O Homo freeportus*
Há 24.500 anos na zona que hoje é Portugal o Homo neanderthalensis ter-se-á cruzado com o Homo sapiens e desse cruzamento terá nascido uma criança conhecida como Menino do Lapedo. Este facto está longe de ser pacífico entre os especialistas da área, que discutiram apaixonadamente a viabilidade dos amplexos dos sapiens com os neanderthalensis. Ou vice-versa, que para o caso deve ir dar ao mesmo. Mas nunca fiando.
Como me parece que, à excepção destes tempos contemporâneos, em que o sexo passou a disciplina escolar, a humanidade sempre se cruzou sem quaisquer problemas e muitas vezes sem qualquer critério na escolha do parceiro, nada me espanta que os sapiens se tenham cruzado com os neanderthalensis. (Para lá desta polémica, intuo que temos outras à espera, pois os fiscais da igualdade e do género ainda nos vão obrigar a esquecer o machista do Homo sapiens e passar tudo a pessoas, já que o ridículo impede aplicar àquela gente a ladainha das lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgéneros.)
Creio, contudo, que o Menino do Lapedo não é o único caso em que diferentes humanóides se cruzaram entre si neste nosso território. E se no caso de Menino do Lapedo alguns arqueólogos apresentam dúvidas fundamentadas sobre a hipótese de o neanderthalensis se ter cruzado com o sapiens, já quanto a um outro cruzamento de humanóides que aqui teve lugar não só temos abundante documentação escrita sob a forma de autos, inquéritos e notícias, como desse cruzamento resultou um ramo particularmente bem sucedido da nossa espécie. Falo do Homo freeportus.
O Homo freeportus nasceu da união entre dois aparelhos reprodutores: o do Estado e o dos partidos. Os nascidos desse cruzamento vivem do Estado e naturalmente sentem o Estado como o seu território. Conhecem-lhe os procedimentos, os regulamentos, as excepções aos mesmos e os anexos às disposições gerais. Aliás, grande parte do poder dos freeportus é exercido através da produção contínua de regulamentos, leis e decretos que trazem os demais hominídeos em constante sobressalto.
Os freeportus usam o Estado em seu proveito até ao limite e conhecem trilhos e atalhos onde caem os demais, particularmente os que não fazem parte da tribo dos freeportus, que por eles não são protegidos, ou, pior ainda, quando deixam de os reconhecer como seus aliados. Para os apreciadores da caça é um exercício fascinante ver como os freeportus se coordenam para atacar uma pessoa, um poder ou uma estrutura que a dado momento passam a identificar como um obstáculo. Raramente falham o alvo.
Não há memória de um freeportus ter sido alguma vez punido, até porque após uma situação de risco imediatamente os freeportus detectam o que os levou quase a serem apanhados e logo corrigem a legislação e mudam quem tem de ser mudado.
Os freeportus nunca deixam verdadeiramente o Estado, pois, mesmo quando partem para regiões inóspitas, como o sector privado, tal só acontece porque levam consigo o seu conhecimento do ecossistema estatal que os torna valiosos aos olhos de quem os convida.
Convém esclarecer que não basta usar o Estado como coisa sua para se ser freeportus. E é aqui que entra a outra parte do aparelho reprodutivo que gera os freeportus: os aparelhos partidários. Factos ocorridos nos últimos anos permitem dizer com relativa segurança que um partido conseguiu realizar este cruzamento com o Estado com grande sucesso. Todos tentaram o cruzamento com o aparelho estatal, mas só um foi capaz de produzir um homem verdadeiramente distinto dos de mais. E que se orgulha disso. Pois tal como no caso dos pretéritos cruzamentos entre os neanderthalensis e os sapiens que até ao aparecimento do Menino do Lapedo eram uma coisa envergonhada, logo desmentida e negada, também até ao aparecimento do Homo freeportus se negava que existisse cruzamento ente o Estado e os partidos. É claro que aqui e ali havia uns seres cujo estilo de vida tudo indicava que tivessem nascido de tal união, mas ou as criaturas conseguiam negar tal possibilidade ou acabavam um tempo votadas a um distanciamento higiénico pelos da sua tribo.
Com o Homo freeportus tudo isso é passado. O Homo freeportus é o que é e tem orgulho disso. A grande irmandade dos freeportus tem como princípio base que não interessa o que faz um freeportus. Interessa que é freeportus e o homem freeportus é melhor que os outros só por ser freeportus. O Homo freeportus vive em comunidades, tem forte sentido gregário e protege sempre e até ao limite o chefe da tribo. Tudo o que o chefe diz está bem.
Alguns estudiosos dizem que os freeportus ao sentirem-se verdadeiramente ameaçados optam por destruir tudo à sua volta, procurando, no meio do caos, garantir rotas de fuga ao chefe. Outros garantem que existem casos de tribos de freeportus que se sacrificaram para salvar o seu chefe.
