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Revista ‘Notícias Sábado’, 24.IV.2010 *

1 Maio, 2010
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Jogo de sombras

A atrapalhação dos socialistas mais irreparavelmente socráticos perante a candidatura de Manuel Alegre tornou-se indisfarçável. Depois do fiasco de Mário Soares nas últimas presidenciais, esperava-se que o PS agisse com maior lucidez. Mas não – se existe atitude que Sócrates e quem o acolita não consentem é a opinião crítica acerca da governação. Alegre pisou esse risco há muito: exibe-se ao lado de Louçã e partilha com o líder do Bloco as censuras de alegada falta de esquerdismo do Governo. Sobretudo, Alegre deixa transparecer um incontrolável desdém intelectual pelo detentor da enigmática licenciatura da Universidade Independente.
O problema é que, quase sempre, a política tem mais força do que os seus protagonistas – Sócrates vai ter de apoiar Alegre para evitar uma incómoda cisão no seu partido. Alegre, por seu turno, ver-se-á forçado a desfazer-se em louvores à erudição política de Sócrates. Com jeitinho, ainda vamos ouvir Sócrates em campanha a balbuciar algum poema redigido em Argel…
No teatro do fingimento das próximas presidenciais, Sócrates vai apoiar Alegre desejando a vitória de Cavaco Silva; enquanto que Passos Coelho vai aplaudir Cavaco suspirando pelo seu insucesso. Os verdadeiros problemas do País ficam para segundas núpcias.

Cura pelo embaraço

Cavaco Silva ouviu o que não queria da boca do presidente checo, Vaclav Klaus.

Custou-me ver o rosto causticado de Cavaco Silva perante a inenarrável falta de chá de um anfitrião checo que não fazia a mínima ideia do que significa receber um Chefe de Estado de um país amigo. Percebi o seu desconforto e senti-o, também, através de uma insuspeita osmose patriótica. Temo que aquele seja apenas o primeiro de muitos vexames – graças aos maus governos que nos têm assolado, estamos prestes a ser depreciados e repreendidos em todo o lado onde uma autoridade lusa se atreva a assomar. Pode ser que resulte e que a vergonha os faça governar melhor – afinal, tudo o resto falhou.

Falta de compreensão

Um político atracado ao Governo disse “não compreender” os protestos contra as portagens nas SCUTS do Grande Porto. Estou tentado a concordar. Se exceptuarmos o ‘pormenor’ da escolha ter recaído isoladamente no Norte do País, a região economicamente mais deprimida de Portugal e de quase toda a Europa, o lugar onde o desemprego predomina e mais empresas fecham as portas, se nos abstrairmos das promessas mil vezes reiteradas pelos Governos (que incluíam alguns dos ministros actuais) de que as SCUTS nunca iriam ser portajadas, se nos esquecermos de que as chamadas alternativas são vagarosos percursos urbanos, se excluirmos todos estes pequenos ‘detalhes’, diria que aquele político está carregadinho de razão.

Cinzas da humildade

O vulcão islandês demonstrou a debilidade da nossa civilização tecnológica – bastou o despertar de um sopro antigo junto ao Pólo Norte para que ficássemos como baratas tontas descobrindo que, afinal, não sabemos voar como julgávamos. Ironia de Vulcano (ou de Thor), o aeroporto de Reykjavik não foi encerrado nos primeiros dias das nuvens de cinzas, pelo menos.

* NS, 24.IV.2010

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