Revisão constitucional de Passos Coelho II
Jorge Miranda e Vital Moreira, dois dos chamados pais da Consituição, estão preocupados e são contra a revisão constitucional de Passos Coelho. É normal. Graças à constituição, Jorge Miranda e Vital Moreira têm um peso nas opções políticas muito superior à dos restantes cidadãos. Não apenas porque as suas ideias estão plasmadas na Constituição mas também porque podem usar o seu estatuto para interpretar a Constituição com o objectivo de boicotar propostas com que não concordam. A constituição tal como existe é o garante de que os pais da Constituição continuarão a mandar e a definir o destino das novas gerações. As novas gerações, para poderem viver as suas vidas, têm que matar politicamente os pais da Constituição. As novas gerações não têm culpa que a geração de Vital Moreira e de Jorge Miranda tivesse acreditado nos amanhãs que cantam. Os pais da Constituição já estragaram a vida a uma geração inteira. Já chega. Precisamos de uma Constituição orfã.

Eis uma maneira imbecil (desculpe a franqueza) de colocar o problema. Assumindo que uma revisão seria sempre proposta por individuos, e ficaria com o cunho individual de quem a conseguisse fazer votar, então a questão seria : queremos Passos Coelho e Bacelar Gouveia (e João Miranda) como pais da revisão ? E’ que se formos comparar o que estes ultimos fizeram até agora em prol das gerações futuras com o que fizeram Jorge Miranda, Vital Moreira e os outros “pais” da constituição (assumindo que esse conceito tenha sentido, por mim os pais da constituição são os Portugueses, e deveriam também ser eles os pais de qualquer revisão), não sei mesmo quem fica melhor na fotografia…
E argumentos de fundo, tem alguns para a troca ?
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Cro João Viegas,
Em primeiro lugar a proposta de Passos Coelho não tem o peso histórico da Constituição de 75, logo não haverá pais da revisão.
Em segundo lugar, a proposta de Passos Coelho elimina da constituição entraves ao legislador, logo nunca poderia ser usada, como a actual o é pelos respectivos pais, para boicotar o debate político. Com esta proposta, as gerações futuras poderão fazer o que entenderem sem estarem dependentes da opinião dos pais em matérias que são claramente transitórias e dependentes das circunstâncias (como a forma como se organiza a saúde, a educação e o emprego).
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Simbolicamente, Vital e Miranda ( Jorge) são os pais da Constituição. Porque estiveram na Constituinte e foram os professores dos princípios que copiaram de outros lados. Eram eles os estudiosos e como tinham os livros impuseram democraticamente o seu saber escolástico. No caso de Vital, o simbolismo é mais lato porque abrange o PCP e de caminho o verdadeiro constitucionalista que é Gomes Canotilho. Vital é um aparatchick desse sistema e um teórico de terceira categoria comparado com aquele. Jorge Miranda representa o social-democrata com vergonha de se alinhar pelo capitalismo liberal.
Assim, simbolicamente, não é nada imbecil querer matar esses putativos padrastos da lei que tolhe o desenvolvimento português.
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Apoiado. A história vai colocar esses dois “democratas” (VM e JM) muito mal na fotografia. Mas por enquanto ainda têm o (deformado) sistema que criaram a defendê-los.
Porque não um referendo nacional sobre a Constituição, precedido de debate sobre os s/ méritos e deméritos?.
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Este post de João Miranda merecia ser comentado pelos dois visados. Será que não há em Portugal um jornalista que os confronte que com esta opinião que considero extremamente pertinente?
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Caro João Miranda,
Posso imaginar muitas coisas que “não contêm entraves ao legislador” – um blogue, um bom livro, uma sinfonia, etc. – agora uma constituição, salvo erro, serve para isso mesmo…
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“elimina da constituição entraves ao legislador”
João Miranda,
mas não é esta a razão de ser da constituição?!
Se a constituição remeter tudo para as leis ordinárias que razão de ser ela tem?
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Caro João Viegas,
Se uma Constituição diz que são proibidos os despdimentos sem justa causa e passa a dizer que isso é tratado pela legislação, os entraves ao legislador diminuem. O legislador passa a poder optar entre a regra da justa causa e uma regra mais flexível.
