixou de se apresentar como solução.
Numa outra vertente da análise do problema, aceito e defendo, contudo, a criação de uma força militar conjunta (na verdadeira acepção da palavra), integrando os vários países da UE.
Pareceu-me, portanto, bastante descabida a intervenção feita pelo Gen. Loureiro dos Santos, na qualidade de porta-voz dos militares, sobretudo porque o tenho na conta de um cidadão sensato, responsável e informado – já li quase todos os seus livros sobre geo-política internacional -, não tendo, realmente, compreendido esta sua “tirada” bastante infeliz.
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“MAL ESTAR MILITAR”
A)Fruto da simpatia dos governos das últimas décadas, as corporações foram sendo brindadas com sucessivas melhorias sociais através de numerosa legislação.
Umas mais do que outras, conforme pressões sindicais (educação e saúde), pessoais (justiça, em 1990/91)ou outras (os militares viram os salários melhorados com Jaime Gama na Defesa)
Mal-estar militar: há de facto toda uma série de legislação por cumprir; Castro Caldas (MDN de Guterres, jurista), teve o desplante de por despacho pessoal, suspender o pagamento de um suplemento re reforma contido na lei (Estado de direito?)
B)Porque não há dinheiro (para tudo):
b.1)Reforma das FA
«O Chefe de Estado-Maior da Defesa, único general de 4 estrelas, é o responsável pelo comando, controlo e administração das FA do Canadá (quatro generais em Portugal); todas as ordens e instruções para as FA têm de ser processadas através do CEMD; as estruturas de comando dos ramos desapareceram e associaram-se no Quartel-General do departamento de Defesa Nacional; as funções desenvolvidas pelo EM de cada ramo foram divididas pelos escalões subordinados e escalão superior.
Concentraram num único edifício o MDN, o CEMD e os Comandos dos três Ramos; encerraram Academias Militares, reduzidas a uma; concentraram todos os helicópteros na Força Aérea, deslocando-se por períodos determinados para o Exército (em Portugal, investe-se numa aviação do Exército!); concentraram as unidades de instrução e de recrutamento».
Em Portugal: o Estado Maior da Defesa, constante no programa do XVII Governo Constitucional, ficou esquecido.
b.2)80 milhões de euros por 400 toneladas de sucata:
Nada menos do que o que o Estado, o governo (do PS, se fosse PSD seria igual) vai pagar à Holanda: 80 milhões por 37 tanques blindados, excedentários da Guerra-Fria e da Holanda (Leopard alemães, anos 70); agora que as FA acabam de ser dotadas de 280 Pandur (blindados de rodas, dos anos 90), destinados a quê?
Ser mostrados em dias VIP de alguns exercícios/manobras de treino, em Santa Margarida. Em reduzido número, uma vez que não só não vai haver dinheiro para os manter como para os abastecer de combustíveis e munições. Destinados a ficar parados e inúteis, porquê?
Ainda por cima agora, que já nem há siderurgia em Portugal, para dentro de poucos anos dar destino a este desperdício.
Porque satisfaz o estatuto e o ego dos chefes do exército?
Porque dá jeito ao MDN, accionar de vez em quando negócios deste tipo?
Negócios da Defesa? culpa dos militares?
Ou uma, mais uma legislatura falhada?
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Os políticos não gostam dos militares e os civis, pelos vistos, também não. Podiam então juntar-se e acabarem com eles de vez. Entretanto, podiam respeitar as regras do jogo e não andarem a depená-los enquanto não decidirem isso. O seu poder de compra tem decrescido significativamente desde há muitos anos e os políticos não ignoram essa situação. Os reformados miltares tiveram que cumprir 36 anos de serviço antes de atingirem essa situação, enquanto os políticos auto-premiaram-se obtendo essa mesma reforma com apenas 12 anos. A maioria dos militares reformados serviram em condições muito duras, sem horários, sem ganharem horas extraordinárias e, muitos anos, privados de férias, para agora se verem nivelados, em termos de saúde, com os cidadãos que cumpriram o seu serviço em escritórios em situação de menos stress (ADM = ADSE).
A paz só se consegue pela dissuação e a Europa não pode depender eternamente dos EEUU para a sua defesa. A Georgia não teria sido invadida se tivesse forças equilibradas com a Rússia. As nossas águas têm que ser fiscalizadas em defesa dos recursos pesqueiros, da emigração ilegal e da entrada de droga, o que já está a ser feito com muita dificuldade dada a escassez de meios. A entrada de droga na Europa está a ocorrer, principalmente, por Portugal e Espanha. Mas também têm um papel importante nos salvamentos no mar, quer acudindo a naufrágios, quer assistindo a doentes embarcados. A frota de aviões privados que transporta os nossos políticos por todo o mundo é operada por militares.
