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Os encostados – nova espécie identificada no ecossistema do Estado Social* (2)

30 Julho, 2010

“Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) está a propor aos trabalhadores que aceitem uma “redução voluntária do salário-base” e lhe entreguem, a título de “doação”, o valor de que prescindirem mensalmente, mantendo-se os seus recibos de vencimento inalterados.”
Creio que se os abrangidos por esta redução contestarem com algum ruído esta proposta conseguirão que a sua administração siga o exemplo da ministra da Cultura e não só desista de lhes reduzir os salários, como ainda conclua que saiu vitoriosa desse processo de doação-redução. Nós cá estaremos para continuar a doar os nossos impostos, taxas e contribuições para que a EPUL continue a fazer cidade, a amar cidade, a lutar pela cidade, a investir na cidade, a desenhar a cidade, a planear a cidade…
Mas para lá dessa fantástica concepção dos funcionários enquanto doadores existe aqui um outro logro. Para que serve a EPUL? Porque existe? Presta algum serviço que justifique a sua existência? A EPUL vive em constante falência técnica que obriga a que todos os anos reivindique que o munícipio lisboeta cubra os seus prejuízos que nunca se contam por menos de vários milhões. Urbaniza cada vez menos e quando tal acontece colecciona processos dos clientes. Pauta-se também por não fazer nada que a distinga da mais desinspirada empresa de construção civil como facilmente se confirma ao descer a Av. das Forças Armadas ou visitando o Martim Moniz. Mas a EPUL existe e existirá enquanto a sustentarmos. Autarca algum mesmo que o deseje dificilmente conseguirá extinguir este monstro. À primeira tentativa enfrentaria não só a oposição corporativa de todos aqueles que se sentissem lesados nos seus interesses por esta extinção, como, vinda sabe-se lá donde, surgiria imediatamente um campanha sobre o papel crucial da dita EPUL no preservar da cidade da voracidade dos investidores imobiliários e outras patetices quejandas que não têm qualquer tradução prática, mas alimentam muita campanha a favor do papel do Estado. E depois o monstro não faz nada, mas dá colocações, cargos, influências, carros de serviço, lugares invejados. Afinal, bem vistas as coisas, o monstro não serve para nada. Mas serve-nos. Basta que sejam os nossos que estejam lá.
Pelo país todo monstros como a lisboeta EPUL sugam-nos até ao tutano. Mas que fazer? O filho do senhor do talho que se tornou vegetariano e fez um curso de computadores, mais a namorada que é psicóloga, a prima que é engenheira de relvados e aquele rapaz porreiro do call center que se tornou administrador, para todos eles e para todos os outros o sonho é, como dizem satisfeitas as famílias dos admitidos, “encostar-se” ao Estado, à câmara, ao instituto, à direcção regional, ou seja, a estes monstrinhos que não se sabe o que fazem, mas dão muito a ganhar.
Em qualquer cidade de província ou vila é fácil reconhecer os “encostados”, pois eles tornaram-se na nova aristocracia local. Nas mesmas terras onde os seus avós semianalfabetos tinham como objectivo não aturar mais patrões, o sucesso dos netos licenciados em saberes etéreos passa agora por um lugar influente nas estacas desse pantanal assente numa rede de leis, regulamentos e disposições sempre cheios de omissões onde se cruzam os dinheiros e os poderes públicos com os interesses dos privados. Arranjar um “encosto” é muito mais do que ter um lugar de decisão no Estado. Graças a ele consegue-se uma espécie de via verde para aceder a outros serviços onde outros encostados decidem agrupamentos escolares, acessos a hospitais, lugares nos centros de dia, mais vagas nas secretarias…

Portugal hoje é isto: um país que empobrece, que não ganha para sustentar o seu Estado e em que a única saída possível parece estar não na alteração desta forma de viver, mas sim no conseguir fazer parte dela. Ter um “encosto” é o sonho de qualquer um e mesmo no sector privado o sonho é trabalhar por encomenda dos encostados e protegido pelos encostados. A única coisa que perturba o mundo do encosto é a mudança. Os encostados, as famílias dos encostados, os privados que fazem negócios com encosto e que precisam do aval dos encostados… ou seja, os portugueses na sua quase totalidade não só querem, mas sobretudo precisam que tudo se mantenha como está. É esse o seguro de vida política de gente como José Sócrates e Alberto João.