Se uma constituição diz que o Estado é obrigado a manter uma rede de ensino público e deixa de dizer, os entraves ao legislador diminuem. O legislador passa a poder optar entre um modelo em que a rede pública cobre todas as necessidades e um modelo de rede mista (pública e privada).
Se uma constituição diz que a saude é tendencialmente gratuita e deixa de dizer, os entraves ao legislador diminuem. O legislador pode optar entre um modelo tendencialmente gratuito e um modelo com co-pagamento.
Como vê, há constituições que entravam mais o legislador do que outras.
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TaCerto,
A revisão não tem que se pronunciar sobre tudo. Muiito menos sobre os detalhes da saúde e educação. A Constituição dos EUA não tem esses entraves nessas áreas. Só os tem em matérias fundamentais, como os direitosfundamentais e a organização do Estado. E não deixa de ser uma constituição por causa disso.
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A Inglaterra, país anti-democrático por excelência e onde Vital Moreira passou uns tempos antes do 25 de Abril, não tem Constituição escrita.
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Caro JM,
Podemos num blog dizer tudo, escrever tudo, mesmo sem qualquer fundamento válido, corremos o risco de nos chamarem tolos. Este seu post, revela uma interpretação cega do que é a justiça, o direito e do que é uma constituição e para que serve. Afirmar que esta CRP já condenou a vida de gerações é uma verdadeira “treta”, simplesmente porque na CRP não encontra qualquer fundamento para isso. Lembro que esta CRP que lhe permite, que hoje possa escrever aquilo que escreve, pensar o que pensa e dizê-lo em voz alta, mesmo que se trate de pura demagogia como é o caso.
A CRP deve ser e é Lei fundamental, trave mestra do direito Português, desta democracia plantada à beira mar.
VIVA PORTUGAL
Aconselho vivamente a estudar a CRP em vez de se amarrar a interpretações simplistas tão fáceis de encontrar em qualquer mesa de café. Para o fazer aproveite os manuais já publicados dos especialistas que tanto critica, ainda hoje usados nas Universidades Portuguesas.
Fico retido neste meu canto à espera dos seus argumentos jurídicos, que justificam essa sua análise da CRP.
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Pois eu acho que tem algum sentido a constituição vedar ao legislador ordinario a possibilidade de admitir, não so despedimentos sem justa causa, mas também, normas fiscais ou penais retroactivas, atentados à propriedade privada (ou alias à liberdade de empresa) e aos principios fundamentais que me parecem constituir o nucleo fundamental do nosso ordenamento.
Vejo que você discorda.
Tudo bem. Podemos conceber inumeras revisões, para retirar garantias, ou alias para consagrar outras (por exemplo o direito absoluto de despedir um trabalhador de forma sumaria sem dar justificações). Agora uma coisa é certa, havera sempre a possibilidade de designar “pais” para a consituição, ou para a revisão, e a forma como o problema é colocado é perfeitamente descabida.
Ja agora, conhece algum ordenamento juridico que permita despedimentos sem justa causa ?
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“Muiito menos sobre os detalhes da saúde e educação”
“Só os tem em matérias fundamentais”
Entendo. É uma questão de ideologia. O João (não importa se bem ou mal) acha que a saúde e educação (e deduzo que pricipais relações laborais entre empregadores/empregados) não são matérias fundamentais. Os “pais” da constituição (e atrevo-me a dizer talvez a maioria da população Portuguesa) pensa que sim, são matérias fundamentais. Talvez porque tenham a ver directamente com a vida/morte dos cidadãos.
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««Pois eu acho que tem algum sentido a constituição vedar ao legislador ordinario a possibilidade de admitir, não so despedimentos sem justa causa,»»
Proibição do despedimento sem justa causa é totalmente inconsistente com a realidade, sobretudo porque essa norma é interpretada como um impedimento para o próprio trabalhador abdicar desse direito. O que implica que em Portugal contratos sem termo em que o trabalhador abdica da justa causa como razão de despedimento são impossíveis. A norma impede ainda contratos em que o despedimento possa ocorrer por troca por uma indminização pré-fixada. Estes impedimentos são incompatíveis com uma economia moderna e por isso têm custos sob a forma de desemprego e de contratos desadequados às funções.
