PSD – pressupostos e estratégia.
Pressuposto 1. O Presidente da República é novamente eleito.
Atenta a actual situação política do país, será muito difícil que o Presidente da República (PR), e agora candidato presidencial, não seja eleito de novo. Vamos dar por muito provável este ponto.
Pressuposto 2. O Presidente da República não demite o governo.
O PR pautou o seu (primeiro) mandato pela cooperação estratégica com o Governo, e pese embora o agravamento da situação financeira, económica, política e social do país, parece pouco provável que se venha a verificar a demissão do Governo por iniciativa do PR. Poderá mudar o tom do discurso do PR, após a eleição, e poderá o Governo deixar de contar com qualquer tipo de efectivo apoio por parte do PR, mas dificilmente se verificará a demissão. Em suma, o Governo passará apenas a contar consigo próprio, mas não será, muito provavelmente, demitido pelo PR.
Pressuposto 3. O PSD quer chegar ao governo.
Claro que a situação do país é lastimável e que quem tiver que governar terá pela frente condições que se irão agravar nos anos subsequentes à eleição. Contudo, não faz sentido chamar a atenção para a má governação e recusar-se a assumir a responsabilidade de uma governação alternativa. Por outro lado, a direcção do PSD está pressionada pelo seu próprio calendário interno a tentar chegar ao poder antes do início de 2012, caso contrário corre o risco de ser substituída. É fácil vender a ideia que a substituição do actual governo constitui um imperativo nacional – grande parte da população pensa provavelmente desta forma. Podemos dar como muito provável que a direcção do PSD esteja interessada em chegar ao poder.
Pressuposto 4. Não haverá governo de coligação.
Um governo de coligação seria constituído na base dos resultados eleitorais de 2009, sendo certo que as sondagens mostram que esses resultados “passaram à História”. O PSD não deverá aceitar integrar um governo de coligação sem novas eleições, e muito provavelmente não o fará.
Pressuposto 5. Para chegar ao governo o PSD tem que derrubar o governo.
O PSD não pode contar com o PR para derrubar o governo – terá que o fazer com as suas próprias mãos. Para o efeito, será necessário apresentar uma moção de censura que recolha uma maioria de votos.
Pressuposto 6. É irrelevante se há ou não remodelação governamental.
Desde que não mude o primeiro-ministro, podemos “dar de barato” que é relativamente irrelevante quem são os ministros, uma vez que terá sempre que existir um mínimo de continuidade relativamente à situação actual.
Pressuposto 7. O governo controla o timing da vinda do FMI, o PSD não.
É importante ter em conta que a eventual vinda (regresso) do FMI para Portugal seguirá um timing que será ditado, em larga escala, pelo governo. Por várias ordens de razões que não vou enumerar, encontra-se o PSD em situação mais ingrata a esse título. Note-se que a boa afinidade entre sectores do governo e a administração norte-americana ficou patente na recente cimeira NATO, aliás tal como seria de esperar.
Estratégia 1. Deixar o governo auto-destruir-se, assistindo sentado no sofá.
A tendência do governo para a auto-destruição é significativa, e, em consequência, a melhor estratégia para o PSD é não fazer nada. Assistir no sofá é uma boa estratégia, nesta fase. O governo não irá provavelmente dar os passos necessários para recuperar o país. Se desse esses passos, não seria necessária a sua remoção. Fala-se, ao mesmo tempo, de FMI e de TGV – e está tudo dito.
Estratégia 2. Não dar tiros nos pés.
É imperioso não fazer disparates e deixar o governo desgastar-se por si só. Não interessam, portanto, mais iniciativas como o projecto de revisão constitucional. É necessário compreender que já não é necessário “marcar” a agenda mediática – os media vão ter muito com que se entreter com o governo, e não por boas razões.
Estratégia 3. Envolver o CDS no projecto alternativo de poder.
Seria de interesse envolver o CDS no projecto de um novo poder para Portugal, uma vez que não só existirão no CDS elementos úteis para a governação, como por outro lado um CDS desalinhado e pensando na sua própria sobrevivência pode causar danos consideráveis, desde logo apresentando uma moção de censura sem condições para ter êxito.
Estratégia 4. Jogar ao gato e ao rato com a extrema-esquerda.
O PSD carece dos votos da extrema-esquerda para passar a moção de censura. A extrema-esquerda, pelo seu lado, escolhe os momentos de acordo PSD/ governo para lançar as suas agitações. É necessário ter paciência. O provável agravamento das condições do país levará certamente a que a extrema-esquerda faça agitações na altura “errada” – aquela em que fica sem condições para votar contra uma moção de censura. Em último caso, existe sempre a alternativa de 1 de Maio – uma data na qual a extrema-esquerda se agita de forma previsível.
Estratégia 5. OE 2012.
Se a moção de censura falhar, fica sempre a discussão do OE 2012. Conviria, nesse caso, e tal como aconteceu este ano, deixar a extrema-esquerda falar primeiro. É em todo o caso difícil de imaginar a quantidade de dívidas que o país acumularia se o actual governo permanecesse em funções por mais um ano, sem o FMI.
José Pedro Lopes Nunes

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