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As “rentrées”*

12 Setembro, 2010
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Há uns anos atrás, popularizou-se, entre nós, uma campanha publicitária dizendo-nos que a “tradição já não é o que era”! Eu diria que se tratava de uma frase (feliz) “avant la lettre”. Hoje em dia e sobretudo para quem tem alguma memória, os sinais de mudança espalham-se e impõem-se, de um modo incontornável, no nosso quotidiano. Dizer-se que vivemos novos paradigmas será um chavão; porém, em todos os chavões, existe, sempre, um fundo de verdade.
A vida política não escapa a estes sinais do tempo.

Antigamente, existia uma espécie de período estival de férias, em que tudo parava. O país político retirava-se, “a banhos”, entre o fim de Julho e o princípio de Setembro. Na imprensa, Agosto era o mês da denominada “silly season”: escasseavam notícias relevantes e os espaços informativos dedicavam-se àquilo que realmente não tinha importância. Nesse tempo, as “rentrées” eram os rituais (em forma de comício) dos partidos, para reiniciarem a sua actividade. Alguns deles – como, por exemplo, o do Pontal – ainda com ar de praia. Hoje em dia, nenhum político pode dar-se ao luxo de desaparecer durante um mês. Há sempre factos que exigem uma reacção pronta (mesmo em calções de banho) e, cada vez mais, tais “rentrées” perdem o seu sentido e importância tradicionais. Este ano, emerge neste início de Setembro uma questão que tendo resultado, em parte, das “rentrées” do PSD e do PS, cresceu, porém, noutros cenários (Universidade de Verão do PSD e Belém). Passo Coelho impôs a Sócrates condições (óbvias e previsíveis) para aprovar o próximo Orçamento. Sócrates respondeu com o fantasma da instabilidade e da irresponsabilidade políticas.

Entretanto, Cavaco meteu-se abertamente na contenda, apelando ao “consenso político” no Orçamento (e aqui, de facto, a tradição e o recato institucional já não são o que deveriam ser). Ou seja, Belém apelou à manutenção, em águas calmas, do “status quo” político (a dita “estabilidade”), encostando-se, implicitamente, ao PS de Sócrates. Passos e o PSD, se querem, porventura, chegar ao poder, não podem deixar de ser firmes nas suas exigências, mesmo contra os interesses circunstanciais e de campanha (Janeiro de 20111) de Cavaco Silva. Caso contrário, a bênção de Belém poderá significar, para a actual direcção do PSD, um corte com o país (com o país do PSD) e, a prazo, a perda do partido (abrindo as portas a Cavaco para controlar, por interposta pessoa, aquela que pensa ser a sua eterna quinta). Uma coisa é certa: a estabilidade é sempre muito importante… sobretudo, para quem quer manter o poder que já tem.

* GRANDE PORTO, ed. 10.09.2010: ver aqui.

8 comentários leave one →
  1. Eleutério Viegas's avatar
    Eleutério Viegas permalink
    12 Setembro, 2010 14:08

    Vamos pregar ao Cavaco um valente susto!!!!

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  2. Francisco Colaço's avatar
    Francisco Colaço permalink
    12 Setembro, 2010 14:18

    #1, Eletéurio,

    Não conseguimos. Apesar de a caça ao Pato já estar aberta, o Elmer Sócrates tem tanta hipótese de o caçar como de ter um pedido para ser recebido pelo Gilberto Gil.

    O Pato vai ser reeleito, e desconfio que à primeira. Vou apenas votar nele porque as alternativas são dramaticamente piores.

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  3. FMSá's avatar
    12 Setembro, 2010 15:03

    Ó Pedro, é a preparação para o programa de logo no Porto Canal (19h, Domínio Público) sobre as “Rentrées”?

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  4. Eduardo F.'s avatar
    12 Setembro, 2010 15:18

    Portanto, se bem percebo:

    1 – Manuela Ferreira Leite perdeu as eleições, por sua inteira responsabilidade (no fundo por culpa de Cavaco e do caso das escutas a Belém), quando era facílimo ganhá-las a Sócrates. Cometeu, aliás, um erro perfeitamente infantil ao atacar o carácter do primeiro-ministro quando, todos sabemos, essa é uma matéria que só “dá” votos a Sócrates e, como tal, sobre ela se impõe um silêncio absoluto.

