A primeira minhoca apareceu na primeira cavadela.
25 Julho, 2010
A Ford Motor Company foi obrigada a suspender uma emissão de dívida previamente planeada devido ao novo pacote financeiro de Obama. As agências de rating recusam-se a assinar a notação da emissão uma vez que se a Ford for mal gerida e incumprir e os activos colaterais se desvalorizarem, podem ser processadas. Agora, sem o instrumento mais económico à sua disposição, a Ford será obrigada a recorrer à banca para se financiar, aumentando os custos da dívida, a que se somarão significativos custos de intermediação. Grandes reguladores. Num só tiro abateram o mercado de asset-backed securities.

Olha, olha, não gostam de ser responsabilizados, é isso?
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Não se costuma dizer “put your money where your mouth is”?
Então se as agências não acreditavam na notação que davam, para que servia tudo isto?
Se a Ford é arriscada o normal é que pague aos bancos o prémio de risco, em vez de conseguir uma falsa notação que iludiria investidores menos informados.
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Só uma dúvida (eu não conheço a lei em vigor para isso) – há alguma coisa que impeça a Ford de, mesmo assim, proceder à emissão de divida, dizendo “nenhuma agência de rating quis avaliar esta dívida; quem investir falo-á por sua conta e risco”?
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Por que será que não estou surpreendido?
Pro memoria, proponho uma narrativa alternativa à habitualmente propalada quanto à crise do sub prime segundo Thomas Sowell, “The Housing Boom and Bust”, que me ocorreu relembrar ao ler a “caixa” do Público de hoje – «Procura faz subir número de casas alugadas para 20 por cento do total» e a afirmação que se faz no artigo da página 5: «A crise do imobiliário e do mercado financeiro fez mais para dinamizar o mercado de arrendamento do que a velha nova lei das rendas».
1 – No final dos anos 80, durante o mandato de George H. Bush, o Departamento de Justiça, pretendeu indagar junto das instituições bancárias (entre as quais, as S&L) da hipotética ou, melhor, da então julgada muito provável existência de discriminação racial na atribuição de crédito hipotecário. Para tal, foi solicitado a estas instituições a entrega de informação sobre esse tipo de créditos nos 5 anos anteriores.
2 – Em 1991, a publicação de um estudo, elaborado pelo FED, onde se comparavam taxas de aprovação (e de recusa) de solicitações de crédito hipotecário deu lugar a um clamor nacional (amplificado pelos costumeiros, entre outros, Washington Post, Wall Street Journal e New York Times). O estudo “provava” que a taxa de aceitação dos pedidos de crédito por parte dos negros era de apenas 61% contra 77% para os brancos. [«When it comes to buying a home, not all Americans are created equal. If you’re black, it’s twice as likely your mortgage application will be rejected as it is if you’re white», Wall Street Journal, 31-03-1992)]
3 – Claro que ninguém estava interessado em ler as limitações interpretativas que o próprio estudo do FED sublinhava(*). Afinal, ali estava a prova provada de mais «brutal» discriminação racial. Claro que a ninguém interessava assinalar que, por exemplo, a taxa de aceitação para os americanos de etnias asiáticas era significativamente superior à dos brancos. Que sentido fazia, afinal, comparar taxas de aprovação de pedidos de crédito hipotecário sem considerar os escalões de rendimento dos proponentes? Mas ninguém estava interessado nisso.
4 – A bola de neve já estava a rolar em velocidade acelerada, e ainda se estava no início. Para além das pressões junto dos bancos para emprestarem dinheiro de forma “politicamente correcta” (o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano – HUD – iniciou acções legais contra os bancos que “discriminassem” de acordo com a etnia), as agências para-governamentais Fannie Mae e Freddy Mac foram instruídas para que adquirissem as hipotecas aos bancos em quantidades cada vez maiores. Em 1996, em plena era Clinton, o HUD estabeleceu mesmo que estas agências adquirissem um mínimo de 42% de hipotecas provenientes de agregados familiares de menores rendimentos. Esta situação, naturalmente, contribuiu para que os bancos passassem, eles próprios, a receber incentivos para baixarem os critérios de atribuição dos empréstimos já que poderiam desta forma passar os riscos de crédito para F. Mae e F. Mac.
5 – Chegou-se ao cúmulo de, em 2004, através do “American Dream Downpayment Act”, se financiar a aquisição de casa própria sem necessidade de entrada (“downpayment”) contrariando a mais elementar prudência creditícia ao mesmo tempo que, candidamente se afirmava que «the White House doesn’t think those who can afford the monthly payment but have been unable to save for a down payment should be deprived from owning a home» e que «We do not antecipate any costs to taxpayers»!