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O ordenamento juridíco denomina-se “razão atendível”. (ponto)
Esta proposta de revisão na presente data, antes das Presidenciais, elaborada por um partido da oposição que À DATA se encontra em minoria…é palha, fait-divers e um autêntico tiro no pé de PPC. Começo a desconfiar que PPC perdeu a vontade de ser PM. Ou será inata inaptidão ?
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««Ja agora, conhece algum ordenamento juridico que permita despedimentos sem justa causa ?»»
Sim, vários. Reino Unido, EUA, por exemplo, existem formas contratuais em que o despedimento unilateral é permitido. Noutros países o despedimento é permitido contra indminização fixada por lei.
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««Entendo. É uma questão de ideologia.»»
Se é uma questão de ideologia, porque é que a ideologia de uma determinada época histórica deve ser plamasda na constituição limitando a liberdade das gerações seguintes para optar por outra ideologia?
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««Agora uma coisa é certa, havera sempre a possibilidade de designar “pais” para a consituição, ou para a revisão, e a forma como o problema é colocado é perfeitamente descabida.»»
Já lhe respondi a isso no meu primeiro comentário. Qual é o seu contra-argumento?
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Um despedimento é sempre unilateral e, em principio (agora é verdade que a questão assume contornos especificos consoante os ordenamentos), um acordo para pôr termo a uma relação de trabalho (que entendo que não devia ser permitido sem limites, pois estamos a falar de um contrato em que uma parte é vulneravel, mas isso é outro assunto) não é um despedimento.
As regras constitucionais utilizam os termos comuns e devem ser compreendidas pelo que dizem. Que eu saiba, o facto de um trabalhador trabalhar mal, ou de não ser possivel a empresa continuar a emprega-lo por razões economicas objectivas, são considerados como justas causas de despedimento. Porque carga de agua é que uma empresa havia de poder despedir um trabalhador “sem justa causa” ?
O que me parece contrario a uma economia moderna, e uma mentira do ponto de vista economico, é antes a possibilidade dada a um empresario de enriquecer à custa de um trabalho que ele não paga ao seu justo valor…
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««Que eu saiba, o facto de um trabalhador trabalhar mal, ou de não ser possivel a empresa continuar a emprega-lo por razões economicas objectivas, são considerados como justas causas de despedimento.»»
Na prática não são. Aquela norma constitucional impõe uma cultura jurídica que obriga a que a questão seja decidida em tribunal e que o ónus da prova esteja do lado do empregador. O que, obviamente implica que não vale a pena tentar despedir alguém seguindo esse procedimento.
««Porque carga de agua é que uma empresa havia de poder despedir um trabalhador “sem justa causa” ?»»
Porque as partes podem ter interesse em acordar um contrato desse tipo.
««um empresario de enriquecer à custa de um trabalho que ele não paga ao seu justo valor…»»
O que é que isso tem a ver com despedimentos? Empregado despedido não trabalha.
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A Constituição foi escrita num tempo em que existiam dois galos (Cunhal e Soares) e um só poleiro. Numa coisa estavam, no entento, ambos de acordo: poder, todo, muito. As directivas dadas aos escribas (Vital e Miranda) foram simples. Perpetuem-me no poder, absoluto. Daí uma Lei Eleitoral que entregava, ao vencedor, o País, totalmente, de mão beijada. Tiveram azar. Um esqueceu-se que este País estava do lado errado da cortina de ferro. Ao outro deram-lhe a volta por dentro. O último a rir foi esta prenda que ainda lá está.
Mas a abusiva Lei Eleitoral é sagrada. Aí PS e PSD estão completamente de acordo. Afinal ambos são, apenas, máquinas de poder. Folcloricamente, para entreter o pagode, vão discutindo, de forma inócua, o emprego, e a fala dele.
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««Um despedimento é sempre unilateral e, em principio (agora é verdade que a questão assume contornos especificos consoante os ordenamentos), um acordo para pôr termo a uma relação de trabalho (que entendo que não devia ser permitido sem limites, pois estamos a falar de um contrato em que uma parte é vulneravel, mas isso é outro assunto) não é um despedimento.»»
