A Natureza versão peluche*
Se o segundo disco de Taylor Mitchell fosse tão bem recebido quanto o primeiro provavelmente falar-se-ia dela como duma estrela em ascenção. Acontece que nunca saberemos qual seria o seu percurso no mundo do folk pois a jovem cantora canadiana foi atacada por coiotes e morreu quando, segundo os seus fans, buscava inspiração passeando sozinha num parque natural.
Estes ataques efectuados por animais selvagens geram um enorme mal estar entre os humanos. Curiosamente não tanto por causa das vítimas – rapidamente apresentadas como estando num além muito natural e harmonioso onde serão mais felizes – mas sim porque grande parte da defesa da vida selvagem tem sido feita à custa de se apresentarem esses animais numa versão tipo peluche. O caso mais dramático desta ambivalência é o sucedido com o realizador Timothy Treadwell e a sua namorada Amie Huguenard. Timothy Treadwell transformou mediaticamente os ursos numa espécie de bons selvagens e simultaneamente transformava-se a si mesmo em algo que definia como homem-urso. Garantia que os ursos o tinham salvo dum passado problemático, afiançava que falava com eles e fazia de conta que era mais um deles, tocando-lhes nas crias enquanto repetia “I love you”. Os biólogos que questionavam o acerto e a utilidade de tudo isto nada podiam, mediaticamente falando, contra a imagem de um homem caminhando ladeado de ursos, no meio do Alaska. E só em Outubro de 2003 quando os ursos mataram Timothy Treadwell e Amie Huguenard se parou um pouco para ouvir aqueles que explicavam que pouco ou nada daquelas filmagens tinha a ver com conservação da Natureza.
Com ou sem Timothy Treadwell a verdade é que a Natureza está em nossa casa, humanizada e devidamente editada dentro do écran. E assim, tal como existem treinadores de bancada, temos também os amantes da Natureza de sofá dispostos a acreditar em todos os Treadwell do mundo e nas mais improváveis histórias desde que tenham os animais por heróis. Veja-se, por exemplo, o caso do livro de Mischa de Fonseca, “Survivre avec les loups”, onde a autora contava a viagem que ainda criança fizera a partir da Bélgica até aos confins duma Europa mergulhada no nazismo, tendo por companhia uma alcateia. Milhares de leitores comoveram-se com a imagem da criança só e enregelada e a quem apenas os lobos transmitiam algum calor e protecção. De nada serviram as objecções iniciais de alguns investigadores da vida selvagem sobre as inverosimilhanças da alcateia descrita por Mischa de Fonseca. Só pessoas muito insensíveis ousavam questionar aquela história onde, como se escrevia nas críticas ao livro, os homens estavam cheios de ódio e os animais cheios de humanidade. Já o livro ia em filme quando as declarações duma prima da autora deitaram por terra aquilo que os biólogos não tinham conseguido desmentir: Misha de Fonseca não só não era judia como frequentara a escola na Bélgica durante a ocupação nazi, nunca tendo feito tal viagem, fosse na companhia de lobos ou de humanos. Curiosamente, no meio do escândalo que sucedeu a estas revelações manteve-se mais ou menos firme a crença na possibilidade de uma criança ser sucessivamente adoptada pelos lobos e atravessar a Europa, em pleno século XX, na sua companhia.
Cada época tem a sua versão do Capuchinho Vermelho. Mas convenhamos que Natureza passa bem sem isso.
*PÚBLICO

Pelo título, até julguei ser um artigo de opinião sobre o comentador Eduardo.
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#1 – eu não tenho dúvidas, com a protecção que lhe dão e as birras que lhe aturam. quando o gajo mostrar os dentes à helena lá vamos ter um poste sobre a ingratidão da natureza e as sacanices do darwin.
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Não percebo o objectivo deste post.
Será do estilo: os ursos matam pessoas logo exterminem-se os ursos?
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3. Só me faltava isso. Por favor, deixe-de tolices. Por sinal desta tristes maluqueiras resultam tb animais mortos como teria percebido se seguisse os links.
Helena Matos
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helena, já tinha visto o anúncio do “siga o link” na porta das retretes na auto-estrada, mas nunca me passou pela cabeça que fosse uma campanha nacional para salvação do linke da malcata. ora, bem haja.
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A ignorância das sociedades urbanas a respeito da Natureza , faz com que sejam não só manipuladas ( melhor dito, aldrabadas) mas também infantilizadas.
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O extermínio deliberado da nossa vida selvagem no século XX foi um crime e constituiu uma importante perda de parte da nossa identidade e do nosso património ambiental. Falo da extinção do lince-ibérico, e da redução drástica das populações de águia-imperial-ibérica, águia-bonelli, águia-real, cegonha-negra, lobo-ibérico, abutre-negro, entre outras. Cabe à minha e às futuras gerações repor esse património.
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1. O Homem passou a vida a recear e a exterminar os “adversários maiores”, quando a maior ameaça vem dos “menores”. Olha o H1N1-Buuuuu!
2. Bem podemos idealizar os animais ditos selvagens, porque o grande perigo, a grande ameaça está… no próprio homem- o único animal que mata por puro prazer.
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«Pelo título, até julguei ser um artigo de opinião sobre o comentador Eduardo.»
ahahhahahahahahha
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