6 – Com este contexto, que incentivos se apresentariam aos gestores da Fanny Mae e do Freddy Mac? Naturalmente que fizessem o que fizeram: aumentar a bola de neve comprando cada vez mais hipotecas com cada vez maior risco associado. Pois não eram aquelas agências «too big to fail»? Junte-se a isso a criatividade contabilística (habitual quando se pretendem camuflar os riscos…) e o resultado foi o que foi.
(*) – «The data have important limitations. Foremost (…) is a lack of information about factors that are important in determining the creditworthiness of applicants and the adequacy of the collateral offered as a security for their loans. Without taking into account such information, one cannot determine whether individual applicants or applicants grouped by a common characteristic (such as race or gender) have been treated fairly» [Boletim da Reserva Federal, Novembro de 1991]
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#4 Eduardo F
um esclarecimento interessante. obrigado
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««Não se costuma dizer “put your money where your mouth is”?
Então se as agências não acreditavam na notação que davam, para que servia tudo isto? »»
O rating sevia para garantir que a companhia não seria mal gerida no futuro?
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«há alguma coisa que impeça a Ford de, mesmo assim, proceder à emissão de divida»»
Sem rating, os compradores teriam que avaliar o risco pelos seus próprios meios, o que torna a emissão mais cara.
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“O rating sevia para garantir que a companhia não seria mal gerida no futuro?”
Se o rating não serve para nada (como se viu com os produtos AAA a não valer nada), é normal que os compradores tenham que avaliar o risco pelos próprios meios. Deixar as agências de rating continuar alegremente a vender notações nas quais elas próprias não apostam um tostão é que seria irresponsável.
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««Se o rating não serve para nada»»
O rating serve para muitas coisas. Não serve é como uma garantia. Muito menos como garantia de que não haverá má gestão futura.
««Deixar as agências de rating continuar alegremente a vender notações nas quais elas próprias não apostam um tostão é que seria irresponsável.»»
Agências de rating não são agências de investimento. São fornecedoras de informação. O comprador assume o risco de usar e de interpretar a informação. Estas regras são claras para todos menos para governantes à procura de bodes expiatórios. Agências não servem para eliminar o risco do comprador de notações. Se servissem, não haveria mercado, nem de ratings nem de dívida. As próprias agências fariam o investimento, o qual seria 100% seguro.
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«Se o rating não serve para nada (como se viu com os produtos AAA a não valer nada), é normal que os compradores tenham que avaliar o risco pelos próprios meios.» Carlos Albuquerque
Já Alan Greenspan sustentava, uma e outra vez, como aliás o faz agora também Bernanke, que é impossível ao FED reconhecer a existência de uma bolha antes de a mesma ter rebentado. Os modelos. Sempre os modelos.
Podia – posso, se alguém estiver interessado – elaborar um pouco mais sobre o tema fazendo uma analogia com a entidade, pública, supervisora das plataformas electrónicas previstas no Código dos Contratos Públicos (CEGER).
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O povo não tem os extraordinários conhecimentos economico/financeiros que o JCD tem.Assim, tem que ser protegido. o seu amor à FORD é simpático…Assim o JCD amasse o povo…
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não há maneira de se entender esta malta do Blasfémias.
Na Europa arrasam tudo …na América (estes com políticas diferentes) arrasam tudo e todos; está visto que isto só lá vai com “loja do Chinês”, trabalho infantil, fome e … bancos stressados.
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9.
“O rating serve para muitas coisas.”
Neste contexto da emissão de dívida da Ford, poderia explicar-nos ao menos uma?
E o JCD acha que o claro “tráfico de influências” que é VENDER ratings falsos deveria continuar impune, não fosse o malfadado Obama ousar responsabilizar as agências?
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««Só uma dúvida (eu não conheço a lei em vigor para isso) – há alguma coisa que impeça a Ford de, mesmo assim, proceder à emissão de divida, dizendo “nenhuma agência de rating quis avaliar esta dívida;»
Pelos visto só pode emitir divida se tiver rating:
asset-backed bonds are required by law to include ratings in official documents.
http://online.wsj.com/article/SB10001424052748703954804575381644138678302.html
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Caro Prof.,
Acha que o problema está nos falsos ratings ou em quem falseia a informação em que as notações assentam? Qual será o problema: o falso 18 na nota de exame ou a batotice em que o aluno incorreu?
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#4 – isso poderá explicar a falência dos FMs, ma não das outras intituições envolvidas no negocio do subprime
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6 – O rating sevia para garantir que a companhia não seria mal gerida no futuro?
O rating serve para garantir que há (ou não) um probabilidade elevada da dívida ser paga; como a divida ser ou não paga depende, entre outras coisas, da empresa ser bem gerida, fazer um rating é fazer um juizo sobre se a empresa vai, futuramente, ser bem ou mal gerida.
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“Já Alan Greenspan sustentava, uma e outra vez, como aliás o faz agora também Bernanke, que é impossível ao FED reconhecer a existência de uma bolha antes de a mesma ter rebentado. ”
Mas já há anos antes da bolha ter rebentado que muitos economistas, tanto “keynesianos” como “libertários” diziam que havia uma bolha.
