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por estranho que possa parecer

4 Novembro, 2010
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O avançado grau de abandalhamento a que chegou Portugal reflecte-se, assustadoramente, na forma como são desconsideradas as suas instituições políticas – ou representativas – desde logo por quem deveriam representar, o povo, e no desrespeito que elas nutrem umas pelas outras, como hoje se viu em relação ao Presidente da República. É claro que as «críticas» que Cavaco ouviu hoje no Parlamento não se destinaram supostamente ao Cavaco-Presidente, mas ao Cavaco-Candidato, por este último ter postado, numa qualquer rede social, uns comentários menos simpáticos ao debate do orçamento. Evidentemente que o Cavaco-Presidente, este que está em funções e o que será reeleito, não deixará de ostentar o lamaçal que foi arrostado às faces do Cavaco-Candidato, o que não lhe ficará nada bem, nem humanamente deixará de influir nas decisões políticas que, num futuro próximo, o Cavaco-Presidente será obrigado a tomar.

 

O facto é que em qualquer regime político ou sistema social, a existência de instituições que estejam acima da conflitualidade política é condição essencial para a sua sobrevivência. Não por acaso, os regimes democráticos têm seguido três padrões essenciais: o presidencialismo, com supremacia do Chefe de Estado e separação razoável de poderes entre as instituições políticas; o parlamentarismo com chefia de estado monárquica, onde o rei é politicamente inatacável por não ter qualquer função política ou de soberania e que concentra a decisão política no governo; e o parlamentarismo com um Chefe de Estado de inspiração monárquica, isto é, sem poderes efectivos e designado por escolha limitada, que reproduz a organização constitucional da monarquia parlamentar. O modelo que temos seguido de há 34 anos para cá – o semipresidencialismo – só produz conflitualidade e em nada contribui para a estabilidade política de que um pequeno país como o nosso tanto precisa. Analisando as alternativas, há que convir que o presidencialismo não faz parte das nossas tradições, nem a nacional nem a europeia, e que o parlamentarismo com um chefe de estado controlado pelo parlamento e pelos partidos políticos não augura nada de bom, se tivermos em conta o estado a que o país foi conduzido pela irresponsabilidade de sucessivos governos com legitimidade parlamentar. Resta-nos, assim, a monarquia, por estranho que possa parecer.

14 comentários leave one →
  1. Nuno's avatar
    Nuno permalink
    4 Novembro, 2010 02:36


    A questão é saber se o Cavaco está à altura das tais necessárias decisões políticas.
    Talvez, de facto, a monarquia seja o melhor sistema para Portugal.

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  2. rui a.'s avatar
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    4 Novembro, 2010 02:42

    As decisões de Cavaco, por mais acertadas que sejam, serão sempre vistas, por parte dos cidadãos e dos partidos, como influenciadas pelo espaço político a que pertence ou a que pertenceu, pela sua história como antigo governante, pela tonalidade política do eleitorado que o reelegeu. Não serão nunca consensuais, nem respeitadas e aceites por todos. Nesse aspecto, quanto melhores, pior, porque se tomar boas decisões elas serão politicamente questionadas, como se fossem más, e terão um caminho de difícil sucesso pela frente, com parte do país a oferecer-lhes resistência irracional.

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  3. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    4 Novembro, 2010 03:04

    Cavaco não está isento de culpas, sejam elas remotas ou próximas.
    Cavaco é um velho politico profissional egocêntrico (mais de 30 anos nestas lides!), e desde que saiu de 1º Ministro, o seu desporto favorito foi destruir ou desautorizar as sucessivas lideranças do PSD, talvez para ninguém lhe fazer sombra.
    Durantes estes últimos cinco anos ele esteve quietinho no remanso do lar e um belo dia acorda, e aquee que nunca quis comentar nada, começa a twittar para gáudio e felecidade do JMF.
    Tudo leva a crer que o actual PR vai ser reeleito, mas não vai ser por que o mereça, mas simplesmente por demérito do adversário.
    Faz-me lembrar aquele piloto português de formula 1 que ficou em 3º lugar no pódium, quando estavam a competir sómente cinco carros, pois os outros estavam em «greve».
    Outro grande equívoco é considerar o Cavaco de direita ou mesmo liberal.
    Cavaco é um estatista à moda antiga, como é são todos os funcionários públicos.
    Nem sequer se lhe conhece a ideologia que professa.
    No fundo é um português suave. Não quer ondas. Gosta de ir à missa e no verão gosta de ir à praia.

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  4. Insurrecto Meditativ's avatar
  5. floribundus's avatar
    floribundus permalink
    4 Novembro, 2010 08:28

    a fossa socialista começa a despejar o conteúdo intestinal dos seus militantes.
    são como os bacilos lácticos que morrem nos próprios dejectos

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  6. Nuno Castelo-Branco's avatar
    4 Novembro, 2010 10:12

    O problema é que Cavaco nunca fez muito para se manter isolado da luta partidária. Para mais, basta conferir o seu círculo de amigos, alguns dos quais se encontram envolvidos em assunto nada recomendáveis. Cavaco fez política partidária durante o “tempo de silêncio” antes da eleição, portou-se escandalosamente durante o governo de Santana. Criou inimigos dentro do seu próprio partido. Durante a última campanha eleitoral, do seu staff ou gabinete, veio uma das mais desastrosas manobras políticas de que há memória.

