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Na morte de Lemos Pires

23 Maio, 2009

Os portugueses descolonizaram como colonizaram: atabalhoadamente e com verdadeiro espírito colonial. Em 1975, donos que nos tínhamos achado das colónias, declarámo-nos interessados em trespassá-las a quem apresentasse um projecto ideológico, devidamente sancionado como progressista pelas autoridades que então mandavam ou julgavam que mandavam na Metrópole.
Mas por Timor, definido em Agosto de 1974 por Almeida Santos como “um grande transatlântico imóvel que nos custa muito dinheiro”, nem os satélites da URSS nem dos EUA pareciam dispostos a mover-se. A própria Indonésia, para desconcerto de Lisboa, não parecia interessada em Timor.
Em Lisboa fala-se claramente do “desinteresse” da Indonésia por Timor. Porque se algo resulta claro das declarações dos descolonizadores é a convicção inicial de que a melhor solução para Timor seria a integração na Indonésia: “Eu, francamente, não gostaria de que o saldo do nosso império colonial viesse a ser apenas uma permanência na Indonésia, ocupando metade da ilha de Timor”, conclui em Agosto de 1974 Almeida Santos, numa entrevista ao Expresso.
Pouco depois de fazer estas declarações o ministro viajou para Timor onde a ele tal como aos outros que lhe repetem o périplo libertador, por Díli, Luanda ou Lourenço Marques, se vai tornando evidente que a realidade não se compadecia com a meia dúzia de boas intenções que traziam alinhadas sobre a descolonização e o nascimento radioso de
novas pátrias.
Desgraçadamente a falta de preparação da geração dos descolonizadores era ainda maior que a dos colonizadores, com a agravante para os descolonizadores que não só não dispunham dum servil aparelho de Estado como se confrontavam com um calendário político a que a cada dia que passava parecia que mãos febris arrancavam páginas.
Menos de um ano após as declarações de Almeida Santos a situação alterara-se radicalmente. Timor já não era “um grande transatlântico imóvel” mas sim um território onde os diversos movimentos combatiam ferozmente entre si. Donde partiam as famílias dos pouquíssimos militares e funcionários portugueses que se encontravam destacados no território. E donde um governador à beira do desespero enviava apelos para Lisboa onde nem sequer sabia se alguém os lia ou ouvia: “Isto é um SOS: Estou cansado de ver pessoas a morrer”, avisa a 24 de Agosto o governador Lemos Pires. Fala de mulheres e crianças assassinadas. De refugiados bombardeados pela Fretilin no porto de Díli. E diz também que aguarda a chegada duma delegação de Lisboa com plenos poderes.
No dia seguinte Lemos Pires lança um ultimato: “Só poderei aguentar-me até amanhã.”
Em Belém, a Comissão de Descolonização reúne-se de emergência quem sabe olhando desconcertada para os velhos mapas do império e não percebendo, tal como outros, naquele mesmo local, não tinham percebido antes deles, que brincar aos países tem custos inimagináveis.
Por esta altura, Agosto de 1975, em Belém já se sabia que a Indonésia se mostrava interessada. E que de Lisboa podiam sair delegações mas os plenos poderes esses já não existiam.
Em Dezembro desse mesmo ano o interesse da Indonésia manifestava-se sob a forma de ocupação. Portugal encontrara finalmente o seu ditador conveniente: Suharto. O homem a quem finalmente, numa espécie de frenesi e alívio patrióticos, todos os portugueses podiam odiar e condenar.

31 comentários leave one →
  1. Piscoiso's avatar
    23 Maio, 2009 14:35

    Se vc. é historiadora, eu sou a manuela moura guedes.

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  2. olen's avatar
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    23 Maio, 2009 15:28

    O PIDECOISO é só uma ratazana do esgoto que atravessa o aterro da Cova da Beira.

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  3. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    23 Maio, 2009 15:28

    que é que percebo disso?
    santa ignorancia

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  4. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    23 Maio, 2009 15:28

    Há pessoas que inventam o que não sabem e falam sobre tudo.

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  5. Piscoiso's avatar
    23 Maio, 2009 15:32

    E trazem a claque (#2.Olen) oleada.

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  6. olen's avatar
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    23 Maio, 2009 15:54

    O Santos e o Mário deviam ser julgados por alta traição e genocídio.

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  7. xanana's avatar
    xanana permalink
    23 Maio, 2009 16:01

    Muito bem oleado ficou o Almeida Santos…

    Aliás, quem terá assassinado mais timorenses: os indonésios ou os muchachos do Xanana + os muchachos que estavam contra o Xanana ?