O ponto é que existem vários países em que:
– o despedimento é livre (em Portugal não é possível)
– o despedimento é possível contra indminização (não se trata de um acordo entre as partes, a indminização está pré-fixada) sem que o caso tenha que passar pelos tribunais (em Portugal não é possível)
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Os Divórcios são permitidos e bem… Parece que aí não há “vulneráveis”…
Já agora, vamos colocar os Divórcios na Constituição?
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Só concordo com essa sugestão, algo duvidosa, de se rever a Constituição actual, se forem feitas algumas alterações muito necessárias: ILEGALIZAR O CASAMENTO HOMOSSEXUAL E RE-INTRODUZIR A PENA DE MORTE EM PORTUGAL!
Se não forem feitas estas alterações, tão essenciais nos tempos que correm, acho que a ideia de se rever a Constituição é perfeitamente estapafúrdica e inútil.
Por outro lado, acho que acabar com o Serviço Nacional de Saúde é um autêntico crime e uma grave ofensa à DIGNIDADE HUMANA. Utilizar termos como “LUCRO” aplicados às instituições de saúde é HEDIONDO e ABOMINÁVEL!!! Por outras palavras: se um Hospital der “PREJUÍZO”, a solução seria deixar morrer uns tantos quantos doentes ou diminuir a qualidade do atendimento para se “EQUILIBRAR AS CONTAS”?!?
Lembrem-se que só uma minoria de “ESCOLHIDOS” com maior poder de compra pode recorrer às instituições de saúde privadas. Claro que acabar com o Serviço Nacional de Saúde não importa minimamente para quem “NADAR EM DINHEIRO”, pois a esses pouco importa o que sofrem os menos afortunados…
Por outro lado, seria uma boa notícia para quem REALMENTE TRABALHA PARA SOBREVIVER, se fossem legalizados os DESPEDIMENTOS SEM JUSTA CAUSA?!? Ou seja, se os patrões pudessem DESPEDIR A SEU BEL-PRAZER ?!? Seria outra DESUMANIDADE CRUEL que só iria agravar esse verdadeiro flagelo que é a PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO e mandaria às urtigas os direitos dos trabalhadores, que é um dos sonhos de muitos patrões, para além de agravar os problemas sociais de muita gente que tem famílias para sustentar.
Obviamente: PARA QUEM MANDA, ESTÁ POR CIMA E GANHA SALÁRIOS PRINCIPESCOS, O PROBLEMA DO DESEMPREGO E DA AUSÊNCIA DE GARANTIAS NO TRABALHO, NADA IMPORTA, A NÃO SER PARA EMBELEZAR DISCURSOS DE CIRCUNSTÂNCIA.
Se não forem tomados em conta os dois pontos que eu referi mais acima no começo deste comentário, acho uma má ideia e inoportuna a revisão constitucional…
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Não é bem assim João Miranda :
1. Na pratica, cabe ao trabalhador despedido, quando considera que foi sem justa causa, mover uma acção em tribunal. Muitos não o fazem, nomeadamente quando não têm meios, ou alias garantias que a acção vai de facto ter um resultado palpavel (em tempo util).
2. O que diz sobre o pretenso interesse das partes também é uma falacia. Uma das partes esta fragilizada no momento em que declara o seu “interesse” e por isso merece ter protecção da lei. Vamos por absurdo : se o interesse mutuo fôr assim tão grande e tão obvio, nunca vai haver litigio nem sera invocada a protecção da lei…
3. A possibilidade dada ao empregador de despedir “sem justa causa” (que nem no RU existe, sendo apenas que no sistema britânico, tanto quanto sei, a liberdade contratual é maior e a justa causa inclui a causa prevista no contrato) possibilita, como é obvio, o empregador fazer uma chantagem permanente sobre o trabalhador e manter o seu salario muito abaixo do que vale o trabalho.
