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“Ronaldo? Não, obrigado…” *

2 Julho, 2010
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Há jogadores que estorvam a equipa apesar do seu talento. Por vezes, a especial aptidão de um atleta submerge-o numa infeliz confusão entre os seus interesses e os do colectivo. Cristiano Ronaldo já esteve em dois Europeus e dois Mundiais. Só no Euro 2004, quando era apenas suplente, jogou qualquer coisinha. Depois, limitou-se a ser uma sombra baça das expectativas que tinha criado e um espectro ridículo do grande jogador que é nos clubes. Neste Mundial, uma vez mais, Ronaldo nunca tentou sair da mediocridade, não mostrou qualidade, vontade, genica, determinação, empenho, ou seja, a dose mínima de interesse em representar Portugal.

Acresce que algum cérebro privilegiado entendeu por bem colocar-lhe a braçadeira de capitão, baralhando o estatuto de craque com as qualidades de chefia de que essa posição carece. Ronaldo não é nem nunca será “capitão” de coisa nenhuma. A liderança de homens implica sacrifício próprio a favor dos interesses dos outros, a preocupação com o colectivo em detrimento do egoísmo: qualquer um, por mais “ronaldista” que queira ser, percebe que Ronaldo é o contrário disso. Assim, foi uma caricatura de capitão, limitando, aí também, a equipa.

Na verdade, o Mundial da África do Sul desvendou a pior vertente imaginável da relação de Cristiano Ronaldo com a selecção – a do prejuízo mútuo. A sua presença condiciona a equipa nacional, sufoca-a com o seu desmesurado mediatismo, embaraça-a com o seu ego desmedido, desequilibra-a no desenrolar do jogo que acaba por redundar num esforço inglório para que o craque possa tentar acender uma exígua centelha do brilho de que todos falam mas que nunca se enxerga na selecção.

Por seu turno, a falta de dimensão humana e futebolística que Ronaldo confessa quando veste a camisola das quinas, lesa, e muito, o seu valor de mercado – basta dar uma vista de olhos na chacota que se deu na imprensa internacional. E não é por acaso que Mourinho se apressou a defendê-lo  e os esclarecimentos para o seu dito desmiolado no fim do jogo da derrota apenas foram feitos pela empresa que o gere…

A história do futebol conheceu alguns craques que deixaram de jogar nas suas selecções: por exemplo, o alemão Schuster, o holandês Cruyff e o francês Larios (devido a uma incompatibilidade de saias com Platini). Por razões diferentes, deduziu-se que era mais conveniente que alguns jogadores só actuassem nos clubes e deixassem a selecção para quem gosta de simbolizar o seu país.

É tempo de Ronaldo sair da selecção. Só isso favorece a sua carreira. E, sobretudo, é o melhor para todos nós.

* Hoje no Jornal de Notícias (sem link)

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