    Chegou agora o tempo da campanha da reeleição e começou desde logo com erros. Para quem apregoa não ir colar um cartaz, como se não fosse fazer a campanha a que tem direito, desde logo se nota a encenação eleiçoeira nas cerimónias de Estado, tudo orquestrado como convém. Os discursos estão cheios de fraseologia tipicamente de campanha e pelos vistos, esqueceu-se de que ainda é presidente. Tanto pior, pois nós não nos esquecemos. É que Cavaco nem sequer tem qualquer necessidade em enveredar pelos caminhos dos seus contendores à presidência e neste aspecto, os partidos têm alguma razão em criticá-lo. Todas as suas mensagens estão recheadas de auto-elevação e de desprezo pelos demais, como é bem um velho hábito seu. Para este “apolítico” que vive obcecado pelo jogo político, nada melhor encontrou para se fazer ouvir, senão uma espécie de “Feicebuque” através do twitter. Falta de senso, sem dúvida. Até que ponto estará preparado para se rebaixar ainda mais, abrindo a porta a ataques bem mortíferos e provenientes de sectores que o conhecem muito bem? A si e aos seus, claro.

    Tem razão: resta-nos a monarquia.

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  7. ramiro marques's avatar
    4 Novembro, 2010 11:37

    Obviamente, não voto em Cavaco. Tão pouco no Alegre. Nesse dia, ficarei em casa.

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  8. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    4 Novembro, 2010 11:59

    “O facto é que em qualquer regime político ou sistema social, a existência de instituições que estejam acima da conflitualidade política é condição essencial para a sua sobrevivência.”
    .
    Não parece acontecer nos EUA onde o sistema político tem muito mais anos que o nosso e a maioria dos Europeus. Nos EUA todo o sistema político está em conflito. É isso que significa checks and balances.

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  9. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    4 Novembro, 2010 12:04

    Aliás Portugal é um País com um muito baixo grau de conflitualidade política. Um País na bancarrota em que o maior partido da oposição concorda com o Governo várias vezes depois de este ter falhado e mentido sucessivamente . Coisa nunca vista.
    Um País que remou sempre para o mesmo lado nestes últimos 30 anos?
    Claro que remou para o sítio errado, e como todos remaram não há redundância…
    Só possível num País que tem o ADN social-corporativo.

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  10. rui a.'s avatar
    rui a. permalink
    4 Novembro, 2010 12:33

    «Nos EUA todo o sistema político está em conflito.»

    Sim. Mas é o sistema onde os poderes de soberania são exercidos do modo mais separado que é possível, como é assinalado no post, sendo que cada órgão tem uma razoável autonomia perante os outros. Os checks and balances são compensações para impedir o abuso de poderes e não para substituir órgãos no exercício das suas competências próprias. E essa conflitualidade não pode, como em Portugal, levar à destituição de um órgão político por outro: o Presidente não é politicamente rersponsável perante as Câmaras parlamentares, e governa durante quatro anos; e estas em circunstância alguma podem ser dissolvidas pelo chefe de estado, pelo que as suas legislaturas são ininterruptas. Isto faz obviamente diminuir de forma substancial a natureza da conflitualidade política americana e, sobretudo, as suas consequências no descrédito das instituições.
    Quanto a Portugal, são conhecidas as razões históricas que levaram a que o modelo semipresidencialista nos fosse imposto na Constituinte de 75, e nem o facto do mesmo ter sido atenuado na revisão de 82 e pelas circunstâncias políticas eleitorais que levaram a algumas maiorias absolutas fez com que o sistema deixasse de ser de confusão intencional de poderes e de funções, com a iminente ameaça da sua dissolução, como sucedeu, por exemplo, ainda há bem pouco tempo a um governo com maioria parlamentar absoluta. O facto do país ter ido todo para o mesmo lado, nos últimos 30 anos, como diz, não exclui a existência da conflitualidade e do desrespeito institucional. Pelo contrário, agrava-a, porquanto as instituições se sobrepõem uma às outras no mesmo espaço. Veja, por exemplo, o que sucede com o poder judicial e o govermo. Acha possível, nos EUA, semelhante promiscuídade e dirigismo?

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  11. pensador's avatar
    4 Novembro, 2010 16:00

    Este Nuno Castelo-Branco, conde de Nenhures como o primo José, envergonha o ideal monárquico (sobre o qual continuamente manifesta a mais profunda ignorância). É que não diz coisa com coisa, dando assim uma péssima imagem da chafarica, logo agora que se festejam cem anos da triste república… Já é preciso azar.

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  12. JLeme's avatar
    JLeme permalink
    5 Novembro, 2010 04:05

    Édifícil aturar os RODASNEP ERVIL que aparecem por aqui. São livres pensadores muito agarrados a ideais e esquemas estupidos e nefastos.
    O jacobinismo é paranoia e a escolha d república versus monarquia só revela idiotice.

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  13. Pensador's avatar
    5 Novembro, 2010 11:12

    JLeme,
    Escusava bem de vir para aqui fazer prova da sua indigência mental.

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  14. Nuno Castelo-Branco's avatar
    5 Novembro, 2010 16:52

    …”envergonha o ideal monárquico”. Pensava estar a referir-me ao sr. C.S. e apenas repeti no fim, a última frase do post. Nada mais.
    Quanto ao reclamado pensador cujo pensamento ninguém conhece, está ainda pior que aquele outro senhor, cujo pseudónimo apontou e a quem chama de conde. Pois, pelo menos, dele sabe-se o verdadeiro nome, José Vieira. Acerca de si, nem isso.

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