4. E finalmente, não me venha com teorias de “valor de mercado”, salvo durante algumas décadas do século XIX, o preço do trabalho teve sempre uma componente “administratada” (um minimo). Porque se fosse unicamente a oferta e a procura, teriamos crianças de 8 anos a trabalhar na mina em troca de duas codeas de pão. Isso, não so ficaria mal, mas criaria uma situação perigosa, pois é precisamente nesse tipo de contextos que aparecem comunistas…
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««Porque se fosse unicamente a oferta e a procura, teriamos crianças de 8 anos a trabalhar na mina em troca de duas codeas de pão.»»
Como explica que a esmagadora maioria dos trabalhadores receba salários acima do salário mínimo?
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joão viegas
Posted 15 Setembro, 2010 at 12:00
Rigoroso o seu contra-argumento.
Conciso e acima de tudo ético.
Cumprimentos
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««o empregador fazer uma chantagem permanente sobre o trabalhador e manter o seu salario muito abaixo do que vale o trabalho.»»
Por isso é que no Reino Unido os salários são mais baixos que os salários portugueses?
Já agora, como é que se determina o que vale o trabalho?
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Quando leio muitos dos comentários daqueles que entendem a necessidade imperiosa de o estado “defender”, a todo o transe, uns cidadãos perante outros (empregados e empregadores), a pretexto da situação desigual em que se encontram na celebração de um contrato de trabalho, ocorrem-me factos como este:
«os custos unitários do trabalho não aumentaram entre 1960 e 1973, apesar de uma quase triplicação(!) dos salários reais – o que quer dizer que a produtividade aumentou na exacta proporção dos salários».
(Excerto do livro de Luciano Alvarez, intitulado “Economia Portuguesa”, recentemente editado pela fundação Manuel dos Santos).
Retive a seguinte passagem:
Seria bom que reflectíssemos perante este facto, nomeadamente quanto ao efectivo efeito das políticas macroeconómicas (efeito positivo, entenda-se).
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“Como explica que a esmagadora maioria dos trabalhadores receba salários acima do salário mínimo?”
Porque o valor economico do trabalho é hoje fixado por muitos factores, nomeadamente por negociação colectiva , e atravês de mecanismos que garantem a preservação de um certo equilibrio entre os interesses das partes em presença (trabalhadores e empresarios). Alias, uma grande parte dos salarios, em Portugal, no RU ou noutros paises, são fixados por negociação colectiva. So que esses mecanismos não apareceram espontâneamente por obra e graça do funcionamento do mercado. Apareceram porque se estabeleceram regras que favorecem (e bem) a organização sindical (e alias as organizações patronais) e, de uma forma geral, que impedem a selvajaria que existiria (ou poderia existir) se os salarios e as condições de trabalho fossem unicamente deixados à negociação individual.
Isto não invalida a necessidade de fixarmos regras que imponham minimos, tanto para os salarios, como para as outras condições estipuladas nos contratos de trabalho. Que a maior parte das empresas cumpram as regras e operem de acordo com os dados reais da economia não me parece poder servir de argumento para que algumas delas sejam dispensadas de o fazer, ou de cumprir os minimos…
A esmagadora maioria dos contribuintes paga impostos, portanto podemos tolerar a fraude fiscal, é isso ?
Vendo bem, a pergunta que você coloca devia antes ser posta ao contrario : uma vez que, nas economias desenvolvidas, os salarios e as condições médias de trabalho tendem a ser superiores aos minimos exigidos por lei, como pode suceder que apareçam contratos em que o trabalhador aceita submeter-se por duas côdeas de pão ? Resposta : porque as leis do mercado, ou pelo menos as do mercado de trabalho, que se caracteriza por existir uma parte que se coloca na dependência economica da outra, quando não devidamente enquadradas, permitem esses abusos, que são contraproducentes sob todos os pontos de vista. O industrial português que vive de poder pagar aos seus funcionarios uma miséria que nem chega para eles se alimentarem, e que por conseguinte é, de um ponto de vista economico, um parasita do quintal dos funcionarios que utiliza, é um produto das “leis do mercado de trabalho” a funcionar sem intervenção. Quem acredita que esse industrial produz alguma coisa de jeito para o pais ?