As escolas militares, mormente quando o serviço militar foi obrigatório, foi uma escola de cidadãos responsáveis e disciplinados, apoiando-os numa altura crítica das suas vidas, especialmente aos oriundos de classes mais baixas, a maioria saindo de lá com aptidão para entrarem no mercado do trabalho. Ainda hoje se anunciam reuniões anuais desta gente que recorda a sua passagem pela tropa com satisfação. Depois do 25A creio que, dado o andamento relativo do nosso País face aos parceiros comunitários, temos menos motivos de orgulho – ou devíamos ter – nos políticos que nos têm conduzido a essa situação, do que nos militares que nos serviram e continuam a servir. A situação da justiça, da saúde, da educação e do acentual da desigualdade social em que vivemos, também não pode ser atribuída aos militares. Se é preciso apontar culpados há que os identificar primeiro. Os militares não podem ser bodes expiatórios nem recebem lições de idoniedade de ninguém.
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Leia-se: idoneidade. Desculpas.
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…nem recebem lições de….
Militar que quer ser respeitado tem de sofrer, sangrar pela Pátria, morrer por ela. Não pode andar por sítios onde todos sabem que são o que não deveriam ser, ou seja, polícias, controladores de multidões, construtores de bunkers, etc..
Não podem, por fim, fazer manifs por causa da conta das análises à urina ou mandar generais reformados dar recados na televisão. Respeitem-se.
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F. Teixeira:
deve estar a confundir os militares com os cavalos da Guarda Republicana…
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E pela amostra na tal jantarada….. eram cavalos bem velhos.
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Pedro C.:
A obrigação dos cavaleiros da Guarda é tratar primeiro dos cavalos e, só depois, tratarem de si. Os civis não percebem isto nem nunca perceberão.
Fique bem.
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No post 18, o Jb afirma que este governo irá pagar “80 milhões por 37 tanques blindados, excedentários da Guerra-Fria e da Holanda (Leopard alemães, anos 70)”, o que não corresponde EM NADA à verdade. O modelo do Leopard em causa é o Leopard 2 A6, que apesar de ter origem num projecto de finais dos anos 70, surgiu na década de 90, e que tem sofrido várias renovações (o mesmo acontece com o principal Main Battle Tank dos EUA, o Abrams). Trata-se daquele que é considerado pela maioria dos especialistas em armamento como o melhor MBT do mundo e que equipa os exércitos da Espanha, Suécia, Alemanha, Holanda, Canadá (que agora vai comprar mais modelos iguais aos de Portugal, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suíça, Turquia, etc, etc. Resumindo, exceptuando a Inglaterra, a França e a Itália (que possuem programas próprios de MBT) toda a União Europeia utiliza o Leopard 2, desde as variantes A4 até ao mais moderno A6. A Holanda vendeu-os porque tinham material excedentário, tão somente isso.
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Para mais informações sobre a evolução do modelo Leopard 2 A6, basta ver: http://www.fprado.com/armorsite/leo2.htm.
Obviamente, a chegada dos Leopard 2 A6 a Portugal traduziu-se numa verdadeira revolução para a arma da Cavalaria, que até agora usava material americano dos anos 50/60. O JB afirma ainda a função desse novo material irá será a de “Ser mostrados em dias VIP de alguns exercícios/manobras de treino, em Santa Margarida. Em reduzido número, uma vez que não só não vai haver dinheiro para os manter como para os abastecer de combustíveis e munições. Destinados a ficar parados e inúteis, porquê?”. Duvido que os Pandur sejam inúteis: os nossos militares estão em missões no estrangeiro com Chaimites e Humvees que não oferecem qualquer segurança aos seus ocupantes. O elevado número de Pandur’s prende-se ainda com um redireccionamento da estratégia do Exército Português: cada vez maior número de veículos com rodas e menor número de veículos com lagartas: daí apenas os 30 e tal Leo’s (os M60 americanos irão ser todos retirados do serviço: de 100 M60’s paassaremos para 37 Leo’s) e os 200 Pandur’s, melhor adaptados ao terreno português.
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Caro JB, isto parece-lhe “sucata”: http://www.army-technology.com/projects/leopard/images/leop113.jpg ?
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Só para terminar: http://www.armyrecognition.com/europe/Tchecoslovaquie/Bhana/Bhana_2002_Pictures_Gallery/images/Leopard_2A6_Germany_Bhana_2002_01.jpg
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http://vouguinha.blogspot.com/2008/11/descontentamento-nas-f.html
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“A paz só se consegue pela dissuação e a Europa não pode depender eternamente dos EEUU para a sua defesa”
Sábias palavras.