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  8. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    23 Maio, 2009 16:31

    Muito triste. Os ignorantes do Estado Novo foram substituídos pelos os oportunistas de esquerda e claro sucederam-se os massacres em Timor e por quase todas as ex-colónias.

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  9. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    23 Maio, 2009 16:41

    #8 – um ignorante orgulhoso.

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  10. Gonçalo Marques's avatar
    23 Maio, 2009 16:54

    Como foi possível ter Almeida Santos como 2ª figura do Estado Português (Presidente da Assembleia da República)?

    Como é possível que Mário Soares não se sinta envergonhado com a vergonhosa descolonização feita por Portugal?

    Como é possível reconhecer “importância” a Otelo Saraiva de Carvalho, a Rosa Coutinho e a tantas figuras que apareceram na nossa “história” contemporânea por acaso – e por um péssimo acaso?

    Como é possível que grandes homens como Sá Carneiro, Amaro da Costa, Pinheiro de Azevedo, entre muitos outros tenham desparecido tão cedo e tenham deixado órfão de brilhantismo um país que, com o seu contributo, seria hoje bem melhor …

    É um fartar vilanagem …

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  11. LUSITÂNEA's avatar
    LUSITÂNEA permalink
    23 Maio, 2009 18:12

    Se lerem com atenção os jornais portugueses até 25 Novembro de 1975 pouco encontram acerca das colónias.E reparem o 25 de Novembro deu-se precisamente após as últimas independências.
    A esquerda portuguesa doutrinou os jovens nas universidades acerca dos malefícios da “colonização”(como aliás endoutrinou os próprios chefes dos movimentos de libertação).Havia 100000 desertores.Que por acaso desertavam mais de o teatro fosse por exemplo a Guiné e muito menos se fosse outra qualquer.O que demonstra a “convicção” na luta contra o colonialismo.Se lerem ainda o programa do MFA lá está previsto “ouvir os povos” o que pressupõe diálogo, esclarecimento, eleições.Imaginem quem na altura abominava “eleições.O Mario “fez” entrar até no governo o PCP e o facto é que o programa do MFA não foi cumprido.Porque é bom relembrar houva a fase do “nem mais um soldado para as colónias”, mesmo quando se procurava acabar com a guerra, fazer a paz.A ausência de rendição de unidades militares “desfez” a disciplina no Ultramar.É que convém relembrar que para os 200000 soldados em armas havia uma dúzia de alferes do QP em 1974.Portanto o enquadramento das tropas era quase todo miliciano.Daí e por causa da bandalheira instalada na “metrópole”(devidamente organizada como convinha aos chicos espertos da esquerda) o desastre se não foi palneado anda por lá muito próximo.O que ninguém pode desmentir é que aquilo tudo foi entregue sem elições aos marxistas formados em Lisboa.Que foram aliás muito humanistas para os “colonos brancos” que expulsaram e sem bens.Com a benção mais uma vez da esquerda cá do burgo.Analise-se a imprensa da época e veja-se como eles aqui eram também tratados.De forma cobarde e traidora.Mas vejam como agora os mesmos nos inundam de africanos a quem dão a nacionalidade e deixam cá vir “nascer” para serem logo “portugueses”.Se alguém fizesse um levantamento dos ex-guerrilheiro que por aí andam a viver á nossa conta ficavam espantados.O pobre portuga sempre a ser traido pelos “esclarecidos” dirigentes que só na arte do roubo são mestres…
    A divisão da tropa em Timor acelerou o desastre e ao que sei o Governador não quiz assumir responsabilidades “repressivas” que ao que me disseram tinham “reposto” a situação.

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    • José Luís Fernandes (homónimo do soldado falecido em 18 de Agosto de 1972 no Cuando-Cubango)'s avatar
      José Luís Fernandes (homónimo do soldado falecido em 18 de Agosto de 1972 no Cuando-Cubango) permalink
      18 Outubro, 2013 15:48

      Tanto o seu texto como o da Helena Matos está cheio de meias verdades como convém. Eu só lhe pergunto: o que fez o senhor e os governos que precederam o 25 de Abril de 1974 pela descolonização, como o fizeram as outras potências coloniais europeias depois da 2ª guerra mundial e como preconizava a carta das Nações Unidas?
      Atirar-nos areia para os olhos é fácil, difícil foi para quem teve de aguentar 13 anos de guerra colonial, durante os quais se poderiam ter encontrado soluções, que a cegueira do governo de então e de pessoas como o senhor não quiseram.