Vamos tentar ser simples : se eu disser que o merceeiro deve poder rescindir o contrato imediatamente apos eu ter pago as laranjas e ficar com o meu dinheiro sem ter que dar satisfações a ninguém, e se concluisse dai que a protecção da propriedade privada constitui um obstaclo arbitrario às necessidades da economia (como é que o merceeiro pode enriquecer nessas condições) você também concordava ?
PS : Ja agora, o que você esta a pôr em causa não é propriamente a norma que proibe os despedimentos por justa causa, mas antes a norma que diz que existe garantia de emprego, mas adiante.
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joão viegas:
o seu argumentário é conhecido na esquerda em geral. Aparentemente não é rebatível porque o assalariado é a parte mais fraca no contrato bilateral em que se obriga a prestar um serviço remunerado sob a direcção de outrém, o empregador, o capitalista.
A esquerda marxista tem um argumentário imbatível para convencer as pessoas da razão que lhe assiste.
Aliás, dificilmente se pode contestar esse argumentário a não ser por uma via paradoxal que há muito me inquieta: e se tais asserções sobre a tal “parte mais fraca” forem falsas?
´
O capitalismo não tem grande filosofia a oferecer e baseia-se numas regras simples da experiência comum: quem tem de arriscar o coiro e o cabelo, deve poder auferir mais valias que lhe permitam ganhar mais que os que apenas entregam a sua força de trabalho a troco de um salário.
Esta filosofia tem muito que se lhe diga e a social-democracia já disse. Por isso é que há sindicatos e convenções colectivas e uma UGT que defende com unhas e dentes os seus lugares de sindicalistas vitalícios…
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Caro José,
Não sou marxista e aceito o teste da experiência comum. Da proxima vez que vir um pedinte na rua vou perguntar-lhe se se trata de um ex-trabalhador ou de um ex-capitalista levado à falência por causa da arrogância de sindicalistas dogmaticos. Depois venho ca contar.
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José,
“Aliás, dificilmente se pode contestar esse argumentário a não ser por uma via paradoxal que há muito me inquieta: e se tais asserções sobre a tal “parte mais fraca” forem falsas?”
Concordo com muito do que por cá comenta e que pela Loja posta…porêm esta sua suposição é errata. (ponto)
É simplesmente rotular o empregado como possível, suposto, futuro, real explorador e aproveitador do empregador que NA REALIDADE FACTUAL se encontra sempre numa posição de inferioridade no contrato celebrado (como na realidade tem que ser, pois quem contrata e paga os serviços prestados tem, numa sociedade contratual honrada e séria, direitos superiores à priori – mal seria se os contratados pudessem decidir por si mesmos o destino da empresa contratante)
, não obstante esta proposta “atendível” é um reforço de posição da entidade que em si mesma, NA REALIDADE DOS NOSSOS DIAS, já detêm o direito de despedimento, com ou sem justa causa, porque mil e uma empresas se dissolvem sem ressarcimento dos seus trabalhadores, porque o elo contratado não tem na maioria dos casos possibilidades económicas de garantir justiça no inevitável destino da justiça.
Isto não é demagogia nem sindicalismo, é a realidade em Portugal. e só não vê ou compreende quem não quer ou não convêm ver.
Coisas simples…como o João Viegas aqui desmembrou os argumentos eternos e convictos de João Miranda…e repito, com este tipo de atoardas e fait-divers o povo cansado, farto e expoliado óbviamente não se enganará pela terceira vez com a postura sócratiana mas também não enverederá em desespero pela alternativa coelhone que tem por programa simplesmente a privatização dos pilares Educação e Saúde. Na Justiça nem apitam porque estão numa órgia conjunta, igualmente comprometidos desde que se fez “democracia” neste Portugal eternamente adiado.
PALHA!!!
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Caro João Miranda:
“indemnização”, sff.
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Outside:
Coloquei a questão no ponto chave: a doutrina da exploração do homem pelo homem.
É essa ainda a ideologia da esquerda, como se pode ler.
O que pode ser paradoxal e apontei foi que a exploração já não é o que era. E muito por acção da Esquerda, diga-se em abono da verdade. Porém, como sabe, o paradigma dessa mesma Esquerda é o de reverter a mais valia que o trabalho cria, para o trabalhador que a produz directamente. Dispensando de caminho os capitalistas.
