O povo é quem mais ordena?*
Depende daquilo que o povo votar. Se o povo votar aquilo que é politicamente correcto então o povo é sábio e o seu voto a melhor forma de aferir a justeza das propostas dos políticos, sobretudo se estes forem tidos como progressistas. Se o povo não vota aquilo que antecipadamente se decidiu que devia votar então o povo passa a dividir-se em rurais atrasados versus urbanos avançados. Claro que existem variações desta dicotomia. Admite-se que existam camponeses conscientes, particularmente na América Latina, e urbanos xenófobos, sobretudo na Europa rica. Esta catalogação intelectual dos eleitores além reconfortante teve o poder genesíaco de fazer brotar na Suíça uma população camponesa capaz de rivalizar com Portugal nos anos 50, pois terão sido esses camponeses atrasadíssimos que votaram contra a construção de mais minaretes. Curiosamente as mesmas vozes que, pegando no caso suíço, se insurgem agora contra o estatuto do referendo não perdoam ao Supremo Tribunal e aos militares hondurenhos terem declarado inconstitucional a realização de um referendo através do qual o então presidente Zelaya pretendia alterar a constituição do país de modo a prolongar o mandato presidencial.
Nestes relativismos eleitorais pode até acontecer que num mesmo país os mesmos eleitores num mesmo dia ora sejam vistos como modernos ora como reaccionários. Não é frequente mas aconteceu nos EUA na última eleição presidencial pois os mesmos eleitores que deram a vitória a Obama rejeitaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Logo veio quem explicasse que tal desacerto se deveu ao facto de muitas mulheres negras que votaram no candidato democrata serem muito religiosas e apegadas à família tradicional, donde terem votado contra o casamento gay. Na Europa esta questão dos perigos do voto das mulheres estava mais ou menos esgotada desde que precisamente os suíços disseram, num outro referendo, que as mesmas podiam votar, mas agora após este desfecho na questão dos minaretes logo surgiu o fantasma do voto feminino ter contribuído para aquele embaraçoso resultado e naturalmente para o ressuscitar dessa coligação de atrasados invariavelmente constituída pelas mulheres e pelos rurais. Outras vezes temos até referendos que começam por ser apresentados como o inevitável corolário de um processo político e que acabam a ser esquecidos: o Tratado Constitucional Europeu que iríamos votar em rglorioso eferendo acabou a ser resolvido por via parlamentar não fossem os medrosos eurocépticos vencer outra vez.
Perante esta variação de opiniões sobre os referendos em função dos seus resultados só me resta reconhecer que fomos particularmente injustos com Lopes Mateus, ministro do Interior no ano de 1931, pois apesar de nunca ter sido conhecido como uma personalidade dada à reflexão, confirmou-se como um precursor desta concepção do voto popular, enquanto mecanismo de confirmação do previamente decidido, quando declarou aos jornalistas que o interrogavam sobrea a realização de eleições em Portugal “Se o Governo caminha espontaneamente para o acto eleitoral (…) é porque tem a certeza da vitória”. De igual modo há que fazer justiça a Vasco Gonçalves que 44 anos depois de Lopes Mateus, e no campo político oposto, defenderia no discurso do Sabugo: “Nós não vamos perder, por via eleitoral, aquilo que tanto tem custado aos portugueses.” Conviria contudo não esquecer que nestas matérias o povo é como o Deus dos Dez Mandamentos: não se deve invocá-lo em vão, pelo menos muitas vezes. Porque pode sempre acontecer como naquela segunda-feira de Outubro de 1989, em Lepzig, quando os alemães da desaparecida DDR, cansados de verem os seus governantes dizerem que chefiavam uma democracia popular, que aquele era o governo do povo contra a burguesia e que as leis eram as leis do povo, vieram para a rua e gritaram “Nós somos o povo”. Ao contrário do que é de bom tom dizer nem sempre acho que o povo tenha razão – vejam-se as escolhas de Chávez ou o resultado do referendo na Suíça – mas isso não nos dá o direito de lhe impor o que ele não quer e sobretudo de fazermos de conta que o povo aprovaria tudo aquilo que em seu nome é decidido.
Ps. O governo suíço teve uma atitude deplorável neste referendo sobre a construção dos minaretes. Invocando constantemente o receio de a Suíça vir a sofrer represálias caso os eleitores votassem contra a construção de mais minaretes, o governo acentuou o que de pior existe nos estereótipos sobre os muçulmanos e o islão. Ao acentuar o medo, o governo suíço colocou os seus cidadãos sob uma chantagem que nenhum governo decente tolera quanto mais promove e que deve ter ofendido profundamente os muçulmanos reduzidos àqueles que se vingam quando são contrariados.
*PÚBLICO

nesta revolução de ódio socialista
2 milhões votam partido sucateiro porque gostariam de ter as “qualidades” do pm
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Helenafmatos
. . . acabou a ser resolvido por via parlamentar não fossem os medrosos eurocépticos vencer outra vez. . .
