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O género sexual e literário das empresas públicas*

6 Março, 2009

ou relação fabulosa das novidades deste  reino onde os funcionários dos CTT vendem lotaria pelas ruas, uma empresa que devia tratar das linhas férreas investe (com prejuízo) na construção civil e outra que trata das estradas descobre ao fim de 70 anos e após ter construído umas belas instalações que o terreno não é seu:

Primeiro supus que fosse um acaso de adesão à novilíngua das questões fracturantes e as empresas públicas portuguesas tivessem adoptado, no seu dia a dia, a definição que a Rede Ex Aequo, que se apresenta como “uma associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes com idades compreendidas entre os 16 e os 30 anos” dá daqueles que define como Transgénero – «alguém que não corresponde às “caixinhas” tradicionais dos géneros. No quadro português, são todas as pessoas que não se comportam como o “homem” ou a “mulher” que se esperaria que fossem (em função do seu aparelho reprodutor)». Dir-se-á que as empresas ao contrário das pessoas não têm aparelho reprodutor. Ora isso não é verdade. As empresas deviam (re)produzir riqueza logo a reprodução não lhes é alheia e no caso das empresas públicas portuguesas fazem tudo menos aquilo que se esperaria que fizessem. Donde o transgénero. Por exemplo, a REFER que foi criada em 1997 com a finalidade de cuidar da infraestrutura necessária à circulação ferroviária – vulgo combóios da CP – descobriu em si mesma uma vocação imobiliária. Ou se se preferir o linguarejar da Rede Ex Aequo empreendeu em não corresponder “às “caixinhas” tradicionais” duma empresa de ferrovia, passando a investir na construção civil, criando para tal uma empresa própria, a INVESFER. Para cúmulo do desacerto também neste negócio resolveu a ‘REFER transgénero INVESFER’ inovar não correspondendo às expectativas e assim ao contrário do que é hábito no país, não só não ganhou dinheiro com os negócio imobiliários como perdeu. Contas de 2008 apontam para um prejuízo da REFER de 162,8 milhões de euros e com um total de capital próprio negativo de 973,7 milhões. Contudo parece-me que considerar transgénero estas empresas públicas por ser ofensivo para os transgénero pessoas propriamente ditos que a fazer fé nas associações que dizem representá-los apenas não se comportam em função do seu aparelho reprodutor mas, tanto quanto se sabe ou eu sei, nada têm contra a reprodução em si mesma. Por outro lado essa aspiração a ser outro, esse conflito do eu consigo mesmo adquire em algumas empresas públicas uma dimensão poética que o conceito de transgénero não engloba. Coisa que claramente percebi ao ser confrontada com funcionários dos CTT, aos pares vendendo bilhetes de lotaria pelas ruas. Esta passagem de funcionários a vendedores ambulantes é um novo caso de heteronímia até agora sem poesia mas estou em crer que não falta muito para que estes novéis cauteleiros também lancem as suas décimas. Os CTT, eles mesmos, um dia sonham-se Álvaro de Campos, compõem odes futuristas e anunciam o Via CTT, uma caixa de correio virtual para milhões de portugueses mas que poucos milhares utilizam. No outro criam uma rede móvel designada como phone-ix, coisa que terei de investigar melhor como articular com o universo pessoano e sobretudo com o universo dos outros operadores, nomeadamente da TMN. Mas o que me fascina verdadeiramente é aquele outra identidade que tomou conta dos funcionários dos CTT e os faz deambular fardados, de porta em porta, carregando uns sacos donde fazem sair livros, selos e, poética ironia que Caeiro não desdinharia, também a Sorte Grande. Assim já disposta a aceitar esta explicação dos factos e preparando-me até para recomendar a leitura de “Fazer pela vida, um retrato de Fernando Pessoa o empreendedor” de Mega Ferreira, eis que deparo com o artigo que José António Cerejo dedicou no PÚBLICO  ao caso do edifício que a empresa pública Estradas de Portugal descobriu não lhe pertencer após ter feito obras no valor de 1,5 milhões de euros. Como é que a Estradas de Portugal (EP) só agora deu por isso? E o proprietário desconhecia ser proprietário daquele belo terreno em Queluz onde a EP construiu a sua sede? E eis que tendo vivido o proprietário e o ocupante sete décadas nesta bendita e mútua ignorância, descobre agora a Estradas de Portugal que afinal aquele terreno não é seu e logo parte para novo poiso desta vez em Almada? Pelas alminhas se espera que desta vez a Estradas de Portugal saiba o que é seu e o que não é pois existe a forte possibilidade dum descendente dos antigos senhores daquela localidade, sejam eles os árabes ou os Cavaleiros de Santiago, virem a reivindicar a posse do terreno. À cautela eu instalava a empresa numa roulotte. Mas não acabam aqui as descobertas. Para cúmulo coloca-se a hipótese do terreno de que tão pressurosamente a Estradas de Portugal se quer agora desembaraçar ser propriedade do Ministério da Defesa, integrando, por feliz coincidência, a recente lista das propriedades militares “disponibilizadas para rentabilização”. Aqui chegada fechei o Pessoa e esgotei a poesia. Só me resta o Padre António Vieira. Não o da História do Futuro. Mas sim ao dos sermões. Afinal o que Vieira pregou em 1655 tornou-se a nossa maldição.

*PÚBLICO

4 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    honni soit qui mal y pense permalink
    6 Março, 2009 11:57

    GRANDE VENDA DE PATRIMÓNIO DO ESTADO.

    VENHA AO BAZAR .HÁ DE TUDO .

    HÁ QUE DAR AOS BUSINESSES DO TÔRISMO

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  2. Desconhecida's avatar
    José permalink
    6 Março, 2009 11:59

    Atrever-me-ia a escrever que um dos mais sérios probemas de corrupção, de vária ordem- institucional, moral, empresaria, e até penal (o caso dos CTT de Coimbra é suspeito disso)- passam por esta nebulosa das ep´s.

    Estas ep´s são um viveiro de incompententes profissionais, porque as contas o mostram. Mas não basta afirmar isto, porque não há nenhuma consequência prática, por um simples motivo: quem manda nas ep´s é o seu proprietário: todos nós. Mas todos passamos uma procuração, com um cheque em branco, ao primeiro que aparece a mandar no Governo.

    Daí que a responsabilidade destes desmandos seja de todos, em primeiro lugar. O que é o caminho mais curto para se dizer que não é de ninguém. É esse o maior drama do socialismo, mesmo o democrático e que não resolve esse paradoxo: o que é de todos, passar a ser efectivamente só de alguns…

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  3. zedeportugal's avatar
    6 Março, 2009 12:15

    A minh’ alma está parva, como soi dizer-se! Não sabia dessa novel actividade dos ultra-flexíveis funcionários dos CTT e muito menos sabia dessa… como dizer? – extraordinária, digo, espantosa, digo incrível, é isso, incrível associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes com idades compreendidas entre os 16 e os 30 anos em Portugal. O que acontece a toda(!) essa gente quando , subitamente, injustamente, passa dos 30 anos de idade? Temos que apoiar a constituição, rapidamente, de uma associação de velhas lésbicas, “bixas”, bi-sexuais, transgenéricos e simpatizantes (simpatizantes?) com idades compreendidas entre os 31 e… sei lá! – os 69?
    Isto já não é surrealista, isto é apocalíptico!
    Parabéns pelo artigo.

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  4. Desconhecida's avatar
    O puto novo no bairro permalink
    6 Março, 2009 14:30

    Bom artigo, com ironia e informação culta. Carry on!

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