Saltar para o conteúdo

“Da Tradição do Mau Governo” *

10 Julho, 2010
by

Muitas vezes me perguntam em que consiste a ‘Tradição do Mau Governo’ de que me queixo como o costume mais antigo e acarinhado entre nós. A definição é difícil de enunciar mas o conceito é muito fácil de perceber.
Na semana passada, o ministro Vieira da Silva lastimou-se, no parlamento, acerca do facto de Portugal ter um nível excessivamente elevado de desigualdades. O remédio, ensinou, será “investir na qualificação das pessoas”. Esta desproporção não é nova. Já era notada na monarquia constitucional, foi assinalada na I República e ninguém a negou durante o Estado Novo. O 25 de Abril ter-se-á feito, também, por causa disso (não falo dos militares cujos motivos se limitavam a reivindicações de caserna), prometeu-se pão, educação e redistribuição geral da riqueza.
Trinta e tal anos passados não estamos melhor – apesar de o Estado ter passado a ficar com uma percentagem obscena dos nossos rendimentos.

Éramos, então, dos últimos da Europa nas discrepâncias económicas e sociais. Hoje também. A sensação, óbvia, de que vivemos melhor perde autoridade quando vemos que os países com os quais gostamos de nos comparar, quase todos, progrediram muito mais do que nós. Mesmo contando com os fundos europeus a partir de 1986. Queríamos debelar as disparidades sociais e não o conseguimos. Agravamos as disparidades regionais como nunca antes na nossa história – Portugal, tido como um país territorialmente pequeno, nas últimas décadas tornou-se gigantesco devido à distância descomunal nos rendimentos, oportunidades e nível geral de qualidade de vida, que se aleitou entre o litoral e o interior, sobretudo entre o bem medrado baixo-ventre à volta da capital e o resto.

Andámos há mais de um século a pregar como solução a melhoria da “instrução”, da “educação” e, agora em nova embalagem, da “qualificação das pessoas”. Os resultados foram e são miseráveis. O problema não deve estar no remédio mas na sua deficiente posologia. E nos curandeiros, claro – em conjunto, tudo isso esboça parte do retrato de um país cujo destino ameaça ser um exemplo referencial daquilo que os Governos não devem fazer.

O fim da religião obamista

Esperava-se tanto de Obama! Por alturas da sua eleição vi gente inteligente a agir como um bando de groupies electrizados. Os mais sóbrios tinham-no como uma espécie de estrela hollywoodesca, um quase super-herói ininterruptamente cool, o sonho feito carne dos marketeiros políticos de todos os tempos e lugares.

Enquanto conseguiu cavalgar a onda anti-Bush, Obama manteve as expectativas.

Depois quis cumprir algumas promessas eleitorais. Numa delas, o sistema de saúde, tergiversou para todos os lados durante o caminho e perdeu graus de popularidade quase irrecuperáveis. Quando surgiu o acidente na plataforma petrolífera Deepwater Horizon, a 20 de Abril, Obama bravateou em conferências de imprensa prenhes de oratória ambientalista – mas não fez mais nada. Não usou os enormes recursos do Governo para suster a fuga de petróleo e estacar o maior acidente ambiental deste género da história.

Para além da retórica nada se alterou no Iraque. Jurou que o combate maior era no Afeganistão mas hesitou tanto no apoio às tropas que começou a exibir o insuspeitado semblante de um líder fatalmente frouxo. O general McChrystal teve de sair por expressar o que muitos julgavam e foi substituído por mais um homem de Bush, o general Petraeus.

Os níveis de aprovação a Obama estão a 45% e os de reprovação a 48% o que é incomum num ano e meio de mandato – e uma verdadeira hecatombe para quem foi aclamado como um quase-messias ungido para consertar os males do mundo. Ainda bem que sou incréu…

* Tiro ao Alvo – Notícias Sábado, 3.VII.2010

No comments yet

Indigne-se aqui.