Menos dúvidas gera a capacidade de Portugal sobreviver aos homens que o desgovernam: há precisamente 432 anos, Portugal vivia o primeiro dos seus dias como país não independente. Na véspera, a 4 de Agosto de 1578, acontecera Alcácer Quibir.
*PÚBLICO
Obs. Antes que comece a algazarra eu sei que só em 1580/1581 tivemos Filipe I como rei e também sei que o reino não terá sabido a 5 de Agosto do que na véspera sucedera em Alcácer Quibir. Mas o que pretendo dizer é que desde 4 de Agosto de 1578 deixámos de ser um país vedadeiramente soberano e sem soberano.

Um belíssimo texto! Sucinto, acutilante e certeiro.
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Excelente, Helena Matos !
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Muito bom, o artigo. Parabéns!
De notar também a capacidade de reprodução dos “freeportus”: entre outros instrumentos, eles contam, por exemplo, com as “eurosondagens” de um seu engenhoso par, aliás catedrático futebolístico.
Tudo devidamente ampliado pela dita católica Rádio Renascença, que colabora, incessante, no embuste, como mais uma vez tenho vindo a apreciar desde manhã cedo.
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Magnífico! E a velocidade como se têm disseminado é impressionante. Creio que terão genes de ratos, tal a capacidade de roerem a coisa pública.
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Os portugueses estão cansados de circo.
A avaliar pela sondagem de Agosto Expresso-SIC-RR/Eurosondagem, a opinião dos portugueses em relação ao «caso Freeport» é elucidativa. 60% dos inquiridos acham bem que José Sócrates não tenha sido acusado e apenas 27.2 % veriam com bons olhos uma acusação ao primeiro-ministro. Quanto ao tempo de duração da investigação no processo Freeport, mais de 81,5% é de opinião que devia ter encerrado há mais tempo, enquanto 86,5% acha que devia haver um prazo limite para se concluir uma acusação. Estamos perante uma opinião inequívoca, em qualquer das três questões colocadas: o pessoal está cansado de circo.
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5,
Claro, Dona Clara. O país está cansado do vosso circo. Como verá, mais cedo do que supõe.
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«desde 4 de Agosto de 1578 deixámos de ser um país vedadeiramente soberano e COM soberano.»
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5,
v. acredita em sondagens dessas, surgidas em momentos críticos…
É como acreditar no Pai Natal.
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5.Clara França Martins disse
6 Agosto, 2010 às 3:51 pm
Senhora Dona Clara:
Será que esses 86,5% de inquiridos também viram o sol rodopiar atrás duma azinheira?
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Pi-Erre 10,
Provavelmente esses 86,5% veem e falam com “Deus nossos senhor” Sócrates. São os anjinhos.
Estão com “ele” em todo o lado enquanto houver sinecuras. Eurosondagem incluída.
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Eu, que desconfio que o engº Sócrates foi uma das piores desgraças que aconteceram a este país (quase tão grave como o que aconteceu em Alcácer Quibir), era capaz de responder à sondagem como o fizeram a maioria dos que responderam:
Acusar o Exmo engº. de quê concretamente, no caso Freeport? Também acho que a investigação já deveria (e poderia) ter terminado há muito.
Mas é para ajudar a limpar e arranjar uma especie de suporte popular para estes “cozinhados” que existem “instrumentos”, como diz o sr. António P. Castro no comentário #3 e cito, tipo as “eurosondagens de um seu engenhoso par, aliás catedrático futebolístico”.
Quais seriam os resultados de uma sondagem que colocasse questões no género destas:
1 – ficou esclarecido com as conclusões do inquérito ao licenciamento do Freeport?
2 – ficou esclarecido, relativamente à participação de cada uma das personalidades mensionadas durante a investigação ao processo de licenciamento do Freeport (Smith, Pedro, 1º Min, tio do 1º Min, primo do 1º Min, …), do papel que cada uma delas teve nesse processo de licenciamento?
3 – O processo Freeport reforçou a sua confiança na Justiça portuguesa?
…
Quanto a mim, a conclusão deste inquérito levanta-me mais questões e dúvidas do que as que tinha no início. E muitas dessas dúvidas ultrapassam e vão muito para além de todo este assunto podre do Freeport.
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Ora aqui está uma optima opinião a ter em conta.
Digo eu…
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Excelente artigo!
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… nascido num regime malfadado
Os nascidos do cruzamento,
desses dois cancros tão visíveis,
levam-nos ao definhamento
por trilhos assaz desprezíveis.
Nesta conjuntura instável
o mexilhão é trucidado,
sendo a culpa imputável
a um regime malfadado!
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Não sei se já repararam no pormenor:
Apanhem uma imagem de SUA EXCELÊNCIA e reparem nas suas arcadas supaciliares : SALIENTES cono as os primitivos Hominídeos. PALAVRA!
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