Por mim só pergunto se essa solução é solução. Retoricamente, porque sei que não é.
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Para mim isso é a essência da Esquerda.
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Portanto, desde que aceitemos o capitalismo como o modo de produzir coisas mais perfeito que existe, devemos entender que uma Constituição deve reflectir isso mesmo e não o sistema que o nega.
Para tal, a discussão sobre salários, produtividade, mais-valias, lucro, dividendos etc etc, deve fazer-se nesse quadro temático.
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Parece-me que por estas bandas há muito que se esqueceram das questões fundamentais:
O que busca o Homem na sua vida? Viveremos mesmo numa Democracia? E, admitndo que procuramos um sistema político no qual o homem possa estar satisfeito com a sua expressão e o seu trabalho, poderá ser atingido pelo capitalismo liberal?
À primeira, a psicologia dá pistas bem mais interessantes do que a cortina de fumo capitalista (marketing) nos permite auscultar… Esta dita cortina de fumo é do problema uma parte que não, nem nunca deixará, viver em democracia, uma vez que manipula (e é desenhada para isso mesmo) grande parte da população mundial, subjugando aos valores dos consumo, bem, valores materialistas…
Agora querem os Sr.’s que a constituição traduza a vontade da população, PURA DEMAGOGIA, será mesmo a vontade da população?
Claro que não… o Homem busca a resposta à primeira pergunta, os políticos respondem-lhe com a segunda, iludindo-o com a terceira…
Quando na verdade o Homem contribui para a acumulação de riqueza das grandes corporações empresariais… É justamente o liberalismo empresarial que por sua força, restringe a liberdade do Homem comum…
Há algo de essencialmente errado no meio disto tudo, não vos parece… E ainda querem “liberalizar” (ñ é bem o termo) a Constituição…
A revisão constitucional é no seu todo um magnífico falso dilema… Dever-se-ía rever o problema da personalidade juridica das empresas, que de persona não têm nada…
Querem libertar o Homem políticamente para que ele possa ser legalmente manipulado (ñ livre)… Eduquem-no a ter liberdade de pensamento antes de mais…
A parte disso, toda esta discussão e centenas de posts não têm razão de ser…
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José:
Entendo o seu pensamento mas a questão de fundo, a essência humana deste tema é..são coisas simples para mim. (ponto). Esquecendo a esquerda, esquecendo a direita e o centro? idem. Aparência sem conteúdo, sem rocha…apenas poeira e direccionada erradamente social/economicamente (sem capitalismos ou comunismos!)
Estas Alterações Constitucionais (Fundamentais e de vital importância no espelho da humanidade de um povo)…Não entendo a necessidade da urgência das mesmas.
Não deslumbro lucidez, pensamento, dever de cidadania, programação nem razão para as mesmas.
“O capitalismo não tem grande filosofia a oferecer e baseia-se numas regras simples da experiência comum: quem tem de arriscar o coiro e o cabelo, deve poder auferir mais valias que lhe permitam ganhar mais que os que apenas entregam a sua força de trabalho a troco de um salário.”
Este capitalismo…como esta democracia, não me revejo nestas realidades…fados e dogmas inultrapassáveis.
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Para além de que a regra (que estava noutro post, certo?), que aparentemente seria simples, acabou por ser uma das maiores asneiras ditas…
O próprio capitalismo não se revê nessa regra:
Será que alguem já leu “Animal Farm” do George Orwell!? Em caso afirmativo é altura de dizer que apenas os porcos gostariam que fosse verdade.
Em caso negativo, digamos que não percebo porque o trabalho físico tem valor inferior ao “intelectual”… Digamos que apenas conviria aos “intelectuais” (que não o são) tal confronto… Ups!!! Mas são eles que estão no parlamento… Ups!!! São eles que estão a frente das empresas… etc.
Ahhh…. e não sou de esquerda, nem de direita, nem sequer do centro… sou apenas crítico.
Queria apenas revelar que rever a constituição não tem sentido, é “apenas” um golpe neoliberal, qualquer argumento é uma tentativa de o esconder…
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