*PÚBLICO

19 comentários leave one →
  1. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    30 Julho, 2010 15:45

    « O filho do senhor do talho que se tornou vegetariano e fez um curso de computadores»

    “curso de computadores” até tem uma conotação bem produtiva, não parece que estejemos a falar do estereótipo de quem se formou para viver à sombra dos outros. Ah! Mas é filho do senhor do talho. Assim o caso muda de figura…

    Esta gente que não sabe o seu lugar… parasitas.

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  2. Algarvio's avatar
    Algarvio permalink
    30 Julho, 2010 15:55

    Quando andei na escola chamava-se a isso Factor C.

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  3. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    30 Julho, 2010 16:00

    Eis em todo o esplendoe e impunidade os priveligiados do Estado Sucial (súcia de ladrões, corruptos, gazeteiros, aldrabões, malandros e chulos).

    Até quando os impostos do operário, do camionista ou do taberneiro, vão ser destinados a pagar as universidades públicas para os filhos dos ricos (médicos, enhenheiros, arquitectos,etc.etal), dos burgueses e da escumalha que mama da teta pública?

    Até quando este regime preverso vai continuar?

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  4. Ze's avatar
    30 Julho, 2010 16:02

    Muito bom retrato do país : “ou seja, os portugueses na sua quase totalidade não só querem, mas sobretudo precisam que tudo se mantenha como está. É esse o seguro de vida política de gente como José Sócrates e Alberto João.”

    o problema é que não dá mais para manter tudo como esta …..

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  5. Algarvio's avatar
    Algarvio permalink
    30 Julho, 2010 16:16

    Quando andava na escola chamava-se Factor C. Mas essa praga está em todo o lado. Trabalhei numa unidade hoteleira em que o Director do hotel chamou a atençao a uma responsavel de um departamento da unidade (nova no cargo),por atrasos nunca respeitar o horário de serviço. A menina queixou-se ao pai que é um dos altos responsaveis de um banco nacional. O director foi chamado á atenção pela administração do grupo a que pertence esta unidade. Moral da história somos todos azuis mas á alguns mais azuis do que outros.

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  6. Luis Melo's avatar
    30 Julho, 2010 16:28

    O quão verdade são os últimos 3 parágrafos….

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  7. Risadas's avatar
    Risadas permalink
    30 Julho, 2010 17:01

    Só uma questão; no tempo do Santana Lopes era melhor?

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  8. joaõ's avatar
    joaõ permalink
    30 Julho, 2010 17:34

    Santana fez alguma coisa em 4 meses que prejudicasse o poder compra dos portugueses ?…já os xuxas nos ultimos 15 anos estão há 13 no poder e muito têm contribuido para o empobrecimento da classe média……com pequenos almoços a 350.000 € ao Luis Figo e amigos…..

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  9. piscoiso's avatar
    piscoiso permalink
    30 Julho, 2010 18:18

    Isto agora parece que funciona em circuito fechado, com comentadores seleccionados.
    Os caixeiros.

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  10. João Fagundes's avatar
    João Fagundes permalink
    30 Julho, 2010 18:32

    o “encosto” foi arma do regime e é arma da democracia sub-desenvolvida que temos, sendo que a arte de “encostar” é transversal à sociedade e continua a ser muito praticada na sua camada mais alta.

    não era preciso escrever este texto para se chegar a essa conclusão, só que o objectivo da helena matos foi outro: achar que a arte do encosto foi uma invenção da democracia e que apenas beneficiou os incompetentes, os quais pertencem todos à classe baixa… Reparem no “filho do senhor do talho que se tornou vegetariano e fez um curso de computadores” e nos “avós semianalfabetos”, (pre)conceitos que não se aplicam à velha aristocracia portuguesa, cujos filhos jamais frequentariam um talho, mesmo que ao fim-de-semana até gostem de abrir umas cabeças a uns coelhos, e obviamente trabalham para a empresa do pai, são chief qualquer coisa officer, mesmo que tenham tirado o curso de gestão num politécnico qualquer, com 10.

    aliás, esta questão é tão cultural que até a própria helena matos podia enriquecer ainda mais este debate contando como alguém se pode “encostar” a uma das maiores empresas públicas deste país chamada RTP.

    não há limites para a hipocrisia neste país!

