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Estelionato cultural e esperteza saloia*

7 Novembro, 2009

Nem mais nem menos. Foi com a acusação de estelionato que reagiu o presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião ao ser confrontado com umas almas que não só reproduziram em diversos tons de rosa a roupa e todos os adereços dos cangaceiros – chapéu, cartucheiras, bornais e santinha – como até entoam, presumo que com sotaque nordestino, o Cangagay. Para cúmulo da irritação dos defensores do Lampião “cabra macho”, afirmam os Cangagay que as práticas homossexuais eram comuns no cangaço, invocando em abono da sua tese a história de um cangaceiro de seu nome Sabonete que dizem por essa particularidade  ter sido escolhido para tomar conta de Maria Bonita, mulher de Lampião, quando a mesma tomava banho.
Estava a discussão neste interessantíssimo ponto das mais valias do cangaceiro Sabonete quando o  presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião, de seu impronunciável nome Anildomá Willans de Souza, se saiu com a estrepitosa acusação de  “estelionato cultural”.  Mas afinal o que é o estelionato? Antes de aí chegarmos convém honrarmos os brasileiros pela sua capacidade de usarem muito apropriadamente uns termos que em Portugal esquecemos. Afinal o estelionato dos brasileiros é uma coisa muito mais interessante e erudita que a expressão popular do conto do vigário, seu equivalente deste lado do Atlântico, expressão aliás, que se tudo correr na feição do costume, será rapidamente erradicada do nosso falar por constituir uma referência religiosa inaceitável além duma ofensa para os vigários propriamente ditos. Nessa hora de correcção linguística talvez nós recuperemos o termo estelionato e, dada a fúria regulamentadora e de registo de tudo o que mexe como património cultural, acabaremos sempre a deparar com um qualquer Anildomá Willans de Souza mais a respectiva acusação de estelionato cultural dirigida ao primeiro que por cá ouse  transformar o Zé do Telhado num activista doutras causas que não a de muito macho percursor da divisão marxista dos bens alheios. Ou que cante noutros tons o fado agora património da humanidade.  Ou avilte a dieta mediterrânica que também está quase no museu.
Esta moda da patrimonialização da nossa vida não parece defender património algum mas é muito eficaz como fonte de rendimentos políticos e não só da corte de burocratas zeladores do cumprimento dos regulamentos. A quem tiver dúvidas sobre esta minha conclusão ainda informo que o senhor Anildomá Willans de Souza mais a respectiva Fundação Cultural Cabras de Lampião conseguiram um forte apoio político e consequentemente a câmara da cidade onde nasceu Lampião prepara-se para aprovar uma lei que transforma em património histórico o vestuário e acessórios usados pelos cangaceiros e torna crime público o seu uso “de forma pejorativa, que vise a denegrir ou ridicularizar os elementos culturais e históricos do cangaço“.

*PÚBLICO

6 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    7 Novembro, 2009 11:10

    Na verdade não em Portugal não esquecemos o termo “estelionato”, as línguas evoluem e ainda bem. “Estelionato” não equivale a “conto do vigário”, no Pt-Pt de hoje, mas a “burla”. E a expressão “conto do vigário” é “arguably” mais popular no Brasil que em Portugal.

    Já agora fique a saber que esta prática criminosa tem nomes engraçados em várias línguas: “estafa” em espanhol, “truffa” em italiano, ou “escroquerie” em francês. E sejamos francos, a expressão francesa é preciosa.

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  2. Desconhecida's avatar
    anónimo permalink
    7 Novembro, 2009 11:40

    também já tentaram essa fórmula no benfica.

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  3. Desconhecida's avatar
    7 Novembro, 2009 14:39

    Chiça Maria Bonita!? Mas já viram a fotografia dela. Estes cangaceiros antes de serem gays eram mesmo irónicos.

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  4. C. Medina Ribeiro's avatar
    7 Novembro, 2009 15:37

    A crer em Camilo (que o conheceu bem de perto – quando estavam ambos presos na cadeia da Relação do Porto), Zé do Telhado não foi percursor (nem precursor) do que no ‘post’ se refere.

    Ele, de facto, “roubava aos ricos para dar aos pobres”… só que os pobres em causa eram ele e os do seu bando.

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  5. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    8 Novembro, 2009 00:51

    Embora offtopic, mas não pude deixar de reparar que o site da Fundação Cultural Cabras de Lampião estava alojado na zip.net.
    Para quem não sabe, o zip.net foi comprado há muitos anos atrás por 365 milhões de dólares pela Portugal Telecom, não percebendo ninguém da altura o porquê. Tempos em que a PT nadava em liquidez devido a taxas fixas e de activação com que sugava os portugueses até ao tutano, fazendo lembrar as fortunas que os portugueses hoje enterram nas eólicas (800 milhões por ano de prejuizo) permitindo à EDP andar a investir (ou deitar dinheiro para o ar) nos EUA em energia que dá prejuízo.

    Não sei se viram o documentário que venceu o Doc Lisboa, mas aquela conversa entre o Mexia e o Socrates é um perfeito retrato do país.

    Numa nota curiosa, parece que a vitória deste documentário está a ser contestada pela tralha subsidiada do costume, dizem que devido ao formato. Mas foi mais pelo conteúdo.

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  6. anónimo...'s avatar
    anónimo... permalink
    8 Novembro, 2009 23:55

    …mais rasteiros, em Portugal, são socretinos pilha-galinhas…

    . hehehehehehe

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