APLAUDO_ O Povo Soberano do qual o Estado é
apenas mandatado NÂO RISCA NAGA.
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Excelente artigo, Helena. Só discordo da sua opinião sobre o resultado do referendo na Suiça.
A política (e não são apenas os políticos que a fazem, veja-se o caso dos referendos) é a “arte” do compromisso e do possível. E esse compromisso aplica-se também ao pragmatismo e os princípios.
De que interessa “não ceder em matéria de princípios” se disso resultar a derrota em toda a linha e a vitória daquilo que se considera inaceitável?
No caso dos minaretes, não está em causa a liberdade religiosa de ninguém. E, para o atestar, basta olhar para a percentagem de mesquitas na Suiça que têem minarete. Por acaso, os muçulmanos que se deslocam às mesquitas que não têem minaretes estão diminuídos na sua capacidade de cumprir os ritos?
Num continente (com uma cultura judaica-cristã) onde as autoridades começam a exigir a retirada das cruzes das salas de aulas, faz sentido que se imponha aos não-muçulmanos as cinco chamadas diárias à oração, razão da construção dos minaretes?
Se as nossas crianças e jovens verem uma cruz na sala de aulas “impõe” o Cristianismo nas suas vidas, essas chamadas à oração não são uma imposição do islamismo a quem viva ou trabalhe nas redondezas da mesquita?
Mas o argumento mais importante para justificar o voto da maioria dos suiços é que o minarete é um símbolo. E um símbolo de uma religião que impõe aos seus seguidores regras contrárias às Leis vigentes nos vários Estados europeus e exige aos outros a conversão.
O facto de a esmagadora maioria dos muçulmanos não estar disponível para pegar em armas para “espalhar a palavra” não apaga o facto de ser precisamente isso que os seus líderes religiosos mais destacados defendem (implicita ou explicitamente) nem o de a Sharia estar a ganhar terreno num continente que faz bandeira da separação entre o Estado e a religião.
O minarete é, por natureza, o ponto mais elevado dos edifícios da zona e domina-a. Um minarete numa cidade é um símbolo de que o islamismo chegou ali. Não apenas no sentido de haver algumas pessoas que seguem essa religião mas no sentido de ser uma força que tem que ser considerada também nos planos social, político e judicial.
Neste sentido, não há paralelo possível entre o minarete e a torre de uma igreja.
E chego ao ponto do pragmatismo vs princípios.
Por princípio, não se pode proíbir ninguém de seguir uma determinada religião, por muito estranha que ela pareça à maioria. Mas, também por princípio, não se pode admitir que alguém professe uma religião que vá contra as Leis estabelecidas.
(nota: não se entende que, na Europa, se admita em nome da liberdade religiosa o que se proíbe em política, com a proibição de partidos que sigam a ideologia fascista)
E, por pragmatismo, não se pode fechar os olhos aos resultados do crescimento do islamismo na Europa. Em nome da liberdade religiosa das minorias e do respeito pelos outros, está-se a limitar precisamente a liberdade religiosa e de expressão das maiorias.
Independentemente de a maioria dos muçulmanos serem “moderados” (no sentido de não se disporem a ir ao extremo de se fazerem explodir para… não percebo para quê), a realidade é que a Europa se vai vergando cada vez mais ao extremismo islâmico, apoiado precisamente por esses “moderados” e particularmente pelo seu número crescente na Europa.
Cada vez mais o “politicamente correcto” (AKA “estupidamente intolerante” ou “hipocritamente parcial”) limita o que se pode dizer ou escrever, para não “ferir as suscetibilidades dos muçulmanos” ou (como se vê pelas reacções ao resultado do referendo na Suiça) por medo das reacções dos radicais.
Este é um caminho sempre a descer. É mais do que altura de se começar a pisar o travão e relembrar a todos, mulçulmanos e não muçulmanos, moderados e extremistas, que na Europa existe o primado da Lei, que a religião não tem nada que se envolver na política nem na Justiça e que nenhuma religião pode defender a imposição das suas regras a quem não a segue.
Há mulheres que gostam de vestir a burka? Na boa mas com reservas em matéria de segurança portanto será mais “na boa mas com limitações”. E, quando vão a um local onde seja necessário identificarem-se e lhes seja pedido para mostrar o rosto, mostram-no sem hesitação nem reserva.
Há quem queira rezar cinco vezes por dia? Na boa, desde que não o impeça de cumprir com as suas obrigações.
Há quem ache que as mulheres só devem ser examinadas por médicas e não por médicos? Que vão a médicas particulares.
Há quem ache errado beber álcool? Na boa, desde que não pretenda que ninguém à sua volta beba álcool.
Há quem ache que as mulheres são propriedade dos maridos e das famílias e podem ser mortas por uma qualquer razão? Essa já não é na boa.
Há quem ache muito bem que alguém se faça explodir num local público matando dezenas ou centenas de pessoas e o festeje publicamente? Dois murros nas fuças e um pontapé nos fundilhos que o atire para fora do continente.
