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“Espanha, Espanha, Espanha” *

8 Julho, 2010
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A incoerência de Sócrates já está para além da redenção: tanto exalta as virtudes da União Europeia como, impavidamente, produz arrazoados em tom roncante e “nacionaleiro”, retomando lógicas bolorentas que fedem aos bafientos tempos do fim do Estado Novo. Sócrates padece destes vícios mas amontoa muitos outros – o seu veto, via golden share (seja qual for o nome que lhe queiram dar), à venda da Vivo, foi mal justificado, grosseiramente interpretado e abalroa o significado mais profundo daquilo que a União Europeia simboliza.

Há um tom de queixume fulanizado nas reclamações de Sócrates, que separam o homem de Estado que deveria ser, da personagem destituída de grandeza, que, de facto, é. Lamentou-se de que a Telefónica não quis ouvir a sua opinião, donde que a proposta de compra da Vivo era uma imposição, uma tentativa de lhe “doblar el brazo”. Soa mais a uma soberba afectada, e muito menos a uma decisão estratégica e racional – cinge-se a murmúrios contra a forma e não belisca o conteúdo intrínseco da questão. Fica a sensação de que se a Telefónica embrulhasse as suas propostas negociais num vetusto temor reverencial ao Governo (ou à administração da PT, que, infelizmente, é a mesma coisa), então, Sócrates não teria usado o veto.

Não esqueçamos que foi o próprio Sócrates quem, pomposamente, definiu como prioridade da sua política externa, “Espanha, Espanha, Espanha”. Agora, sem rebuço, faz as vezes de Manuelinho de Évora e investe contra o castelhano de um modo mais delirado do que o do herói de Cervantes. E foi ainda Sócrates quem proferiu a atoarda de que a Comissão é “ultraliberal” – depois do “porreiro, pá” -, mas que está sempre na primeira fila para colher os fundos presenteados por esses mesmos tenebrosos e sinistros ultraliberais…

Sejamos claros: não se pode confundir o interesse estratégico da PT com o do Estado português. O facto de a PT ter vindo a assumir as funções de albergue do regime, não significa que esse estatuto material tenha reconhecimento fora das nossas idiossincrasias paroquiais.

O veto governamental viola a liberdade do mercado, atinge o núcleo duro da ideia da integração europeia, afronta a intenção dos accionistas que investem o seu dinheiro para poderem retirar proventos, gera desconfianças dificilmente superáveis a todo o investimento estrangeiro, é de legalidade duvidosa à luz do direito nacional, e a sua lógica está praticamente proscrita no direito europeu. Provavelmente, Portugal ainda suportará os trágicos efeitos desta medida mal pensada quando Sócrates já não passar de uma recordação indigesta do enfartamento de incompetência geral que nos tem desgovernado, e de que hoje são exemplo nomes como António Guterres ou como Vasco Gonçalves, entre tantos outros.

Sintomaticamente, todos os partidos alinharam em uníssono no apoio a Sócrates – a boa diferença residiu no PSD. Paula Teixeira da Cruz, no entanto, indicou uma ideia distinta: ainda bem para o PSD. Só prova que o partido que Passos Coelho está a construir é plural e que os seguidismos dogmáticos não farão parte do período pós-socrático.

* Ontem, no Diário de Notícias

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