Mas a Europa não ouve e basta ler o que escrevem alguns comentaristas para perceber porquê.
Por aqui somos olímpicos, pensamos que a paz é eterna, gratuita e inesgotável, e nem por um momento nos passa pela cabeça que podemos ser devolvidos rapidamente ao mundo autêntico, terrível e imprevisível, onde tudo é possível, porque os bárbaros estão sempre à porta!
É esta a Europa olímpica que perdeu o contacto com a realidade.
Recusa-se a acreditar em ameaças e inimigos . É esta Europa que se quer pós-histórica, mas e por isso esconde a cabeça na areia, para disfarçar o medo.
Medo da globalização, do terrorismo, da mudança climática, da Rússia, da América, do Irão, de mudar, de exercitar os músculos, de falar, de ter de se defender, de nomear os seus inimigos. Medo de tudo, menos daquilo de que deveria ter muito medo: de si própria e do seu olimpismo. Como dizia Kagan, lá pela América são de Marte ( deus da guerra). Aqui somos de Vénus, mas a verdade é que as Sabinas foram sempre raptadas.
.
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E para provar que isto é um assunto requentado, aqui vai um excerto da carta que Mouzinho de Albuquerque enviou ao Rei D. Carlos:
«Umas casas existem no nosso reino,onde homens vivem em comum, comendo do mesmo alimento, dormindo em leitos iguais. De manhã, a um toque de corneta se levantam para obedecer, de noite,a outro toque de corneta se deitam, obedecendo. Da vontade fizeram renúncia, como da vida. ..[..].A gente conhece-os por militares…
Corações mesquinhos lançam-lhe em rosto o pão que comem, como se os cobres do pré pudessem pagar a Liberdade e a Vida! Publicistas de vista curta, acham-nos caros de mais, como se alguma coisa houvesse mais cara que a servidão. Eles,porém, calados, continuam guardando a Nação do estrangeiro e de si mesma. Pelo preço da sua sujeição eles compram Liberdade para todos, e a defendem da invasão estranha e do jugo das paixões. Se a força das coisas os impede agora de fazer, em rigor, tudo isto, algum dia o fizeram, algum dia o farão. E desde hoje, é como se o fizessem. Porque, por definição, o homem de guerra é nobre. E quando se põe em marcha, à sua esquerda vai a coragem à sua direita a disciplina.»
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Acabemos com o mal pela raíz!
Extinção das forças armadas!
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“O exercício do poder, implica violência”
Eduardo Lourenço in Esplendor do Caos.
Muito embora, hodiernamente, não sintamos essa violência que é mitigada pela propaganda em torno de ideias-força que proclamam grandes princípios, como a igualdade, a fraternidade, a liberdade, os direitos humanos…etc….com o qual os poderosos pretendem esconder as suas cobiças, a realidade é que o poder se exerce e consequentemente a violência subsiste.
Não podemos ficar desarmados perante o poder que nos quer cordeiros para mais facilmente poder recoletar as mais valias que todos produzimos particularmente.
As Forças Armadas são esse garante que nos resta. São homens que pensam e que nascem no seio do povo que somos. Nas forças Armadas não existem elítes por princípio.Todos devem atingir o objectivo ao mesmo tempo (princípio da massa, um dos princípios da guerra)
Pois…, hoje já não se pode falar em guerra….apenas operações de paz e humanitárias…guerra é um termo bárbaro e vetusto …mas que existe ….
existe…por mais que a mascarem com os panos brancos da paz.
Os suburbanos por detrás da suas gavetas de betão, fazem como o positivista do Conte….como não vêem a guerra ….a guerra na existe.
Mas como inicialmente, referi….o exercício do poder implica sempre violência….façam as abstrações que fizerem.
Estado Policial?!!!…Os poderosos não vão nisso…as deontologias são significativamente diferentes entre esses corpos do estado.
Já não seria a primeira vez na história que seria necessário desarma-las (as forças de segurança) para evitar os corpos pretorianos.
Para a Nanda Valente…o edifício é este….primeiro o Modelo geográfico ao interesse de uma determinada entidade política da cena internacional (agora sistema)…é a Geopolítica.
A concretização desse modelo político é a Geoestratégia….por sua vez a realização desta é conseguida pela Estratégia (estratégias sectoriais …Económica, Cultural, Diplomática….e como última rácio…a Estratégia militar…..para atingir os objectivos políticos)
É este, por grosso, o edifício da concorrência política das potências.
E olhe… desculpe ser tão pormenorizado na explicação.
cumps
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