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  11. Eleitor's avatar
    Eleitor permalink
    30 Julho, 2010 18:54

    O encosto ao Estado é a base fundamental da nossa democracia, mais concretamente é a razão de existir dos partidos políticos. Sem estas sinecuras ninguém se filiava, ninguém punha o dedo no ar para ir “defender a coisa pública” (como gostam de dizer). Claro que tanto altruísmo tem que ser devidamente recompensado durante e após o exercício dos cargos (recompensas extensíveis ao agregado familiar). O Povo que os elege embora fale mal do esquema até o aprecia. Basta que lhe ofereçam qualquer coisita de “borla” e não lhe toquem nos direitos. Além disso há sempre a esperança de que o familiar consiga o tão almejado lugar no Estado graças a uma palavra amiga de um dos odiados “gajos da política”-

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  12. MJRB's avatar
    30 Julho, 2010 19:48

    Excelente artigo, Helena Matos !

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  13. Amêijoa fresca's avatar
    30 Julho, 2010 20:09

    Num país de encostados
    à sombra das bananeiras,
    vivendo tão embotados
    por mil e uma peneiras.

    Esses problemas persistentes
    e que não parecem despegar,
    permanecerão bem latentes,
    pesando na conta a pagar.

    Desses terrenos mui lodosos
    de um regime a declinar
    brotam gestos habilidosos
    e que tanto nos farão penar!

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  14. Euro2cent's avatar
    Euro2cent permalink
    30 Julho, 2010 21:49

    > descer a Av. das Forças Armadas

    Esse bloco não é a nova Penitenciária?

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  15. Eduardo F.'s avatar
    30 Julho, 2010 23:43

    Um dos textos mais certeiros que li nos últimos tempos. Um dos mais deprimentes também pois sublinha bem os atavismos de que nós, como povo, não nos conseguimos libertar. De D. Maria a D. Carlos, de Afonso Costa a Bernardino Machado, de Salazar a Caetano, de Vasco Gonçalves a Sócrates.

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  16. Outside's avatar
    Outside permalink
    31 Julho, 2010 02:58

    Um bom (factual) post HM…porêm…com 10 (dez) anos de atraso como sabe.

    Só não vê quem não quer ou pode…

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  17. Nuno's avatar
    Nuno permalink
    31 Julho, 2010 03:16


    helenafmatos em 30 Julho, 2010~

    Sempre houve “encostados” e estamos numa fase crítica em que há um verdadeiro turbilhão de bestas idiotas, na sua maioria socialistas – os comunistas, os trotskistas, os bloquitas, os verdes, etc., também são socialistas.
    Sempre houve pretensiosos a querer agarrar-se com unhas e dentes ao poder, seja ele qual for.
    Sempre hove cunhas.
    Sempre houve perús a querer imitar o comportamento daqueles com mais educação.
    Faz aflição ouvir falar o Socrates e todos os socretinos. Usam uma entoação amaricada e é ridículo ouvir um presidente que se diz de todos os portugueses, nascido no meio rural, a querer falar caro, a pôr-se em bicos dos pés e a confundir o povo simples.
    Toda essa gentinha, pobre de espírito, quer ascender a uma aristocrcia sem que de todo saibam o que isso é.
    Falta-lhes a base: e educação. Ah! E o chá…

    tácito

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  18. Não Interessa's avatar
    Não Interessa permalink
    31 Julho, 2010 17:40

    “Para que serve a EPUL?”

    Financiar o Benfica. Pelo menos isso já sabemos..

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