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“Pedir perdão” *

18 Abril, 2010
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A Igreja Católica diz-se atacada. Perseguida, até. O jornal L’Osservatore Romano disse que há uma “campanha de difamação”. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na presença do próprio Bento XVI, chegou ao ponto de comparar a situação actual com a perseguição nazi aos judeus – o que levou a Santa Sé a esclarecer, prudentemente, que a dita pregação só obrigava o pregador e não quem o escutava…

A resposta da Igreja à vaga de escândalos de pedofilia não tem primado pela inteligência e serenidade. Bem pelo contrário.

Não há mais casos de pedofilia envolvendo padres católicos do que com sacerdotes de outras confissões. Nem os números excedem o que se passa no resto da sociedade.

Mas tal não absolve a Igreja de responsabilidades – sobretudo, porque não há muito tempo persistia uma perversa lógica de encobrimento dos culpados por esse crime horrendo. Foi o que sucedeu, por exemplo, com o Cardeal Bernard Law, de Boston, nomeado por João Paulo II para um alto lugar no Vaticano para que se pudesse furtar às acusações judiciais de apoio a padres pedófilos.

A reacção que começa por negar, encobrir, e, finalmente, clamar ‘perseguição’, pareceria instintiva e natural em qualquer organização – não fosse a Igreja uma estrutura milenar de quem se esperava mais e melhor.

A Igreja necessita de convencer as pessoas de que a triste época da ocultação dos crimes terminou de vez. Precisa de ser a primeira a denunciar os casos de padres pedófilos. Tem de perceber que a crise de vocações não pode ser superada com a admissão de gente perturbada. E, sobretudo, a Igreja deve pedir perdão, sem rebuço, às vítimas e aos católicos espantados com tanto mal à sua porta.

Tal como fez, nesta Páscoa, o cardeal D. José Policarpo – que demonstrou existir mais sabedoria no clero português do que nos lugares mais elevados da hierarquia do Vaticano.

Viagens na terra dela

À hora em que escrevo, ainda não sei se Jaime Gama resolveu o caso da deputada socialista por Lisboa, Inês de Medeiros: esta pretende que o Estado pague os seus voos semanais a Paris, onde, pelos vistos, reside. O caso gerou incomodidade no PS – o que revela que nem mesmo as peripécias mais sinistramente socráticas fizeram desvanecer os rudimentos do pudor entre os socialistas.

A pretensão de Medeiros não se firma em razões jurídicas – apenas políticas e pessoais. Esta triste embrulhada já só serve para se perceber que alguns dos piores tiques politiqueiros provêm dos mais recentes conversos da política, os que para ela entraram para a tornarem ainda pior.

Kim Jong Jardim

As Directas do PSD expuseram mais uma faceta do domínio ‘jardínico’ sobre a Madeira. Paulo Rangel, apoiado por Jardim, obteve 87% dos votos madeirenses. Na verdade, Passos Coelho só alcançou votos no Funchal – em todas as demais secções, Rangel adquiriu uma votação norte-coreana chegando a ter 100% dos sufrágios que correspondiam a 100% dos eleitores inscritos…

Rangel, aliás, só venceu aí – parece que o apoio de Jardim dá votos na Madeira mas fá-los perder no resto do País.

* ‘Tiro ao Alvo’, Notícias Sábado, 10 de Abril de 2010

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