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  12. LUSITÂNEA's avatar
    LUSITÂNEA permalink
    23 Maio, 2009 18:26

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  13. LUSITÂNEA's avatar
    LUSITÂNEA permalink
    23 Maio, 2009 18:30

    Os autores do desastre da descolonização, não satisfeitos, andam agora na fase da “colonização” do rectângulo.Nas colónias branco foi corrido e sem bens com o aplauso da esquerda da casa.Mas agora prendem quem “FALAR” e seja contra a “colonização africana”.Que é paga por todos.Agora, apesar de nos custarem os olhos da cara, são uma “riqueza”.Isso e as despesas que o ex ainda nos custa dá que pensar não é?Tudo feito pelos mesmos…

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  14. JJ Pereira's avatar
    JJ Pereira permalink
    23 Maio, 2009 18:33

    Adam Malik , em Roma,pedira expressamente a Melo Antunes que Portugal não abandonasse Timor, pois isso equivaleria a entregar o território aos comunistas , coisa que o seu governo nunca aceitaria.
    Sabemos o que se passou depois – um dos maiores crimes da “debandada exemplar”,toda ela uma das mais vergonhosas páginas da História de Portugal.
    E alguns dos seus autores ainda sobrevivem, contentinhos,anfados e despreocupados,por aí …

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  15. g.fm's avatar
    g.fm permalink
    23 Maio, 2009 18:55

    “…ditador conveniente: Suharto. O homem a quem finalmente, numa espécie de frenesi e alívio patrióticos, todos os portugueses podiam odiar e condenar.”

    Mas a História não ficou por aqui e depois de algumas tentativas por parte dos governos de Cavaco Silva com Durão Barroso a ministro dos Negócios Estrangeiros, que não deram em nada, finalmente lá apareceu o Guterres que, vá lá saber-se como e porquê, conseguiu devolver Timor aos timorenses. Não sei se alívio, mas satisfação foi o que na altura sentiram todos os portugueses. Digo eu.

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  16. LUSITÂNEA's avatar
    LUSITÂNEA permalink
    23 Maio, 2009 19:09

    O programa do MFA previa relativamente ao Ultramar que fossem os povos ouvidos em eleições.Mas uma simples semana depois do 25 já era pedida “carta branca” na reunião da MM para que o Mario fizesse o mais conveniente…
    O descalabro foi planeado.Lembram-se do “nem mais um soldado para as colónias”?Quando se tratava de substituir unidades militares?
    Agora imaginem os que estavam á espera , cumprido o seu tempo, e não ia ninguém… isto aliado a que o “comando” era quase 100% miliciano.Em 1974 para 200000 soldados havia do QP uma vintena de alferes do QP…
    Os milicianos doutrinados pela esquerda nas universidades apenas viram a “abertura” irromperam pela brecha…
    Agora leiam os jornais da “metrópole até ao 25 Nov 75 e verão quais as preocupações que o Ultramar lá tinha… tudo palneado.
    Até o golpe do 25 Nov foi depois da última independência…
    Bem morreu o Lopes Pires.Era do ex-corpo do estado maior.Que fazia “cortiças”.Ao que me disse um amigo se ele em devido tempo assumisse a responsabilidade da ordem um simples pelotão resolvia aquilo tudo…
    Não deu e fugiu para Ataúro deixando vários oficiais espalhados pelo território e mais tarde feitos prisioneiros pelos indonésios.Com os timorenses a matar um tencor O Magiolo, chefe da polícia e a matarem-se entre si…
    Agora a nova fase é da “nossa” colonização interna.Já despontam as consequências.mas aguardem uns tempinhos mais para ver no que vai dar…

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  17. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    23 Maio, 2009 21:12

    #8 – um ignorante orgulhoso.

    Se a Esquerda(Portuguesa e Africana) tivesse tido o minímo de responsabilidade não teriam morrido mais de 1 milhão de pessoas. Mas para estabelecer o Socialismo tudo vale.

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  18. Desconhecida's avatar
    -pirata-vermelho- permalink
    23 Maio, 2009 22:13

    Mnina Helena,
    qu’ingenuidade!

    (…ou pressupõe destinatário estrito?)