    2 – Por sua vez, Passos Coelho, pela mesquinhez exclusiva de Cavaco, não só não consegue manter a dianteira nas sondagens como acaba de assistir, incrédulo, ao regresso de Sócrates e aos empates “técnicos” nas intenções de votos. Apesar das extraordinárias, claras e incisivas iniciativas por si lançadas do projecto de revisão constitucional – um Projecto para Mudar Portugal! – e da não menor extraordinária firmeza demonstrada quanto às deduções fiscais em sede de IRS – um autêntico baluarte com a rapacidade do estado socialista. Apesar de tudo isto, dos decibeis de Quarteira e de Castelo de Vide, a coisa definha, pífia.

    Mas a culpa, essa, é de Cavaco. Não haja sobre isso a mínima dúvida!

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  5. Eleutério Viegas's avatar
    Eleutério Viegas permalink
    12 Setembro, 2010 15:23

    #2: Francisco,

    As alternativas nem o são, de facto… Aquelas que por aí andam.

    Mas na 1ª (volta) não vou lá. Já me chateia. E o tipo merece o (improvável) susto de ganhar “à rasca” ou de precisar de uma 2ª… Quando votei nele, foi para pôr decência na pouca vergonha só cretina que já se adivinhava. Mas, foi a condescendência que se viu.

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  6. Alexandre Carvalho da Silveira's avatar
    Alexandre Carvalho da Silveira permalink
    12 Setembro, 2010 19:03

    Muitos paises desenvolvidos tiveram politicos que fizeram sem receio propostas de rotura às suas populações, que elas aceitaram porque perceberam que o que lhes propunham era o caminho para o bem estar e desenvolvimento, do momento e no futuro. Mesmo que isso implicasse fazer alguns sacrificios. Fazendo roturas, e encontrando soluções de consenso para o que é fundamental numa sociedade democratica: Saude, Educação, Justiça e Segurança Social.
    Em Portugal não é possivel, como se tem provado nos ultimos meses, fazer roturas, e muito menos procurar as necessarias soluções que sustentem no futuro as quatro questões fundamentais. Por um lado, porque temos uma parte substancial da população alapada ao Orçamento de Estado, sejam empresarios, clientelas partidarias, trabalhadores nas instituições publicas, reformados, agentes culturais, etc. querendo todos o seu quinhão, não se preocupando se daqui a meia duzia de anos o estado tem dinheiro para lhes pagar os subsidios, as consultas no hospital, os ordenados ou as reformas. Por outro porque temos uma esquerda com um peso demasiado na sociedade para permitir que o país ande para a frente: PCP+BE valerem entre 15 e 20% dos votos não acontece em nenhum país democratico do mundo. E para alem disso, temos um PS que se diz de esquerda, mas imitando os cucos, foi por os ovos no ninho do PSD, roubando-lhe despudoradamente o espaço politico.
    Ouvir o Manuel Alegre a gritar que vem aí um lobo que não existe, a destruição do estado social pela direita é patetico, e se ele pensa que pode ser eleito com este tipo de conversa, é pensar que os portugueses são mais burros do que são na realidade: ninguem acredita nele, e alem do mais quem está a dar grandes machadadas nos subsidios sociais e no SNS é o partido socialista.
    Portanto o que nos espera não vai nada facil: já aqui o escrevi, e volto a afirmar que a seguir às eleições presidenciais, vamos cá ter o FMI a mandar nisto tudo, e a receita vai ser muito mais violenta do que foi da outra vez. Vamos ver se desta aprendemos.

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  7. PMF's avatar
    13 Setembro, 2010 02:12

    Eduardo F.,

    Não, nada disso. MFL perdeu as eleições porque fez uma péssima opisição e uma ainda pior campanha. Na primeira, nunca foi convincente (com os constantes desmentidos/ confusões que os seus pares no partido provocavam); em campanha, com o famigerado silêncio, esteve sempre mal…

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  8. Nuno's avatar
    Nuno permalink
    13 Setembro, 2010 05:37


    É assim… recorrentemente incontornável e, em particular, estruturante.

    Nuno

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