Há quem não goste de umas caricaturas publicadas num qualquer jornal? Que responda na mesma moeda. Se responder com violência contra os autores das caricaturas e/ou contra quem as publicou ou não as condenou, dois tiros nos cornos.
É mais do que altura de se olhar para o longo prazo e avaliar se a defesa intransigente de determinados direitos para alguns não significa que esses mesmos direitos deixarão de existir para todos os outros.
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Parabéns Sr, Amado Costa..
É mesmo assim! Parece simples não?..
Limite de liberdade onde colide com a liberdade dos outros.
Porque será que a Europa não está a entender?
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3,
O comentário está bem desenhado na forma, bem substanciado, pena as rasteiras na gramática “…a percentagem de mesquitas na Suiça que “têem” minarete…os muçulmanos que se deslocam às mesquitas que não “têem” minaretes…Se as nossas crianças e jovens “verem” uma cruz na sala de aulas…”. O português é tramado! Não é Amado?
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5. DesconfiandoSempre,
“têem” e “vêem” (formas dos verbos “ter” e “ver”) podem ser considerados erros por muitos. Nos 40 anos que levo de escrever em português, sempre escrevi assim. E não me recordo de, na escola, mos apontarem como erros.
E mesmo que sejam erros, não são de forma alguma rasteiras.
Quanto a “Se as nossas crianças e jovens verem uma cruz na sala de aulas..”, recomendo-lhe que leia a frase toda. Pelo menos até à vírgula.
Se desconfia sempre, devia começar por desconfiar da sua capacidade de leitura antes de apontar erros aos outros.
Pelo que me diz respeito, não vou desconfiar das suas motivações para apontar eventuais erros gramaticais (num comentário que afirma estar “bem desenhado na forma” e “bem substanciado”) num meio em que os erros de sintaxe e gramática são quase uma regra.
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Depois de alguma pesquisa, parece que “têem” está mesmo errado. É difícil quebrar hábitos antigos mas vou tentar.
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Bravo! A Helena identifica estas situações de relativismo moral de uma forma sumamente certeira. Continue p.f.
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Caro Joaquim Amado Lopes,
Escrevo, em português, já há bem perto de 50 anos, mas nunca escrevi “têem”. Creio que tem laborado num erro. Repare-se que em “têm” o som “ê” é repetido por duas vezes. Já em “vêem” ou “lêem” os dois “e” são lidos com diferentes sonorizações. Esta é a regra.
Saudações cordiais.
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7,
Joaquim Amado Lopes
“…Quanto a “Se as nossas crianças e jovens verem uma cruz na sala de aulas..”, recomendo-lhe que leia a frase toda. Pelo menos até à vírgula.”
Sabe, melhor que eu, que há quem considere que o verbo é a palavra por excelência. O termo rasteira foi, contudo, utilizado em sentido metafórico (ex.casca de banana), mas aceito que possa considerá-lo exagerado.
A motivação é tão saudável, quanto o interesse contínuo de aprender.
Pesquise a forma correcta de conjugar o verbo VER no Futuro do Conjuntivo.
Aqui vai um pequeno contributo.
http://www.conjuga-me.net/verbo-ver
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7,
Joaquim Amado Lopes
Penso que tomará boa nota do desempenho do “escriba” 9. E melhor esclarecido estará, com a convincente explicação, quanto à sonorização e à regra, para não continuar a laborar no erro!!!
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10. DesconfiandoSempre,
Escrevi:
Se as nossas crianças e jovens verem uma cruz na sala de aulas “impõe” o Cristianismo nas suas vidas, essas chamadas à oração não são uma imposição do islamismo a quem viva ou trabalhe nas redondezas da mesquita?
Qual é o tempo correcto do verbo “ver” a usar nesta frase?
11. DesconfiandoSempre,
Leia o comentário 7.
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Absolutamente de acordo com o Sr. Joaquim Amado Lopes. Quem, em Portugal, condena a construção de mais minaretes na Suíça será democrático? As maiorias já não vencem? De qualquer das formas os Suíços já não mandam no seu País?
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Concordo plenamente com o Sr. Joaquim Amado Lopes. Tanta propaganda à democracia em Portugal ! Só val para os portugueses? Quando andamos anos a dizer que a Suíça é um País democrático? Os donaos da Suíça, ainda são os Suíços !!!
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oh lopes és um tamanco
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Cara Helena Matos, explique-me lá como é que o referendo do Zelaya poderia prolongar o seu mandato presidencial se o que estava a ser referendado era votar-se uma assemblia constituinte no mesmo dia da eleição presidencial – mesmo que essa assemblia decidisse prolongar o mandato presidencial, isso ocorreria já sob um novo presidente.
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as mesmas vozes que, pegando no caso suíço, se insurgem agora contra o estatuto do referendo não perdoam ao Supremo Tribunal e aos militares hondurenhos terem declarado inconstitucional a realização de um referendo
Eu estou em crer que o que amofina mais ponderosamente quem se aliou a Zelaya não é tanto o ter-se declarado inconstitucional o referendo que convocou, mas mais exactamente o ter sido deposto à força…
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