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««O rating serve para garantir que há (ou não) um probabilidade elevada da dívida ser paga; »»
Pressupondo uma data de coisas, incluindo que a gestão não se altera. Um rating tem sempre uma metodologia subjacente.
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««Mas já há anos antes da bolha ter rebentado que muitos economistas, tanto “keynesianos” como “libertários” diziam que havia uma bolha.»»
Uma coisa é dizer que há uma bolha. Outra é dizê-lo com fundamento e seguindo uma metodologia que não gera falsos positivos.
A um dado momento há sempre um economista que diz o que quer que se imagine possível.
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“Mas já há anos antes da bolha ter rebentado que muitos economistas, tanto “keynesianos” como “libertários” diziam que havia uma bolha.
Até conheço alguns que já dizem que há uma bolha desde 1980. Acertaram 3 ou 4 vezes nestes últimos 30 anos.
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“O rating serve para garantir que há (ou não) um probabilidade elevada da dívida ser paga; como a divida ser ou não paga depende, entre outras coisas, da empresa ser bem gerida, fazer um rating é fazer um juizo sobre se a empresa vai, futuramente, ser bem ou mal gerida.
Nests caso, julgo que o rating serve para avaliar a qualidade dos activos colaterais, a inexistência de ónus ou outras limitações jurídicas à realização das garantias e a correcta avaliação do pacote de colaterais. O que as agências não podem garantir é a situação daqui a 7 anos. Se vem percebi o que ouvi na CNN, esta nova regulação de Obama diz que se na altura da execução, as garantias não cobrirem o valor da emissão, as agências podem ser processadas. Resultado: as agências não assinam – terminou um mercado, que vale actualmente 1,4 triliões USD.
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“Se o rating não serve para nada (como se viu com os produtos AAA a não valer nada), é normal que os compradores tenham que avaliar o risco pelos próprios meios. Deixar as agências de rating continuar alegremente a vender notações nas quais elas próprias não apostam um tostão é que seria irresponsável.
Apostam e muito: apostam a sua reputação, que é o que lhes permite continuar a sobreviver. Acha mesmo que se empresas como a Moodys ‘vendessem’ ratings falsos, alguém lhes prestava atenção?
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olha as caras de preocupados dos desempregados! já não arranjam emprego nas agências de rating…
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“Então se as agências não acreditavam na notação que davam, para que servia tudo isto?
Se a Ford é arriscada o normal é que pague aos bancos o prémio de risco, em vez de conseguir uma falsa notação que iludiria investidores menos informados.”
Claro que acreditam. O que não se pode é transformar uma notação numa garantia, que é o que esta lei absurda pretendia.
A segunda frase mostra que não percebeu bem o que significa este mercado. Esta é uma emissão de dívida colateralizada. Os adquirentes sabem que existe um conjunto de activos que estão associados a esta emissão e que podem ser executados em caso de incumprimento, diminuindo o risco dos tomadores e baixando assim o preço a pagar pelo emitente.
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e ainda bem que nem todos são totós pelos ratings:
http://arrastao.org/sem-categoria/agir/
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“Só uma dúvida (eu não conheço a lei em vigor para isso) – há alguma coisa que impeça a Ford de, mesmo assim, proceder à emissão de divida, dizendo “nenhuma agência de rating quis avaliar esta dívida; quem investir falo-á por sua conta e risco”?
Mesmo que fosse permitido, o preço seria muito mais alto. Há milhares de compradores para uma emissão e nenhum deles, por si só, tem a capacidade de avaliar o risco – até porque os recursos envolvidos são imensos. O que a Ford e outros emitentes fazem é pedir um rating a uma agência cujo prestígio seja suficiente para convencer os investidores, que, confortados, estão dispostos a aceitar uma menor remuneração.
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15 “Qual será o problema: o falso 18 na nota de exame ou a batotice em que o aluno incorreu?”
Caro Eduardo F.,
A sua comparação não tem grande sentido.
Se o prof, para atribuir a nota de 18 o faz porque recebeu a informação do próprio aluno de que merece 18 e ele acreditou sem mais, a culpa é do prof.
Se o prof é tão saloio que ainda vai em batotices de alunos, a culpa é do prof.
Avaliar, para uma agência que faz disso profissão é o seu trabalho (Lapalissade). Se o faz mal, deve ser responsabilizada por isso, como um engenheiro é responsabilizado por um mau projecto de uma obra.
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Mais uma asneirada da Administração Obama.
Já se perderam a conta….
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A regulação se pode frustrar no imediato algumas espectativas de financiamento pelo crédito (como impediria no passado créditos hipotecários a desempregados só para cumprir quotas p.c. ) é um garde-fous que evita num futuro não longínquo estampanços em que a Ford e outros não sobreviriam… Mas vocês não aprenderam nada ?
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