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  19. Desconhecida's avatar
    Kolchak permalink
    23 Maio, 2009 22:59

    A descolonização portuguesa foi, sem qualquer dúvida, o momento mais vergonhoso da História de um Pais com quase 9 séculos de vida. Um escândalo inimaginável para os Portugueses: da Europa e do Ultramar.
    Lemos Pires pode ter sido um militar distinto, mas tudo se perdeu no dia em fugiu cobardemente para Ataúro. Resumiu a sua carreira e a nossa descolonização:

    TRAIÇÃO À PÁTRIA!

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  20. Desconhecida's avatar
    sadfasdg permalink
    24 Maio, 2009 00:31

    A HM é a MMG dos historiadores.

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  21. o sátiro's avatar
    24 Maio, 2009 03:57

    em Timor nunca houve desejo de separação de Portugal. Contra o Japão, na II guerra, foi um povo heróico! A. Santos chegou a dizer k era o local com mais amor à nossa bandeira. Foram os criminosos do MFA-PCP e afins quem instilou o ódio k acabou com a paz em Timor! Toda a “descolonização exemplar” assassinou largas dezenas de milhares. Os responsáveis de ambos lados (incluindo URSS, RDA, CUBA…) deviam estar presos por crimes contra a humanidade em vez de gozarem os luxos capitalistas k tanto criticam. A sorte deles é k as vítimas vivas não são carrascos como eles, seriam esquartejados

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  22. OLP's avatar
    OLP permalink
    24 Maio, 2009 09:26

    Não havendo, quando se deu o 25A nenhum movimento “libertador” como é que em menos de um ano a Fretilim teve a capacidade de fazer os massacres que fez?
    Há em Portugal, ainda viva, muita gente responsável por isso e que lucraram muito com isso.

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  23. Zé Preto's avatar
    24 Maio, 2009 11:18

    “A integridade física de Rui Mateus estaria alegadamente ameaçada, havendo fortes indícios de que terão sido feitos contactos com indivíduos ligados ao mundo do crime, para se encarregarem desta «operação» (…). As pressões eram muitas, a começar com as «recomendações de amigo» de Almeida Santos, que o Presidente da República enviara apressadamente de Marrocos e com quem reuniríamos regularmente a partir do dia 17 de Maio em sua casa. Por outro lado eu estava a ser «olhado» como um traidor à causa «soarista» (…).

    Rui Mateus

    A Procuradoria-Geral da República manteve sempre um silêncio sobre estas actividades criminosas.

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  24. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    24 Maio, 2009 22:42

    teste teste teste

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  25. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    24 Maio, 2009 22:43

    teste

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  26. Desconhecida's avatar
    anonimo permalink
    24 Maio, 2009 22:43

    teste

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  27. Desconhecida's avatar
    anonimo permalink
    24 Maio, 2009 22:44

    teste teste teste

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  28. Desconhecida's avatar
    anonimo permalink
    24 Maio, 2009 22:45

    teste teste

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  29. Da Silva 27's avatar
    Da Silva 27 permalink
    25 Maio, 2009 17:44

    A independência da antiga colónia de Timor foi proclamada em 20 de Maio de 2002 depois de ter havido um referendo em que cerca de 80% da população deu um sinal inequívoco de querer a sua liberdade.
    No conflito travado em Timor que deu origem á invasão deste território, por parte da Indonésia, não podemos esquecer a singular figura do tenente-coronel Maggiolo Gouveia que: “Acusando corajosa e frontalmente a política imposta no território, de criminosa, por conduzir as gentes de Timor, ainda sob a nossa responsabilidade, para um desatre de proporções imensuráveis (como se veio a verificar), Maggiolo Gouveia foi forçado pelas sua convicções, a tomar a única atitude que lhe restava: depor perante o governador os seus galões de ten. Coronel do Exército e aliar-se ao grupo de timorenses que se opunha à “bandalheira” marxista…” (in DC de 31/8/03-Carlos Azeredo-Gen.)

    Felizmente, após imensas provações, onde avulta o massacre de Stª. Cruz, Timor festeja hoje a independência, rumo à democracia e, acima de tudo, comemora a libertação do jugo Indonésio e constrói com esperança o seu próprio futuro.
    A independência do povo maubere é a vitória da insubmissão e da alegria de ser livre:

    Do blogue Limonete em 21/05/09

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  30. Da Silva 27's avatar
    Da Silva 27 permalink
    25 Maio, 2009 18:10

    Sobre Timor, Lemos Pires e Maggiolo Gouveia, ver:

    http://limonete.blogspot.com/

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